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Will Smith. O matador que um dia se vê perseguido por uma versão mais jovem de si mesmo, um clone de 23 anos Paramount

Will Smith é o caçador que vira caça em 'Projeto Gemini'

Para diretor Ang Lee, longa, que estreia dia 10, é thriller de ação com ficção científica, mas no fundo é um drama

Mariane Morisawa, Especial para 'O Estado'

05 de outubro de 2019 | 14h00

LOS ANGELES - Ang Lee gosta de experimentar novas tecnologias. Em As Aventuras de Pi, pelo qual levou seu segundo Oscar de direção, todo o cenário e os animais eram digitais. Em A Longa Caminhada de Billy Lynn, sobre um soldado que volta para casa depois de lutar na Guerra do Iraque, utilizou 120 quadros por segundo (em vez dos tradicionais 24) e 3D. 

Lee volta a usar o mesmo recurso em Projeto Gemini, que estreia na quinta-feira, 10, no Brasil, mas com algumas complicações, por exemplo, um Will Smith de 23 anos de idade criado por uma combinação de captura de performance e animação. “Quero deixar bem claro que não é rejuvenescimento, como tantos outros filmes têm feito”, disse ele em entrevista coletiva em Los Angeles, sem citar exemplos como Capitã Marvel e O Irlandês. “Nós criamos um novo personagem, um jovem Will Smith”, completou. O próprio ator enfatizou a diferença. “Não sou eu, é alguém recriado. É como os personagens de O Rei Leão”, disse. 

Mas é um pouco mais complexo ainda do que isso. Porque Ang Lee, mesmo gostando de tecnologia e efeitos visuais mirabolantes, é basicamente um ator de drama - seu outro Oscar de direção foi por O Segredo de Brokeback Mountain, afinal. “O filme é um thriller de ação, com um pouco de ficção científica, mas no fundo é um drama”, explicou o cineasta. 

Will Smith interpreta Henry Brogan, um matador, que um dia se vê caçado por um outro matador: uma versão mais jovem de si mesmo, um clone que atende pelo nome de Junior. “Precisava ser uma pessoa. Não um robô, mas um ser humano de verdade, um personagem realista, não apenas para um filme de ação, mas para um drama”, disse Lee. “Eu me identifiquei muito com Henry. Se você pudesse viver duas vezes e encontrar sua versão mais jovem, o que diria para ele? E qual seria o seu futuro, como viver com sua própria trajetória? Essas questões existenciais estão escondidas no entretenimento, o que é empolgante para mim. Então esse clone precisava ter alma e emoção.” 

Para Smith, foi um desafio como poucos em sua carreira. “Deu um pouco de medo, porque seus velhos truques não funcionam. Coisas que posso esconder em 24 quadros por segundo são impossíveis de disfarçar em 120 quadros por segundo. E com a câmera 3D toda tomada é muito próxima, então dá para ver cada poro. Se você fingir um momento, todo o mundo vai ver.” Quando contracenou consigo mesmo, primeiro filmou todas as cenas como Henry, com outro ator - que estudou o Will Smith aos 20 e poucos anos - fazendo o papel de Junior. Depois, no fim, com a parafernália de captura de performance, Will Smith fez a parte de Junior. Há cenas de luta, inclusive, que foram feitas assim, só que com um dublê fazendo a parte de Junior, já que o rosto seria recriado pelos artistas da WETA Digital. 

Para Ang Lee, o processo todo é diferente. “É como percebemos as pessoas na vida, não é um ator com suas motivações”, lembrou. “Então a maneira de interpretar esses personagens com essas tecnologias é não atuar, mas usar o instinto. Meu modo de dirigir também precisa mudar. Preciso fazer com que os personagens fiquem vivos, reais. Se o ator atuar, dá para ver que está atuando. É preciso sentir as profundezas da vida, da emoção, e isso vai atingir o público. O ator precisa ser real, complicado, sutil, maduro. Tem de ser um ator melhor. Mas a recompensa é bonita.” Will Smith disse que não teme que o ator fique obsoleto. “Acho que não, porque ainda se trata do coração e da alma humanos. Um computador nunca vai ser capaz de reproduzir os erros humanos e o embargo na voz”, considerou.

Ang Lee admitiu que não sabe ainda se seu experimento deu certo, mas que houve um aprendizado em relação a Billy Lynn. “Lá foi minha primeira experiência com a cadência mais rápida e foi como se eu tivesse de trocar de religião”, contou. “Tive de me livrar de alguns dos velhos métodos de fazer cinema. Aqui, eu sei melhor o que estou fazendo. E também é um filme numa direção oposta, um artifício completo, uma história ficcional, de gênero. Queria que fosse bonito, estudamos muito como fazer a luz. Estou numa missão de tentar descobrir uma nova estética no cinema digital, que é dimensão com clareza. Dá para sonhar com clareza? Essa era a minha nova tarefa.” 

O diretor espera que o público e outros diretores abracem essa nova maneira de fazer cinema. “Eu acredito que há um novo território a ser explorado, que vai trazer pessoas de volta às salas de cinema, em vez de assistirem na televisão ou no iPhone. Porque, num filme com essa tecnologia, você não está vendo a história de alguém, mas vivenciando a história. É uma experiência imersiva, e eu acredito tremendamente nela.”

