Walter Salles vai refilmar clássico de Kurosawa

Parecia difícil que alguém fosse suplantar, ainda este ano, a nada ortodoxa dobradinha entre Steven Spielberg e Stanley Kubrick, respectivamente diretor e criador da idéia de A.I. ? Inteligência Artificial, filme em cartaz atualmente no circuito americano. Mas eis que surge agora um outro ?encontro? sui generis em Hollywood: a reunião de Akira Kurosawa, Walter Salles, Martin Scorsese e a Disney.Salles, que dá os últimos retoques em seu novo filme, Abril Despedaçado, em Paris, acabou de assinar contrato para dirigir o remake de Céu e Inferno (Tengoku to Jikobu), clássico noir de Kurosawa rodado em 1963. O filme, a ser distribuído pela Touchstone Pictures, um dos selos cinematográficos da Disney, tem produção de Scorsese e sua sócia, Barbara De Fina.?Colaborar com Scorsese e Barbara é, evidentemente, uma honra?, disse Salles em entrevista ao Estado. ?Caminhos Perigosos e Touro Indomável foram filmes que me levaram a escolher essa profissão?, continuou. ?Por outro lado, tive a oportunidade de conhecer Kurosawa em 1985, quando dirigi um especial sobre Ran para a TV Manchete.? E ele acrescenta: ?Céu e Inferno é um de meus filmes-referência. Estamos trabalhando nessa releitura de Kurosawa com respeito e o maior rigor possível.?Céu e Inferno, que é baseado no livro policial King´s Ransom, de Ed McBain, conta a história de um dilema moral. Um bem-sucedido empresário japonês (interpretado por Toshiro Mifune) tenta adquirir mais um lote de ações de uma fábrica de sapatos finos, para alcançar a maioria no conselho da empresa. Para isso, ele reúne todo o dinheiro que havia economizado, mais a soma vinda da hipoteca de sua bela casa em cima de um morro. Antes de fechar o negócio, porém, seu filho é seqüestrado e o resgate pedido vem a ser mais da metade do dinheiro que juntou para a operação.Inicialmente disposto a pagar o resgate, o empresário começa a mudar de idéia quando, horas depois, descobre que o garoto seqüestrado não foi o seu, mas sim o único filho de seu dedicado motorista. Apesar dos protestos de sua esposa, o empresário parece decidido a não dispor de seu dinheiro. Surge uma questão ética. Pagar o resgate do garoto seqüestrado no lugar de seu filho e perder a casa e a presidência da empresa ou sacrificar a criança e manter sua posição?O ambiente claustrofóbico da casa do empresário, onde se passa a primeira hora do filme, cede lugar para o segundo ato, no qual dezenas de policiais tentam capturar o algoz, sob uma temperatura escaldante. O seqüestrador, um jovem médico, que é interpretado por Tsutomu Yamazaki (mais tarde ator-fetiche de Juzo Itami, em Tampopo), ganha destaque próximo ao desfecho da trama, um impressionante mosaico de imagens que Kurosawa criou para mostrar o submundo dos junkies e criticar a modernidade das grandes cidades japonesas.Projeto ? O roteiro do remake de Salles está sendo escrito por Jeff King, que também vai adaptar O Profissional, longa do francês Georges Lautner e estrelado por Jean-Paul Belmondo. Antes da entrada do cineasta brasileiro em campo, Céu e Inferno era um projeto que Scorsese desenvolvia para David Mamet. O dramaturgo chegou a terminar um tratamento do roteiro e já tinha escolhido um elenco que iria dirigir: William H. Macy, Joe Mantegna e Steve Martin.Uma das cenas mais eletrizantes do policial de Kurosawa, a do resgate sendo pago por meio de duas malas de dinheiro jogadas da janela de um trem em movimento, foi homenageada recentemente pelo cineasta neozelandês Lee Tamahori no thriller Na Teia da Aranha, com Morgan Freeman. Outros remakes de obras de Kurosawa incluem Sete Homens e um Destino, de John Sturges (adaptado de Os Sete Samurais); Por um Punhado de Dólares, de Sergio Leone (Yojimbo); e Quatro Confissões (Rashomon), de Martin Ritt. George Lucas, um dos maiores fãs do diretor japonês, disse que tirou inspiração para criar Guerra nas Estrelas de A Fortaleza Escondida, rodado em 58. Na semana passada, o filho de Kurosawa vendeu os direitos para uma nova refilmagem de Rashomon. O início das filmagens de Céu e Inferno ainda não foi determinado.

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