‘Wasp Network’, de Olivier Assayas, trata de traidores e heróis

Filme é baseado no livro de Fernando Morais e tem o brasileiro Wagner Moura no elenco

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 07h04

Com o fim da União Soviética, em 1991, a economia cubana entra em crise. Falta de tudo, os “apagones” de energia elétrica são diários e a população vive exausta de tanta carência. Muitos cubanos decidem fugir do regime de Fidel Castro e recebem apoio dos seus compatriotas já estabelecidos em Miami.

Com a crise, os opositores de Castro usam de todos os meios para desestabilizar o regime. Esse é o contexto de Wasp Network, de Olivier Assayas, inspirado no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais. 

Nas primeiras cenas, vemos um dos personagens, René Gonzalez (Édgar Ramírez), em seu jogging pelas ruas de Havana. Vai para casa, toma banho, despede-se da esposa Olga (Penélope Cruz) e toma o caminho do trabalho. É piloto de aviação. Sobe numa avioneta, que parece saída da 1.ª Guerra Mundial, e voa abaixo dos radares e alcança a Flórida.

Depois será a vez de Juan Pablo Roque (Wagner Moura) que, com seu traje de homem-rã, nada por sete horas até chegar à base americana de Guantánamo, em Cuba. Também se apresenta às autoridades americanas e manifesta desejo de desertar e morar em Miami. É altamente qualificado. Piloto de aviões da Força Aérea Cubana, é capaz de comandar um MIG, avião de caça da antiga URSS. 

O filme alterna cenas dos “dissidentes” em suas novas atividades em Miami com imagens de quem ficou em Cuba. Olga está sempre ocupada em curar suas mágoas, continuar o trabalho num curtume e explicar à filha por que seu pai está sendo chamado de traidor. 

Esse é um aspecto interessante na adaptação de Assayas do livro de Morais – dar um maior peso às personagens femininas e aos efeitos domésticos das atitudes políticas. Penélope Cruz terá grande relevância na trama, assim como a bela Ana Margarita (Ana de Armas), por quem o personagem de Wagner Moura se apaixona, em Miami. 

Desse modo, Assayas estabelece o contraponto entre as cenas de ação política e o drama íntimo desses homens e, sobretudo, dessas mulheres. De um lado, o turbilhão da História, com suas exigências e lógica próprias; de outro, os terríveis efeitos humanos dessas circunstâncias. Há que equilibrá-los para obter uma obra que não exagere num dos polos em detrimento de outro. E me parece que Assayas tenha se saído bem, mesclando ação, emoção e contexto histórico em doses bem balanceadas. 

Trata-se de um trabalho difícil, mesmo porque terá de lidar com uma radical reviravolta da trama, tirada do livro. Ela se dá quando entra em cena outro personagem importante, Gerardo Hernandez (Gael Garcia Bernal), em passagem esclarecedora. E há também uma inserção, com voz em off, contextualizando o momento histórico e dando sentido à ação dos personagens. Esse recurso, aliás, tem sido criticado como dispositivo exterior à narrativa. 

Assayas defrontou-se com um livro-reportagem fartamente documentado, sólido, e que usa técnicas ficcionais em sua construção. Entre elas, a do suspense sobre as reais motivações dos personagens. Cabia ao cinema dar conta desses aspectos sem cair no didatismo e no artificialismo. Batalha ganha, a meu ver, por Assayas, sempre fluente nas cenas de ação e eficaz no clima lisérgico dos momentos históricos urgentes. O filme tem vida, brilho, e os personagens são de carne e osso, tridimensionais. Um reparo apenas quanto ao letreiro inicial, confuso e conservador, na contramão do próprio filme.

 

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