Woody Allen diz que prefere o drama

Woody Allen nunca escondeu a obsessão pelos tipos inseguros, neuróticos e desafortunados. Ou mesmo a tendência pela autodepreciação. "Nunca assisto aos meus filmes porque vejo apenas o pior de mim??, conta o diretor, que reforça a extensa galeria de personagens com mais duas variações de si mesmo em O Escorpião de Jade e Hollywood Ending. "Desde os anos 60, quando ingressei no cinema, faço a mesma coisa. É um milagre eu continuar trabalhando", diz, com a característica modéstia.Com falas rápidas e ferinas, sua marca registrada, Allen interpreta um investigador de seguros que se torna o principal suspeito de um roubo em O Escorpião de Jade _ em cartaz a partir desta sexta-feira no Brasil. Em Hollywood Ending, com previsão de lançamento em outubro, seu personagem é um cineasta fracassado que perde temporariamente a visão enquanto dirige um filme. "Se pudesse, faria mais produções sérias. Como Interiores, que quase ninguém viu nos EUA. Mas tenho muito mais idéias para comédias.??Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que o cineasta de 66 anos concedeu à Agência Estado em Cannes, em uma das poucas vezes que deixou Nova York _ cenário da maioria de suas histórias. "Sou um típico sujeito de classe média. Gosto de ficar em casa." O mais nova-iorquino dos diretores ainda falou da vida pós-terrorismo na metrópole. "Não deixaria a cidade por nada. Há mais manifestações artísticas em 10 ou 15 blocos em Nova York do que em todo os Estados Unidos.?? Você costumava evitar a imprensa a todo custo. O que o fez mudar de idéia nos últimos anos?Os produtores sempre pedem que você ajude na promoção do filme. Eu confesso que não vejo resultado quando faço parte da campanha. A minha experiência nos últimos anos, de dar entrevistas e aparecer na mídia, não aumentou o meu público. São sempre as mesmas pessoas que vêem os meus filmes. Mesmo assim, fui convencido de que, se não ajudar, promover também não atrapalha a carreira do título.Suas aparições este ano no Oscar e em Cannes também surpreenderam...Eu aceitei o convite do festival de Cannes para retribuir o apoio que os franceses sempre me deram. Há 25 anos eles exibem os meus filmes no evento e eu nunca havia agradecido pessoalmente. Já comparecer ao Oscar representou uma chance de fazer alguma coisa por Nova York. A cidade praticamente se recuperou da tragédia de 11 de setembro, mas toda publicidade positiva neste momento é bem-vinda.Como vê a reação de Hollywood ao atentado, sobretudo apagar as imagens do World Trade Center dos filmes?Isso é ridículo. O que será que os produtores de Hollywood pensam? Acham que a platéia vai desfalecer ao ver as torres no cinema? Nenhum diretor responsável apagará as torres de seus filmes. Isso é coisa de iniciante, de quem tem medo de perder dinheiro ou de contrariar os executivos.Acha que Nova York perdeu algo que nunca mais poderá recuperar com o atentado?Absolutamente nada. Assim como outras cidades, como San Francisco, Paris ou Roma, Nova York simplesmente sofreu uma tragédia. Mas não perdeu nada. A situação foi traumática nos dois primeiros dias, mas tudo voltou ao normal. É a cidade mais energética do mundo. Tem tudo: parques, negócios, teatro, moda, editoras, cinemas, cabaré, dança, restaurantes, arte, etc. É por isso que você sempre filma em Nova York? Nunca se cansa do mesmo cenário?Eu prefiro Nova York porque gosto da minha casa. Gostaria de rodar em Paris, mas como filmar é um compromisso de vários meses, ainda não estou preparado para passar muito tempo longe. Outra opção seria Los Angeles, mas não gosto da atmosfera da cidade, onde ninguém sobrevive sem carro. Também não suporto o calor. Em Nova York temos todas as estações bem definidas. Adoro a neve, algo impossível de encontrar na Califórnia. Sem falar que circulando em Los Angeles você só encontra pessoas ligadas à TV ou ao cinema. Nova York é mais cosmopolita. Há profissionais de todas as áreas imagináveis.Você inicia o roteiro de seus filmes pela história ou pelos personagens?Depende. Às vezes tenho inicialmente a idéia para um personagem. Outras vezes penso primeiro na história. Geralmente tenho as idéias espontaneamente, quando estou caminhando pela rua. Para não esquecê-las, caso esteja com outro filme na cabeça, escrevo e guardo a anotação em uma gaveta. Hollywood Ending, por exemplo, eu comecei a desenvolver pela idéia da doença psicossomática. Primeiramente pensei em criar um personagem que, do dia para a noite, não consegue mais se mover. Depois achei que ficaria mais engraçado se ele ficasse cego. Daí pensei em um cineasta, já que ele precisa ter visão ou pelo menos precisa fingir que tem para dirigir um filme.Com um cineasta como protagonista, você não resistiu a ficar com o papel...Eu sou mesmo perfeito para o papel por ser um diretor neurótico nova-iorquino. Mas reconheço as minhas limitações como ator. Eu posso interpretar apenas alguns personagens. Posso ser o diretor, o escritor e o músico porque são coisas próximas. Mas confesso que sempre tive dificuldade para escalar atores. Profissionais do calibre de Tom Hanks, Tom Cruise ou Dustin Hoffman nunca estão disponíveis quando eu preciso.Como explica estar sempre cercado de mulheres bonitas no set? Seja Helen Hunt em "O Escorpião de Jade?? ou Téa Leoni em "Hollywood Ending??? A culpa não é minha (risos). A maioria das mulheres do cinema é mais bonita que a média. Talvez porque isso faça parte da profissão, principalmente nos EUA. Às vezes tenho dificuldade para escalar um homem do tipo comum. Quase não existe. Por conta disso já tive de recorrer a atores britânicos. Mas confesso que prefiro a companhia de mulheres no set. Sempre digo que, se o mundo fosse mais matriarcal, seria muito melhor.

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