Westerns ganham fôlego nas locadoras

É fácil mas um tanto tolo associarButch Cassidy a Jules e Jim - Uma Mulher para Dois sóporque o western de George Roy Hill, como o belo filme deFrançois Truffaut, talvez o melhor desse diretor, contam ahistória de triângulos amorosos. Butch, o Kid e Etta Place,interpretados por Paul Newman, Robert Redford e Katherine Ross,repetem na tela a relação triangular de Oskar Werner, HenriSerre e Jeanne Moreau como Jules, Jim e Catherine, mas aaproximação entre os dois filmes é mais profunda que isso. Osdois são filmes sobre cinzas, sobre a saudade das coisas mortasque permanecem vivas na lembrança e as coisas vivas que já estãomorrendo. Não será esse o grande tema do cinema de Truffaut, umromântico que desconfiava tanto do romantismo?Butch Cassidy é um dos westerns que podem fazer a festados admiradores do gênero nas locadoras e lojas especializadas.Vários títulos famosos estão sendo lançados em DVD e vídeo. É asua chance de enriquecer sua videoteca (ou devedeteca) com obrasdessa tendência que críticos influentes, como o francês AndréBazin, já definiram como o cinema americano por excelência.Aliás, se você gosta das chamadas "opera horses" - essasnarrativas à base de elementos simples, como um homem, um cavalo um revólver e a pradaria imensa - deve estar exultando estasemana, pois na TV (aberta) a Record vem apresentando, desdesegunda-feira, no horário do almoço, um ciclo que já trouxetítulos como Matar ou Morrer, na terça, e Johnny Guitar,na quarta.O primeiro, de Fred Zinnemann, é um falso western e umfilme certamente supervalorizado, mas não se pode negar aorealista mais acadêmico do cinema americano o fato de ter ousadofazer, em 1952, em pleno calor da hora, uma metáfora domacarthismo que assolava o cinema de Hollywood. O segundo, deNicholas Ray, de certa maneira também é um falso western, porquepermeado por aquilo que Bazin chamava de "impurezas formais".Ray, o poeta maldito do cinema americano, subverteu as regras dogênero quase sempre tão conservador para dar um testemunho muitomais forte do macarthismo e ainda fez de Johnny Guitar oprimeiro (senão o único) western feminista do cinema, culminandono duelo final entre as personagens de Joan Crawford e MercedesMcCambridge.Há críticos que hesitam em reconhecer a importância docinema de gêneros. Westerns, musicais e filmes noir tendem a serconsiderados manifestações menores, o western, principalmente,já que o musical, pela própria natureza volátil, tem maisfacilidade para ser considerado uma manifestação "artística". Éinjusto. Alguns dos maiores diretores do cinema foram westerners, à frente o mestre John Ford. Raoul Walsh e Howard Hawks foramoutros grandes que percorreram as pradarias. Bazin consideravaque o western 100% puro tinha de ser simples e direto, semprejuízo da complexidade escondida por trás da simplicidadedesejada (e arduamente conquistada). Ele encaixava um diretorhoje pouco lembrado nessa categoria: Budd Boetticher fez, comroteiro de Burt Kennedy e interpretação de Randolph Scott, umamemorável série nos anos 50. Anthony Mann fez outra série, nãomenos notável, com James Stewart, mas o western, segundo Mann,sempre foi permeado por elementos impuros, como a psicanálise ea tradição noir.Fidelidade - O western era um dos gêneros dominantes daprodução de Hollywood. Deixou de ser produzido depois queMichael Cimino levou a empresa United Artists à bancarrota comas extravagâncias de O Portal do Paraíso. Hoje, praticamentesó Clint Eastwood se mantém fiel ao gênero, em Hollywood, masnem ele voltou a cavalgar, empunhando a pistola, depois dereceber o Oscar por Os Imperdoáveis, há quase dez anos. Nempor isso o western desapareceu, completamente. Há elementosdessa cultura até nas fantasias espaciais que o cinema americanonão se cansa de produzir, talvez porque, para mostrar o queapenas pode ser imaginado (o futuro), seja necessário recorrer àestética dos efeitos especiais que hoje domina Hollywood.Mas a verdade é que o western está de volta, naslocadoras, pelo menos. Além do belo Butch Cassidy, vencedorde quatro Oscars em 1970 - roteiro (William Goldman), fotografia(Conrad Hall), música (Burt Bacarach) e canção (Raindrops KeepFallin´ on My Head) -, há mais bangue-bangues sendo resgatadosem DVD. Você pode (re)ver Sete Homens e um Destino, com oqual John Sturges não apenas sedimentou uma série de carreiras(Steve McQueen, Charles Bronson, James Coburn), como aindatranspôs para o Oeste a trama do clássico Os Sete Samurais,de Akira Kurosawa. Pode-se ver Sete Homens como a pedra detoque do spaghetti western, que floresceria, durante aquelesmesmos anos 60, nas pradarias improvisadas na Espanha e naItália. O mais famoso dos westerners italianos, Sergio Leone,também começou transpondo para seu falso Oeste as tramas deKurosawa.Leone se baseou em Yojimbo, o filme preferido dopersonagem de Kevin Costner em O Guarda-Costas, para fazerPor um Punhado de Dólares. O êxito do filme levou-o a fazerPor uns Dólares a mais e logo veio Três Homens em Conflito todos interpretados por um americano que, cansado de fazer TVem seu país, viera tentar a sorte no cinema europeu - o grandeClint Eastwood, ora, quem mais? Com Três Homens em Conflito,que também está sendo lançado em DVD, Leone deu ao spaghettiwestern sua carta de nobreza e passou a ser reconhecido como umautor. Na verdade, nenhum dos westerns agora resgastados étradicional, como os de Ford e Walsh. O próprio Forddesmistificou os códigos que havia ajudado a mitificar, mas essaé outra história. Os westerns dos anos 60 e 70, como os queagora saem em DVD, já pertencem à era das grandes mudanças dogênero.Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven). EUA,1960. Direção de John Sturges.Três Homens em Conflito (The Good The Bad and the Ugly). Itália, 1966. Direção de Sérgio Leone.Butch Cassidy. EUA, 1970. Direção de George Roy Hill.Todos DVDs da Fox. Nas lojas, preço médio R$ 38,50.

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