Westerns para colecionadores invadem as locadoras

Mais de 20 anos - exatamente 23 - separam Paixão dos Fortes, de John Ford, de 1946, e Butch Cassidy, de George Roy Hill, de 69. Em termos cronológicos, isso corresponde a mais que uma maioridade (21 anos) e o cinema, com certeza, mudou muito entre a realização de um filme e outro, mas seria um erro considerar o de Hill mais maduro que o de Ford. Ambos são marcos na história do western, que a Fox Classics agora resgata em dois lançamentos exemplares. Butch Cassidy sai em DVD duplo, carregado de extras, incluindo comentários do diretor, do fotógrafo Conrad Hall e do roteirista William Goldman, mais créditos alternativos e uma cena excluída. O DVD de Paixão dos Fortes também é duplo e inclui comentário de Wyatt Earp III, além de galeria de fotos e trailer.Um dos momentos mais emocionantes do recente Festival de Cannes foi a exibição do documentário John Ford and John Wayne - The Filmmaker and the Legend, de Sam Pollard. Foram à Croisette o filho de Wayne, Patrick, e Peter Bogdanovich. Tentaram decifrar o mistério dessa parceria que foi feita de tensões, mas produziu grandes filmes. Ford, dizem todos os que dão depoimentos no documentário, era irascível, autoritário, mas deixou um legado inestimável. Nenhum outro autor, no cinema americano, erigiu uma obra tão sólida mostrando como se constrói uma civilização. E Ford foi autocrítico - sabia que muito do que plasmou na tela era lenda sobre a conquista do Oeste. Num de seus últimos filmes - O Homem Que Matou o Facínora, de 1962 -, ele chegou a cunhar a frase famosa: mesmo que os fatos desmintam a lenda, publique-se a lenda. Ela é a verdade que as pessoas preferem.Paixão dos Fortes e Butch Cassidy baseiam-se em histórias reais, mas não se deve buscar a realidade, ao pé da letra, em nenhum dos dois. O tiroteio do OK Corral é um dos episódios célebres da crônica do Wild West. Vários filmes trataram do assunto antes que, em 1960, a revista Life publicasse uma reportagem desmistificadora, mostrando que o xerife Wyatt Earp e seu amigo, o pistoleiro Doc Holiday, não eram os heróis imaculados que a lenda celebrou. Earp era um celerado que enfrentou a família, não quadrilha, dos Clantons no OK Corral por causa de uma disputa de terras que também envolvia seu irmão. John Sturges, que fizera Sem Lei sem Alma de acordo com a versão oficial, em 1957, retomou o tema com outro enfoque em A Hora da Pistola, dez anos depois. Ford não voltou ao OK Corral para retificar a história que afirmava ter ouvido da boca do próprio Wyatt Earp, quando chegou a Hollywood e ele era consultor para realização de westerns.Mais do que o tiroteio, propriamente dito, o que ainda fascina em Paixão dos Fortes é a forma como o grande diretor, fiel ao seu projeto de recriar o processo civilizatório, conta a história de Dodge City, com seus bailes, teatros, tavernas. Doc é um beberrão de passado aristocrático que recita Shakespeare e namora a cabareteira Chihuahua (Linda Darnell). Earp corteja a professora, que se chama Clementine, como a canção My Darling Clementine, que fornece o título original e o fundo musical desse deslumbrante filme fotografado em preto-e-branco. Embora a parceria mais famosa de Ford tenha sido com John Wayne, Paixão dos Fortes foi feito com Henry Fonda, o pai de Jane, mas nesse caso a colaboração terminou em briga, em 1955, quando ambos se desentenderam durante a filmagem de Mister Roberts.Quando George Roy Hill fez Butch Cassidy, Sam Peckinpah já iniciara a degradação dos mitos do Oeste em Pistoleiros do Entardecer. Hill, baseando-se na história de Butch e do seu amigo Sundance Kid, filtrou os pistoleiros crepusculares de Peckinpah pelo triângulo amoroso de François Truffaut em Jules e Jim. O filme ganhou os Oscars de roteiro, fotografia, música (Burt Bacharach) e canção (Raindrops Keep Fallin´ on My Head, de Bacarach e Hal David), além de oferecer papéis sob medida para Paul Newman e Robert Redford, que retomaram a parceria em Golpe de Mestre, de 1973, novamente sob a direção de George Roy Hill. Paixão dos Fortes, de John Ford. Butch Cassidy, de George Roy Hill. Coleção Fox Classics, R$ 29,90 cada um

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