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'Whiplash' entra como azarão na briga pelo Oscar de melhor filme

J.K. Simmons interpreta maestro de jazz, o mais livre dos gêneros

Roberto Gervitz, Especial para O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2015 | 18h17

Whiplash é um longa americano indicado para o Oscar de melhor filme e ator coadjuvante (J.K. Simmons), o que é sempre visto como um prodígio para os filmes independentes e de “baixo orçamento” (para padrões hollywoodianos). É fato, no entanto, que nos últimos anos isso tem acontecido amiúde. 

Eu me pergunto se os filmes independentes deram um salto em seu nível de realização ou se agora estão alcançando o que sempre desejaram - pisar no tapete vermelho do mainstream, abandonando a batalha de trilhar caminhos próprios e originais. 

Whiplash é competente, embora bastante convencional em sua abordagem e seus valores. O roteiro conta com todas as “viradas” recomendadas nos manuais, é recheado de situações clichês, além de reciclar a já surrada trajetória de um indivíduo candidato a loser que alcança, tal qual num conto de fadas de roupagens realistas, a condição de estar acima de todos os medíocres mortais que o rodeiam - é o herói americano.



Quem sabe por tratar da arte e da criação, universo para mim familiar, Whisplash não tem nada de notável, a não ser a contundência com que defende certos valores que me provocaram indignação. 

Trata-se da história de Andrew (Miles Teller), jovem aspirante a baterista de jazz que estuda em um conservatório de prestígio. Ali, o primeiro degrau para a glória é fazer parte de uma banda regida por Fletcher (J.K. Simmons), um professor com “superpoderes” discricionários que encarna o grande filtro para o seleto mundo dos que chegam à perfeição. Esta é a palavra-chave que o distribuidor brasileiro não deixou passar em branco - aqui o filme está nos guias como Whiplash - Em busca da Perfeição

Andrew tem 19 anos, perdeu a mãe muito cedo e vive com seu pai - um homem afetuoso, mas que não alcança compreender os sonhos do filho. Por ser afetivo, querer evitar o seu sofrimento e ser destituído de ambição profissional, o diretor e roteirista Damien Chazelle faz dele o exemplo máximo do loser, quase um leproso naquela sociedade em que a principal indagação a se fazer sobre um homem é: winner or loser? 

A transformação brutal de Andrew começa quando em solitária performance movida pelo prazer e a busca de crescer como instrumentista, é visto e chamado por Fletcher para integrar sua seleta banda de jazz. 

Fletcher atira o jovem jazzista no “mundo real” - tocar um instrumento não pode ser fonte de prazer, pelo contrário, a sua vocação só terá algum sentido se ele se entregar à luta incansável para ser o melhor. 

Somente a competição encarniçada contra os colegas que almejam o seu posto vai dizer se ele é um músico ou um lixo ambulante. Pouco importa o que ele pense sobre si mesmo. A resposta virá de fora, através de Fletcher, o juiz implacável e definitivo.

Fletcher é o poderoso contraponto ao pai afetivo, o pai castrador - uma espécie de torturador, cruel e inclemente, uma reencarnação do oficial de Full Metal Jacket (Nascido para Matar), de Stanley Kubrick, a quem este último deu cabo ainda no meio do filme, mas que o roteirista e diretor Damien Chazelle chancela e justifica. 

Fletcher - forte, cruel e carismático - se veste como um franco-atirador e se comporta como um oficial fascista - submete seus músicos a ofensas públicas de toda ordem e humilhações violentas. Impondo rigor absoluto e disciplina férrea, Fletcher é mais que improvável, é um inverossímil maestro de jazz.

A música é tida por muitos como a mais abstrata das artes e o jazz, o mais livre dos gêneros. Salta aos olhos a ignorância musical de Chazelle que escolheu o jazz para fazer a apologia da precisão, pois é justamente neste gênero que o improviso é considerado o momento máximo, escapando a qualquer partitura e limite. Falo do jazz moderno, que ganha força com Charlie Parker, tantas vezes citado no filme, como o músico que caiu em si depois que lhe atiraram um prato na cabeça(!!!).

O conceito tecnocrata de perfeição confunde grande arte com virtuosismo, ignorando a grandeza da performance jazzística em que os instrumentistas criam sós e conjuntamente, desafiando o que é certo e errado e entregando-se ao desconhecido. 

A perfeição, já disse Gilberto Gil, “é uma me…ta defendida pelo goleiro que joga na seleção”, nada tem a ver com a criação. A arte busca reorganizar e dar inúmeros sentidos ao caos da vida, mas o rigor, sempre necessário, obedece a outras instâncias em muito distantes de uma obtusa visão dualista.

Whiplash expressa a crença de que temos que sangrar física e psiquicamente para alcançarmos a “excelência”. O prazer de realizar é algo menor e só cabe ao final do árduo caminho para a vitória pessoal nos termos do pai castrador - seja Deus ou uma de suas encarnações seculares como o mercado.

A questão é que o pai castrador não quer a nossa realização, mas, sim, a nossa anulação. E tudo o que fizermos pelos caminhos que ele aprovar será contaminado pela pulsão mórbida. É o que vemos ao final conciliador do filme, quando o filho só consegue enfrentar o pai no seu (do pai) próprio terreno. Não existe conciliação possível quando afirmamos um caminho próprio.

Whiplash - Em Busca da Perfeição é mais uma construção mistificadora e enganadora daqueles que acatam sua estética e seus valores.

* ROBERTO GERVITZ É DIRETOR E ROTEIRISTA DE FILMES COMO 'FELIZ ANO VELHO' E 'JOGO SUBTERRÂNEO'. SEU MAIS NOVO FILME, 'PROVA DE CORAGEM', SERÁ LANÇADO NO PRÓXIMO SEMESTRE

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