 

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‘Nós criamos os nossos próprios inimigos’, diz Will Smith

Aos 51 anos, ator confronta a si mesmo em 'Projeto Gemini', que estreia no dia 10

Entrevista com

Will Smith, ator

Mariane Morisawa, Especial para 'O Estado'

05 de outubro de 2019 | 14h00

Aos 51 anos, Will Smith confronta a si mesmo em Projeto Gemini. O ator falou do filme em uma coletiva para a imprensa em Los Angeles. 

 

Você disse que, aos 23 anos, não poderia interpretar papéis como o que vive agora no filme. Por quê?

Para Ang Lee, era algo muito pessoal. Nas nossas conversas iniciais, ele falou muito de si mesmo, para me fazer entender o que estava tentando captar entre esses dois personagens. Aos 23 anos, eu nem sequer compreenderia o que ele estava tentando dizer, da reflexão de pensar em quem você é, o que fez, ver uma versão similar de si mesmo indo pelo mesmo caminho e lutar contra o arrependimento. 

 

O filme usa muitos espelhos. É uma metáfora?

Sim, eu gosto muito da ideia de que você guarda as sementes de seu próprio pesadelo. Que nós criamos nosso pior inimigo. 

 

Que tipo de comentário político e social o filme está fazendo sobre corporações e o governo?

Para mim é menos sobre o governo e a política e muito mais sobre a arrogância do ser humano, a insanidade de querer ser Deus, controlar a natureza e achar que tem o direito e o dom da criação. 

 

Quais eram suas expectativas antes de começar a trabalhar com Ang Lee?

Existe uma diferença entre o ator e o astro de cinema. E uma das diferenças é que o astro precisa carregar o filme nas costas. O astro precisa dizer para todo mundo relaxar, fazer isso e aquilo para chegarmos até a semana de estreia. Mas, quando se trabalha com um diretor como Ang Lee, você é somente um ator. Ele assume todo esse peso. Então é um alívio trabalhar sabendo que alguém tem o controle da situação. E isso faz com que você se abra mais na sua interpretação.

 

Vídeo mostra processo de rejuvenescimento de Will Smith em ‘Projeto Gemini’:

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Versão digital tem até os poros de Will Smith

'É muito difícil reproduzir o rosto humano, era preciso usar toda a ciência disponível e ter uma performance incrível do ator”, explicou o supervisor de efeitos especiais Guy Williams

Mariane Morisawa, Especial para 'O Estado'

05 de outubro de 2019 | 14h00

Criar animais com o nível de fidelidade de O Rei Leão é um desafio e tanto. Imagine então criar digitalmente um rosto humano com todas as suas emoções? Foi isso o que fizeram os especialistas em efeitos visuais de Projeto Gemini. “É um ser humano completamente digital”, enfatizou Bill Westenhofer, supervisor de produção. “Não pegamos o Will Smith maquiado e demos um tapa no computador para rejuvenescê-lo”, completou. Havia muitas razões pelas quais isso não poderia ser feito no filme. Uma delas é que há cenas de luta entre o Will Smith velho e o Will Smith novo. “Fora isso, com 120 quadros por segundo, dá para ver toda a maquiagem. Era preciso ir mais fundo”, explicou. 

Para o supervisor de efeitos especiais Guy Williams, da WETA Digital, era um sonho trabalhar com Will Smith. “Mas também ficamos aterrorizados, porque ele envelheceu 2 semanas em 25 anos”, disse. “Queríamos captar todas as nuances de sua performance. E é muito difícil reproduzir o rosto humano, era preciso usar toda a ciência disponível e ter uma performance incrível do ator.”

A equipe coletou todas as fotos possíveis do Will Smith de 25 anos atrás, especialmente as mais espontâneas. O próprio ator também posou para centenas de fotos de todos os ângulos possíveis, com todas as expressões faciais possíveis e com todas as luzes e sombras possíveis. Um ator com a idade do personagem também foi fotografado para ajudar na reprodução da pele. 

No set, Will Smith contracenava com um ator, para que as cenas ficassem mais realistas e também para auxiliar os artistas da WETA a capturar corretamente as pausas no diálogo. Depois eles colocaram Will Smith para fazer uma captura de movimentos, para que os animadores pudessem trabalhar em cima de sua performance. “Foi muito difícil, porque qualquer coisinha fora, o formato do olho ou da boca, por exemplo, não significa que o trabalho parece errado. Simplesmente não parece mais o Will Smith.” Foi especialmente delicado quando os dois Wills lutam, com contato físico intenso, inclusive dos rostos lado a lado. 

Também foi necessário estudar não apenas como a emoção afeta as expressões, mas até a coloração da pele e dos olhos. E atenção especial foi dada aos poros e à oleosidade da pele, coisas fundamentais para oferecer a textura correta. O que é pior é que não necessariamente isso vai fazer com que o próximo filme a usar a mesma tecnologia seja fácil. “Porque, no fim, cada ser humano é único”, disse Guy Williams. 

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