Paula Prandini/AE
Paula Prandini/AE

Walter Salles reavalia 'Central do Brasil' após 20 anos

Filme será exibido em nova cópia em sessão especial da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Entrevista com

Walter Salles

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2018 | 06h00

Em 1998, um filme muito especial bateu nas telas do País. Central do Brasil tinha Fernanda Montenegro interpretando a mulher que cumpre uma curva dramática exemplar ao se enternecer por um garoto que busca pelo pai. Central conquistou o público brasileiro e foi reconhecido no exterior, trazendo para o Brasil o Urso de Ouro, principal prêmio do Festival de Berlim, que também deu a Fernanda o troféu de melhor atriz. A uma distância de 20 anos, Walter Salles reavalia sua obra e fala do momento nacional. 

A 20 anos de distância, como você avalia a importância desse filme em sua carreira?

Central do Brasil foi pensado, assim como Terra Estrangeira, nos meses finais do desgoverno Collor. Depois, portanto, de vários anos de silêncio forçado no cinema brasileiro. Terra Estrangeira falava do caos econômico, mas também identitário que vivemos, e do desterro que marcou aquele momento. Em Central, a busca pelo pai é a procura de um país possível, depois de anos tão traumáticos de nossas vidas. Penso que a repercussão do filme tem diretamente a ver com o fato de ele ter buscado o reflexo daquilo que tinha acontecido com o País.

Acha que a premiação em Berlim contribuiu muito para que o filme se tornasse um marco do cinema brasileiro ou isso teria acontecido mesmo sem o Urso de Ouro?

Berlim, mas não só. Havia o desejo por parte do público de rever a sua imagem refletida na tela, depois de tanto tempo de ausência. Kieslowski dizia que a missão mais importante do cinema era a de dar notícias de um país, de uma cultura – e foi o que vários filmes fizeram no cinema brasileiro naquele momento. 

Naquela ocasião, 1998, vivíamos num país mais otimista e menos dividido do que o atual. Mesmo assim, a questão de Central era a busca do centro, do eixo, do pai. Como seria isso hoje, que parecemos não encontrar referências em parte alguma?

Boa pergunta. Mesmo nos piores anos de Collor, sabíamos que iríamos sair daquela barafunda. Hoje, o pesadelo é maior. Quem ascendeu ao poder já deu provas de que desacredita no equilíbrio entre poderes, nos mecanismos de inclusão social, nos efeitos do aquecimento global, na divergência de ideias. Pensando positivamente, é preciso lembrar que mais de 45 milhões de eleitores não subscreveram essa visão de mundo. Isso sem faltar no número significativo de abstenções e votos nulos. Prefiro acreditar, neste momento, que as instituições brasileiras serão suficientemente sólidas para resistir.

Do ponto de vista estético, de linguagem cinematográfica mesmo, você considera que Central foi seu ápice como diretor ou considera que seus trabalhos posteriores foram evoluções em relação a este filme-marco?

Não saberia avaliar – é algo que talvez seja mais perceptível à distância. Pensamos cada elemento de Central do Brasil como parte da ideia motriz do filme, que é o processo de ressensibilização das personagens principais, Dora e Josué. Diários de Motocicleta é regido pelo mesmo desejo de coesão estética, mas o que está em jogo é o desvendamento de uma vocação. Em ambos os filmes, há o mesmo interesse pelo descobrimento de uma geografia física e humana que nos é própria. Os instrumentos gramaticais para atingir esses objetivos é que são diferentes.

Gostaria que dissesse algumas palavras a respeito de Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, a dupla inesquecível de Central do Brasil.

Central foi pensado para Fernanda Montenegro, e ela imantou o filme como ninguém. Fernanda ofereceu ao filme um rigor e, sobretudo, uma humanidade para Dora que nos guiaram ao longo de toda a filmagem. E Vinícius foi esse presente e essa luz que o destino nos deu, em um momento em que estávamos perto de desistir de achar o ator para interpretar Josué. 

Agora que um governo de propostas discutíveis foi eleito, qual a sua visão para os próximos anos, como cidadão e como artista?

Nesse cenário, a cultura poderá ser um instrumento de resistência determinante. O samba-enredo da Mangueira, o poema-manifesto de Arnaldo Antunes, os artigos de Marcelo Rubens Paiva mostram, entre tantas outras manifestações, que a cultura está mais viva e atenta do que nunca. 

Do ponto de vista político, acha interessante a formação de uma frente democrática de modo a defender conquistas contra possíveis retrocessos?

Sim, mas não é uma equação simples. A frente democrática que se tentou estabelecer na reta final da campanha não se cristalizou. Os interesses particulares, mirando 2022, levaram a melhor sobre uma questão maior, que é a defesa de um estado democrático e laico. 

No âmbito específico do cinema, o nenhum apreço demonstrado pelo próximo governo pela cultura pode trazer descontinuidade para produção nacional, tão duramente conquistada? 

A Ancine criou na gestão de Manoel Rangel, através do sistema de cotas nos canais a cabo, as condições que alavancaram uma produção ampla e plural de minisséries, programas e desenhos para o público infantil, documentários, musicais. Essa produção gera hoje milhares de empregos. Nossa eficiência nesse setor só não é maior porque estamos patinando na regulamentação do vídeo on demand, o VOD. Nesse aspecto, países como França estão muito à nossa frente. 

Gostaria de saber de seus próximos projetos e, se por acaso, algum deles contempla essa vocação trágica da História brasileira, em que avanços sempre se chocam com estruturas reacionárias. 

Estou trabalhando com o escritor Eduardo Bueno em um roteiro sobre um personagem fascinante, Pero Sardinha, o primeiro bispo enviado pela coroa portuguesa ao Brasil, em 1552. Um ano depois de aportar em Salvador, Sardinha começou a cobrar pela absolvição dos pecados em moeda sonante. Acabou deglutido pelos índios Caetés em 1556, como Oswald de Andrade celebra no Manifesto Antropofágico de 1928. Muitos aspectos da trajetória de Sardinha encontram eco no Brasil contemporâneo, estranhamente. E, com o roteirista Murilo Hauser, estamos trabalhando na adaptação de Ainda Estou Aqui, o livro de Marcelo Rubens Paiva. É um relato sobre a mãe dele, Eunice, e sua luta incansável para descobrir como seu marido, Rubens Paiva, foi assassinado durante a ditadura. É um filme sobre a importância da memória, tanto coletiva quanto pessoal. 

Um Central do Brasil 2 seria possível? E que problemático eixo de referência seria encontrável em tempos como este?

As cartas que Dora escrevia não existiriam hoje. Com as mídias sociais, é como se papel, tinta e envelope não te pertencessem mais. As suas cartas podem ser acessadas, reconfiguradas, vendidas para terceiros. É nessa terra de ninguém que surgem personagens como Steve Bannon, e são construídos os alicerces que permitem o surgimento de regimes como os da Polônia, Hungria, Filipinas ou Brasil. 

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