Amazon via AP
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William Shatner se maravilha com o voo da Blue Origin e a Terra 'finita'

O ator é mais conhecido por seu papel como o Capitão Kirk de ‘Star Trek’

Entrevista com

William Shatner

Lynn Elber, AP

15 de dezembro de 2021 | 10h00

LOS ANGELES - O longevo papel de William Shatner como avatar da promessa espacial atraiu um frenesi de atenção quando a ficção se tornou realidade com sua viagem de foguete.



O ator de Star Trek diz que ficou tão surpreso quanto gratificado pela excursão suborbital de dez minutos possibilitada pelo bilionário Jeff Bezos. A experiência é o tema de Shatner in Space, especial de uma hora de duração lançado na quarta-feira no Amazon Prime Video e que chega ao Brasil em 25 de fevereiro de 2022.

O especial detalha o voo ocorrido em outubro passado que fez de Shatner, 90 anos, a pessoa mais velha a chegar ao espaço e explora o que o serviço de streaming chamou de “crescente amizade” entre Shatner e Bezos. O fundador do império da Amazon diz que Star Trek acendeu seu interesse pelas viagens espaciais.

Shatner, cujas décadas de carreira incluem The Defenders, T.J. Hooker e Boston Legal, além da série e dos filmes Star Trek, queria fazer parte do lançamento da Blue Origin de Bezos em julho passado, o primeiro com passageiros. Shatner sentiu que ingressar na segunda viagem era como ser nomeado vice-presidente, quando o sonho era o Salão Oval.

Ele discutiu sua mudança de opinião e o impacto do voo numa entrevista à Associated Press, alternando entre o filósofo e o hábil contador de histórias que, a certa altura, invocou a explosão do dirigível Hindenburg em 1937. As respostas foram editadas por questões de extensão e clareza.



 

O gosto pela aventura às vezes diminui com o passar dos anos, mas não o seu. Como você explica isso?

Bom, nos últimos anos venho fazendo um monte de coisas tolas, de acordo com minha esposa. Acho que sou viciado em adrenalina. Alguns anos atrás, viajei de motocicleta pelo país e mais recentemente mergulhei a 18 metros de profundidade para visitar quatro tubarões-tigre. É claro que penso, “Oh, meu Deus, estou correndo o risco de morrer aqui”. Mas não sentia a necessidade de viajar para o espaço. Por que deveria me colocar nessa situação? É desconfortável. Tenho “lençóis de veludo”, como diz minha esposa, posso só ficar em casa, bem aconchegado. Mas pensei um pouco mais a respeito, a ideia de leveza, de estar no espaço, a sensação de estar lá e decidi: “eu vou”. Quando a ideia chamou a atenção das pessoas, fiquei absolutamente chocado. Fiquei tão chocado com a atenção quanto com o voo em si.


 

É que você é o capitão Kirk...

Eu sei. Mas isso foi 55 anos atrás. Aconteceram outras coisas desde então. A aquisição de conhecimento foi chocante, a popularidade foi chocante. Tudo foi extraordinário.


 

Antes do voo, você deu entrevistas nas quais se mostrou preocupado com os perigos da viagem. Era nervosismo ou só brincadeira?

Você nunca ouviu falar do incêndio do Hindenburg? É hidrogênio queimando. É isso que tem no tanque (do foguete).


 

Você teve uma conversa emocionante com Jeff Bezos logo depois do voo. O que o deixou tão profundamente tocado?

Nos últimos 50 anos, mergulhei na conectividade da Terra, na maneira como tudo está conectado. Tudo é lindo na Terra e, mesmo assim, destruímos milhões de coisas (vivas). E aí eu vi a Terra e senti muita tristeza. Vi como a Terra é finita. Você e eu somos pequenos pontinhos, menores que formigas. Somos insignificantes neste planeta insignificante. E, no entanto, estamos cientes, somos observadores dessa insignificância. E isso é muito significativo.


 

‘Star Trek’ retratou um comportamento humano avançado, que ainda não alcançamos. Como você vê o mundo em termos políticos e ambientais?

Os seres humanos resistem às mudanças, provavelmente por causa de nossa constituição natural. Mas a mudança está acontecendo muito rápido, mais rápido do que imaginávamos. Os pontos de inflexão dessas mudanças aconteceram nos últimos 50 anos, e vai levar mais de 50 anos, acho eu, para a humanidade dizer, “Meu Deus, as calotas polares estão derretendo”.




 

Você está otimista com o futuro?

Conversei com Bezos várias vezes durante as filmagens deste documentário e tenho esperança de que parte dessas conversas estejam lá. A última frase que ele me disse, que ainda está ressoando na minha cabeça, é: “Você tem que ter esperança. Sem esperança, não sobra nada”. Então ele está ocupado, tentando levar a indústria para o espaço, para a órbita geocêntrica, e temos tecnologia para fazer tudo isso.


 

Muitas décadas se passaram desde ‘Star Trek’, mas as pessoas ainda veem o capitão Kirk como parte de sua personalidade pública. É uma coisa que você deseja ou que você evita?

Certa vez, alguém disse: “Você tem a carreira que merece”. E dá para mudar as palavras e dizer: você tem a vida que merece. Você tomou as decisões com base no que sabia na época. Você gostava do cara, você não gostava do cara, você queria morar na cidade grande. De acordo com as várias circunstâncias, você virou para a esquerda ou para a direita. Você não pode se arrepender de ter tomado certa decisão, porque ela se baseou na sua necessidade, fosse ela qual fosse.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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