Warner lança cinco filmes brasileiros em vídeo

Ninguém mais conservador do que o espectador de vídeo e DVD. Basta olhar a lista dos mais retirados nas locadoras. Há nessas listas pouco ou nenhum espaço para a invenção e a ousadia. Um Kubrick, de vez em quando, mas o que domina as listas é o ramerrão hollywoodiano - comédias, filmes de ação. Talvez seja pela própria circunstância da apresentação em casa. As pessoas param, conversam, comem. O filme, nesses casos, em geral entra por um olho e sai pelo outro. Vira diversão, pura e simples. Por isso mesmo parece batalha perdida destacar uma série de lançamentos de filmes brasileiros, em vídeo, pela Warner. Mas esse destaque é necessário.São cinco filmes - o intimista Paixão Perdida, de Walter Hugo Khouri, um filme tênue, que quase não tem intriga e vive de criar climas em torno de um menino que, como diz o diretor, "quer ser pedra"; O Toque do Oboé, de Cláudio McDowell, com sua dimensão meio fantástica (à García Márquez) na história de um músico, desenrolada na fronteira paraguaia, numa espécie de Macondo guarani; Terra do Mar, de Mirella Martinelli e Eduardo Caron, um documentário autoral que aborda a relação do homem com a natureza, focalizando as comunidades litorâneas do norte do Paraná e do sul de São Paulo, e os dois mais interessantes do lote - Tudo É Brasil, de Rogério Sganzerla, e Outras Estórias, de Pedro Bial. Este último deveria ser obrigatório nas videotecas de escolas de todo o País pela aproximação que faz com o universo lingüístico-literário de Guimarães Rosa.Cinco filmes - os três primeiros já estão nas locadoras, os dois últimos chegam em uma ou duas semanas. Confirmam, com maior ou menor criatividade, o que diz o crítico José Carlos Avellar, quando afirma que a força do filme brasileiro é a sua debilidade. O filme brasileiro é um excluído no próprio mercado, ocupado massiva e maciçamente pelo produto hollywoodiano. Quando se fala na necessidade de fortalecer o cinema brasileiro, de criar uma indústria, as pessoas falam sempre em filmes para esse mercado ocupado. O cinema brasileiro não pode nem deve imitar os códigos de Hollywood, porque se o fizer estará descaracterizando sua identidade e com certeza não vai ganhar as grandes platéias, que vão continuar preferindo o produto estrangeiro. O filme brasileiro deve ser como é - é a sua força e a sua debilidade.Tudo É Brasil é o terceiro filme que Rogério Sganzerla dedica à passagem do ator e diretor Orson Welles pelo País, nos anos 40. Sobre o assunto ele já fez Nem tudo É Verdade e Linguagem Orson Welles. A diferença entre esses dois e Tudo É Brasil como dissecação da aventura do diretor do clássico Cidadão Kane por terras tropicais é que, no intervalo, foram descobertas as imagens que a empresa americana RKO havia desprezado na época, tornando inviável o projeto e estabelecendo para It´s all True a reputação de filme mítico (ou maldito). Há outra diferença, essa de conceito, entre Nem tudo É Verdade e Tudo É Brasil.Regozijo - No primeiro, Sganzerla usa o episódio (e as imagens que conseguiu garimpar nos arquivos do DIP, o antigo Departamento de Informação e Política do Estado Novo) para tratar do tema do fracasso, para analisar e discutir uma cultura da impossibilidade - não só a de Welles como a do próprio Brasil como nação. A descoberta das imagens do célebre episódio dos jangadeiros de É tudo Verdade marca agora uma mudança. O material redescoberto estimula outro tipo de discurso e reflexão. Sganzerla, sem cair no ufanismo nem no otimismo babaca descobre motivos para um regozijo. O filme é um fascinante exercício de linguagem (e política). Mesmo quando usa imagens e sons já conhecidos, Tudo É Brasil o faz com tanta criatividade que explica o prêmio de montagem que recebeu no Festival de Brasília - por mais que seja discutível a definição de prêmio à "melhor colagem antropofágica" para o trabalho de montagem de Sylvio Renoldi (que já havia montado O Bandido da Luz Vermelha para o diretor).Outras Estórias concretiza um sonho de 20 anos do diretor Pedro Bial, mais conhecido (e próximo) do público como o apresentador do Fantástico, da Globo. Bial poderia ter feito quem sabe, um filme para entretenimento das massas, palatável para a imensa maioria dos espectadores. Preferiu seguir o caminho mais difícil - uma radical recriação cinematográfica da língua de Guimarães Rosa e da maneira como o autor de Grande Sertão: Veredas e Sagarana via o homem e o mundo. O sonho começou quando o então estudante de jornalismo quis transformar em curta-metragem o conto Soroco, Sua Mãe, Sua Filha. Duas décadas mais tarde, ele recorreu não só a Soroco, mas também a Os Irmãos Dagobé, Famigerado, Nada e a Nossa Condição e Substância para tecer sua (re)visão do universo roseano.É um filme radical como proposta estética - e muito superior ao Crede-Mi de Bia Lessa, sobre um universo aproximado e que teve muito mais empatia da crítica. O elenco é cheio de nomes conhecidos, muito deles até globais, mas Bial utiliza os atores numa perspectiva antinaturalista, que nada tem a ver com a participação deles nas novelas. Paulo Autran, Marieta Severa, Giulia Gam e Enrique Diaz, entre outros, foram preparados por Cacá Carvalho, o Jamanta de Torre de Babel. Com base em Substância - para só citar um exemplo -, pode-se resumir a sua aproximação do grande escritor. Giulia Gam faz Maria Exita, a mais sofrida das empregadas da fazenda de Sionésio (Enrique Diaz). Só quem sabe do passado obscuro dela é Nhatiaga (Marieta Severo). Em torno dos três, Guimarães Rosa criou uma história de amor nada ortodoxa, que Bial filma agora de forma fragmentada e não-linear. É um belo filme para quem se dispuser a penetrar em suas imagens, necessário em escolas. Como Bial disse na época do lançamento, o sertão de Rosa, que ele filma, mais do que existencial, é metafísico. Outras Estórias redescobre, para o cinema, o ser-tão.Outras Estórias. Direção de Pedro Bial; Tudo É Brasil. Direção de Rogério Sganzerla; Distribuição Warner. Na segunda quinzena do mês nas locadoras. Já à disposição: Paixão Perdida, O Toque do Oboé e Terra do Mar.

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