Woody Allen, cada vez mais engraçado

Pode ser que Woody Allen não sejamais tão profundo, mas ninguém pode negar que esteja cada vezmais engraçado. Se duvidar, confira este O Escorpião de Jadeque está entrando em cartaz na cidade. Você irá ver um Allenlivre, leve e solto, empenhado apenas naquilo que sabe fazermelhor - humor. E humor inteligente, sofisticado sem necessidadede ostentação de QI. A trama usa um recurso cômico dos mais manjados - apessoa hipnotizada, que faz as coisas e depois não se lembra denada. Allen é C.W. Briggs, detetive de uma companhia de seguros,e que tem em seu currículo a recuperação de um Picasso quedesaparecera. Mas seu reinado passa a perigar com a contrataçãode Ann Fitzgerald (Helen Hunt), gerente que propõe novos métodosde organização para a empresa. Ela é esse tipo de profissional,amado pelos patrões, que gosta de cortar custos e funcionários.Briggs é um velho detetive, auto-suficiente, avesso a novidades.Ann e Briggs se detestam, de forma nada cordial. Numa festa da firma, um mágico hipnotiza os dois e fazcom que se acreditem perdidamente apaixonados um pelo outro. Maso hipnotizador guarda para si um trunfo na manga. Sob o estímulode uma determinada palavra mágica, Allen passará a agir sob oseu controle, e uma vez desperto irá ignorar o que fez. Muito útil, pois esse detetive especializado em furtos poderá serusado justamente para furtar. No caso, afanar jóias de grandevalor, entre elas o escorpião do título. O recurso cômico fazcom que Briggs passe a investigar crimes que ele mesmo cometeu.E viver aventuras que não havia previsto - sendo que conhecer oavião Charlize Theron certamente não é das menores. Com O Escorpião de Jade, além de continuarinvestindo na linha da comédia pura, Allen dialoga com algumastradições do melhor cinema americano, no caso a do filme noir.Um diálogo cômico, desmistificador, que corrói a seriedade dotipo consagrado por Humphrey Bogart, um dos ícones de Allen.Briggs é um Sam Spade trapalhão, pouco à vontade diante demulheres desinibidas e, no fundo, nem um pouco brilhante. Mas éa soma de suas insuficiências que faz o seu encanto. E, claro, há uma inteligência de fundo nesse detetiveboboca, que acabará por conquistar não apenas a platéia como umamulher em princípio refratária a ele. Allen é um mestre nessetipo de autoparódia. Construiu a imagem de fragilidade para simesmo, para seus personagens, e trabalha bem com o estereótipo.Sabe mantê-lo e desconstruí-lo ao mesmo tempo. Quer dizer, sabeque o público deseja ver um Woody Allen frágil e limitado, sendoque esse mesmo público sabe que ele não é nada disso narealidade. É, sim, uma pessoa extremamente bem-sucedida, quecontrola com eficácia a sua vida profissional e pessoal. Pode-seintuir que seja também muito bem resolvido mentalmente, porcausa, ou talvez apesar das incontáveis horas de vôo em divãs deanalistas. Pelo menos, para a felicidade dos seus fãs, Allen temsabido administrar sua angústia e diluí-la em doses generosas dehumor. Basta lembrar que desde o doloroso fim do casamento comMia Farrow, ele já dirigiu filmes tão engraçados como "PoderosaAfrodite", "Desconstruindo Harry", "Trapaceiros" e agora"O Escorpião de Jade". Um longa-metragem por ano, mantendoinvejável nível médio de qualidade, e paradoxalmente sofrendopara encontrar público em seu país de origem. Já se disse que Woody Allen é intelectual demais,sofisticado demais para ser apreciado nos EUA. Talvez seja isso,mas é de estranhar que nem mesmo um público, digamos, maisseleto, assista aos seus filmes lá. Talvez seja um agravante ofato de que, mesmo na mais despretensiosa comédia, Allen nãodeixe de alfinetar com precisão aquilo que o desagrada no modode vida americano. Ou seja, quase tudo, com exceção da música eda atmosfera de Manhattan, pré-11 de setembro.

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