Will Smith, bad boy só no cinema

Will Smith chega bem-humorado para o encontro com os jornalistas, numa suíte do exclusivíssimo Hotel Mandarin Oriental. Está aqui para divulgar, com o parceiro Martin Lawrence, a seqüência de Bad Boys. A entrevista é feita em junho, uma semana antes da estréia de Bad Boys 2 nos EUA. No Brasil, o filme estréia hoje. Bad Boys 2 é uma daquelas estréias arrasa-quarteirão. Centenas de cópias para forçar o público a ver Bad Boys 2. Se o boca a boca não funcionar, o filme já terá feito seus 200/300 mil espectadores. E assim Hollywood vai mantendo a hegemonia do mercado.Não há como negar: Will Smith é uma simpatia. Martin Lawrence também procura ser agradável, mas da parte dele percebe-se que vai nisso certo esforço. Já Smith... Impossível imaginar alguém mais de bem com a vida. Há uma jornalista no pequeno grupo que o entrevista. Quer saber como ele se sente sendo objeto de desejo das mulheres. "Desfrutem-me (Enjoy me)", ele diz. Depois, fala sério: "Quando dizem que sou bonito e gostoso, acho a maior graça. Aos 17 anos eu já tinha essa altura, era magro e desengonçado e ainda tinha as orelhas do Dumbo." Confirma que fez plástica corretiva, o que já foi objeto até de piada no Oscar e acrescenta: "Eu me sentia esquisito, mas nunca me dei mal com as mulheres. Sempre consegui fazê-las rir e, se você faz uma mulher rir, metade do caminho já está andado."Bad Boys, o primeiro filme da série, foi um dos hits do verão americano de 1995. Vieram depois os mega-sucessos que estabeleceram o prestígio de Smith como astro: Independence Day e MIB - Homens de Preto. Smith arrebentou de novo com MIB 2 e, agora, com Bad Boys 2. Na história, Lawrence e ele caçam um traficante latino que domina as drogas de Miami. O cara tem uma relação problemática (edipiana? incestuosa?) com a mãe. Smith envolve-se com a irmã de Lawrence (Gabrielle Union). A ação converge para Cuba, com direito a desfecho junto à muralha que separa a base de Guantánamo do território cubano. Smith admite o apoio da comunidade cubana de Miami aos dois filmes dirigidos por Michael Bay. "É favorável a eles, sejamos francos."Autocrítica - Não considera que o filme seja prejudicial à imagem dos latinos, por mostrar um vilão corrupto e violento. "O público não é tão manipulável assim", acredita - ou tenta acreditar. Tem uma visão crítica do próprio sucesso em Hollywood. "Richard Pryor, Eddie Murphy, Martin Lawrence e eu. Se pagam o nosso preço é porque nossos filmes fazem sucesso. Hollywood pensa em termos de lucro, não de cor da pele." Alegra-se quando o repórter diz que seu melhor filme é Ali, de Michael Mann, baseado na história de Muhammad Ali, ex-Cassius Clay. "Também acho muito bom, mas pela natureza do personagem o filme não teve a mesma exposição dos blockbusters de que participei." Acha divertido estrelar seqüências. "Em geral, elas exigem mais ação, mais efeitos para funcionar."Há uma cena eletrizante de perseguição de carros nas ruas de Miami em Bad Boys 2. A rodagem durou uma semana e causou o maior tumulto de toda a história do tráfego de Miami. Confessa que teve medo. "Tínhamos dublês em alguns momentos, mas no geral éramos nós, Martin e eu." Deve haver algo de amor-ódio, de atração-repulsa na atitude de diretores como Michael Bay, que fazem os filmes que Hollywood quer, objetos descartáveis para arrebentar nas bilheterias e, ao mesmo tempo, celebram a destruição justamente do carro, como símbolo dessa sociedade consumista. "O espírito é esse mesmo, bro", usa a abreviação de brother. Acha importante não se deixar seduzir pela máquina do cinemão. "É difícil, mas não impossível", diz. Considera-se um homem da família. O irmão o acompanha, é seu agente. E Smith adora os filhos. "Faço esses filmes, mas acho que no fundo é uma irresponsabilidade. Se alguém fosse dirigir assim no trânsito normal, colocando a vida de meus filhos em risco, não sei o que teria vontade de fazer." Não é uma contradição dele? "Vou lhe confessar uma coisa: quem não vive situações contraditórias nesse louco mundo atual?"

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.