Woody Allen ataca a fama em "Celebridades"

A mais ácida e bem-humorada crítica de Woody Allen ao mundo dos famosos, Celebridades, finalmente chega ao Brasil, dois anos depois de seu lançamento nos Estados Unidos. Naquela época, o diretor guardava ainda resquícios de sua separação de Mia Farrow, caso explicitamente tratado nos tablóides americanos, e dali para a imprensa de todo mundo. Conseqüência óbvia de sua fama, o inferno de Allen deu pano para manga, e principalmente, para novas experiências cinematográficas.Celebridades remonta a diversos trabalhos do diretor, sem abusar, porém, da narrativa intrincada e do intelectualismo característico de sua obra. Mas lá está, por exemplo, o alter ego do diretor, na pele do shakespeariano Kenneth Branagh, que adotou os trejeitos de Allen (como a fala levemente neurótica e atrapalhada) com bastante fidelidade.Branagh é um jornalista em busca da fama. Convencido de que não pode atingir a glória metido em sua rotina, e também seduzido pela frivolidade do mundo dos famosos, decide separar-se da mulher, uma professora de inglês de pouca ambição interpretada por Judy Davis. O disparate do filme parte desse ponto. A análise sádica dessa sociedade acaba abrangendo não só o mundo que rodeia o jornalista mas também ele próprio, e conseqüentemente seu criador: Allen. Uma vez separado, Branagh cai numa rede de decepções e seduções, que o afastam cada vez mais do sucesso. Dentro dessa realidade, lá está o personagem feio mas inteligente e interessante que vive com mulheres bonitas, que tantas vezes o próprio diretor interpretou. E ele se dá mal, ainda que tente mudar.Em essência, o que Allen procura é insultar a fama: o fracasso do personagem não está ligado a sua integridade, mas sim à própria hipocrisia deste universo. Não a toa que o romance que o jornalista tenta publicar trata de uma surrealidade interessantíssima: um mundo onde todas as pessoas são famosas.Para acentuar ainda mais essa crítica, a insegura personagem de Judy Davis consegue atingir a fama tão procurada pelo ex-marido: ganha um quadro num programa de TV e passa a entrevistar celebridades em restaurantes de Nova York. A diferença é que ela nunca quis se tornar famosa, e foi por um acaso que conquistou o coração de um famoso produtor de televisão. O último entrave que dificultava sua ascensão - a falta de auto-estima e a timidez - é solucionado quando resolve aprender a satisfazer sexualmente o novo cônjuge, numa das cenas mais divertidas do filme, quando recebe aulas de sexo oral de uma prostituta.Uma das cenas do filme revela a análise audaciosa de Allen. Como num espelho, vêem-se na tela dezenas de pessoas - entre elas algumas celebridades - assistindo à pré-estréia de um filme. Ao som da 5º Sinfonia de Beethoven, aparece uma mensagem dentro desse filme: um avião desenha com fumaça, no céu, a palavra "socorro". Resta saber quem é que pede: as celebridades, seus fãs, ou o próprio Allen.

Agencia Estado,

05 de outubro de 2000 | 22h15

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