Westerns de Paul Newman saem em DVD

Paul Newman foi e ainda é um dosgrandes astros da história de Hollywood. Há quase 50 anos ele semantém no topo, exibindo um currículo que ostenta belos papéisem grandes filmes. Com Steve McQueen, outro mito masculino dosanos 1960, Newman também é capaz de pegar o volante emimportantes competições de automobilismo. Esse gosto pelo riscoé que explica, segundo o francês Jean Tulard em seu Dicionáriode Cineastas, que Newman tenha tentado também a direção. Comêxito, acrescente-se. Seus filmes, quase sempre centrados empersonagens femininas, falam sobre solidão com uma sinceridadetocante e ainda oferecem à mulher do ator e diretor, JoanneWoodward, seus papéis mais densos (em Rachel, Rachel e OPreço da Solidão).À espera de A Estrada da Perdição, o novo Sam Mendes, no qual Newman divide a cena com um grande astro do presente,Tom Hanks, os fãs do ator poderão vê-lo em dois lançamentos deDVD. Curiosamente, são dois westerns, já que Newman, que nuncateve preferência por gêneros, freqüentou também o cinema daspradarias. Butch Cassidy, de George Roy Hill, écronologicamente posterior a Hombre, de Martin Ritt. Podeser mais popular e quase sempre integra a lista debangue-bangues mais queridos pelo público, sem por isso sernecessariamente melhor. O título cabe mais em Hombre, umadas obras definitivas da irregular filmografia do diretor Ritt.E ainda mereceriam ser citados outros westerns protagonizadospor Newman; Um de Nós Morrerá (The Left-Handed Gun), deArthur Penn, sobre Billy the Kid, assinalou a estréia do diretore é um faroeste freudiano, nos limites da obra-prima; Roy Bean, o Homem da Lei, aparentemente um epígono de Butch Cassidy, éna verdade um ótimo John Huston, crítico e bem-humorado.Butch Cassidy passou outro dia na TV paga. Ahistória da dupla de ladrões de trens, Butch Cassidy e oSundance Kid, revelou-se um veículo perfeito para Newman e outroastro que ia então se consolidando em Hollywood, Robert Redford.Três anos mais tarde, os dois e mais o diretor George Roy Hillreuniram-se para novo êxito: Golpe de Mestre não apenasarrebentou nas bilheterias como chegou a ganhar o Oscar. Seusucesso não ofusca o de Butch Cassidy, que virou cult. Combase no roteiro de William Goldman, também vencedor do prêmio daacademia, o diretor Hill mistura duas tendências fortes docinema dos anos 1960. O western desmistificador à Sam Peckinpah, pois Butch e o Sundance são pistoleiros do entardecer, e oromantismo, também desmistificador, de François Truffaut.Butch Cassidy evoca Uma Mulher para Dois, mas não éporque Butch, o Sundance e Etta Place formam um triângulo comoaquele imortalizado por Jules, Jim e Catherine, os personagensde Oskar Werner, Henri Serre e Jeanne Moreau. A influência émais profunda, as águas mais turvas: ambos são filmes sobrecinzas, refletem sobre o amor de maneira dolorosa.Antologia - Há momentos de Butch Cassidy que setornaram clássicos: o passeio de bicicleta ao som de RaindropsKeep Fallin´On My Head (e a canção de Burt Bacharach e HalDavid ganhou o Oscar), a fuzilaria do final, transferida para atrilha sonora, o que significa que o espectador guarda alembrança dos heróis de arma na mão, sem quebra do cordãoumbilical que faz o público projetar-se nas aventuras da dupla.Hombre é ainda melhor. É o único western da carreira deMartin Ritt, excetuada a experiência de Hud, o Indomado, masaquele, também com Newman, era um faroeste anacrônico etransistorizado. Em Hombre, Ritt segue uma vertente maisclássica e tradicional do gênero, mesmo que seu objetivo sejasubvertê-la.Newman faz o personagem-título, um apache de olhos azuisque trafega entre os mundos dos índios e dos brancos. A estesúltimos, ele faz, logo no começo, uma concessão, ao cortar asmelenas que lhe permitirão mais facilmente ser aceito comobranco (é mestiço) durante uma viagem de diligência. Como noclássico de John Ford, No Tempo das Diligências, a estrada émetáfora da vida e os passageiros da diligência compõem ummicrocosmo do que há de pior na vida social. Há desde um casalcom seus problemas freudianos até corruptos e violentos em dosesdiversas. Há também Diane Cilento, como a mulher de reputaçãoduvidosa que, como Dallas na obra-prima fordiana, é a única arevelar solidariedade quando a personagem de Barbara Rush éaprisionada por bandidos. E há Hombre, o impressionante PaulNewman, capaz de um gesto de grandeza, no final, que não deixade ser sua segunda concessão à sociedade dos brancos. É umgrande filme: lento, reflexivo, denso. Não é um westerntradicional. O desfecho é daqueles que o espectador carrega pelavida: o mexicano moribundo, admiravelmente interpretado porFrank Silvera, pede, às portas da morte, para saber o nomedaquele verdadeiro hombre. Ritt, o diretor que representava opensamento de esquerda em Hollywood, foi com freqüência traídopor seus sentimentos. Nunca foi mais rigoroso do que aqui e noposterior Ver-Te-Ei no Inferno (The Molly Maguires), querepresentam o ápice de sua carreira.Hombre (Hombre). EUA, 1967. Direção de Martin Ritt.Butch Cassidy (Butch Cassidy). EUA, 1969. Direção de George RoyHill. DVDs da Fox. Nas lojas, R$ 40 cada um.

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