'Winter Sleep' destaca relação entre ricos e pobres e homens e mulheres

Filme é vencedor do Festival de Cannes

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2014 | 20h24

Winter Sleep é um filme sobre o tempo, e não apenas devido à sua duração de 3h16. O tempo está em sua estrutura mesma e não somente em sua extensão. O longa de Nuri Bilge Ceylan foi contemplado com a Palma de Ouro em Cannes este ano. 

Conta em seu favor um traço autoral facilmente reconhecível desde os primeiros planos de seus filmes, a ocupação da tela inteira com panoramas desolados, nos quais o ser humano parece desaparecer ou, ao menos, tornar-se minúsculo e oprimido. É assim em Era uma Vez em Anatólia e, também assim, em Winter Sleep, esse longo sono de inverno em que parece imerso o personagem principal, Aydin (Haluk Bilginer), um ex-ator e escritor de meia idade, casado com mulher mais jovem, em meio à sua propriedade rural agora transformada em hotel.

Nesta propriedade, há inquilinos de casas no entorno do hotel, que as alugam desde o tempo do pai de Aydin. Numa delas, a família se encontra em dificuldades e atrasa nos pagamentos. Será um dos polos do conflito instalado em torno de Aydin. Há outros: a própria esposa e uma irmã que, separada do marido, veio morar com ele e funciona como uma espécie de consciência crítica de tudo aquilo que ele escreve ou faz.

Na verdade, Aydin é uma espécie de consciência infeliz, que atravessa mal a meia-idade e sente-se desconfortável no posto herdado do pai. O envelhecer é essa linha que liga o Aydan atual ao jovem idealista que ele um dia foi, o que nunca é mostrado, mas inferido pelas conversas que tem com os outros.

E como se conversa neste filme! Os diálogos são longuíssimos, seja entre Aydan e seu ajudante de ordens, seja entre ele e a esposa e entre ele e a irmã. Há também demorados encontros com amigos, em conversas sempre regadas a muito álcool. Bebe-se, fuma-se e conversa-se muito em Winter Sleep. Os reais dramas filtram-se através desses diálogos que nem sempre se referem diretamente ao assunto crucial que os motivou. O filme é profundamente alusivo.

Mas há um incidente crucial, em torno do qual se pode dizer que ronda toda a trama. Um dia, o carro de Aydin é apedrejado por um garoto numa das desoladas estradas do planalto da Anatólia, onde tudo se passa. O menino é filho de um inquilino de Aydan, justamente aquele que está em atraso nos aluguéis e pode ter se sentido ofendido com a cobrança. Esse é o trauma, uma espécie de fenda em torno da qual se estrutura toda a narrativa.

Aydin é o tipo deslocado, o homem fora do lugar. Infere-se que seu pai, o antigo proprietário das terras, comportava-se como um senhor feudal, de autoridade indiscutível. Ora, agora o dono é um ex-ator, um intelectual, alguém que “não sabe mandar”, como diz textualmente seu auxiliar. Mas, que, ao mesmo tempo, não deixa de usar sua autoridade canhestra, seja com os inquilinos, seja com a mulher e a irmã.

Ceylan filma esses relacionamentos complexos com toda a paciência do mundo. Não lhe importa demonstrar teses de maneira fácil e imediata. Deixa que os personagens exponham suas contradições e enigmas. O que dizem contêm também seu outro tanto de silêncio e mistério. Muito se fala, mas, quanto mais se fala, mais se sente que as palavras são insuficientes e sempre deixam algo à margem. Inútil dizer a inspiração em Chekhov para estes diálogos que sempre querem dizer algo além da mera aparência das palavras. E também em Dostoievski que, para o espectador atento, comparece com ideia poderosa da humilhação do pai diante do filho, uma passagem inesquecível de Os Irmãos Karamazov.

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