Jean-Paul Pelissier/Reuters
Jean-Paul Pelissier/Reuters

Walter Salles: 'Preservar a nossa identidade é uma obrigação - e mais ainda em tempos tão sombrios'

Diretor recebe na noite desta quarta, no encerramento da 44ª Mostra, prêmio por sua dedicação à luta pela preservação de filmes

Entrevista com

Walter Salles

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 17h56

Um dos maiores e mais conhecidos internacionalmente diretores do cinema brasileiro é Walter Salles, autor de filmes como Central do Brasil e Linha de Passe, premiados em Berlim e Cannes. No quadro da 44ª Mostra, ele recebe na noite desta quarta, 4, o prêmio que lhe outorgou a Federação Internacional de Arquivos de Filmes, FIAF. Salles está sendo recompensado por sua dedicação à luta pela preservação de filmes. Ele estará presencialmente no encerramento da Mostra, a partir das 20h, no Parque do Ibirapuera, dividindo o palco com os funcionários da Cinemateca Brasileira, que este ano recebem o Prêmio Humanidade.



Será uma noite de afeto e amor ao cinema, seguida pelo anúncio dos vencedores do Prêmio Bandeira Paulista, o da crítica e a exibição de Krud - Another Round, de Thomas Vinterberg, que promete encerrar a Mostra de forma tão polêmica como ela começou este ano, com Nova Ordem, do mexicano Michel Franco. O júri oficial é integrado pelo cineasta Felipe Hirsch, pela montadora Cristina Amaral e pela produtora Sara Silveira, que este ano recebeu o troféu Leon Cakoff. Leia agora a entrevista do Estadão com Walter Salles, sobre a premiação desta noite. 


 

Seu prêmio da FIAF será entregue no quadro de uma Mostra que outorga o prêmio Humanidade aos funcionários da Cinemateca Brasileira por sua luta em defesa da entidade. Por que é importante preservar?

O Prêmio Humanidade não poderia estar em melhores mãos. Os funcionários da Cinemateca Brasileira continuaram a proteger o maior acervo audiovisual da América Latina mesmo com os salários suspensos, e em plena pandemia. Esse esforço heroico em defesa da nossa memória só foi interrompido quando a Cinemateca foi fechada, como resultado do embate entre o governo federal e a Acerp.

Preservar é fundamental para dar às novas geracões a possiliade de entender quem somos, de onde viemos, e para onde poderemos ir enquanto nação. Ou seja, para cuidar da nossa identidade. Mas a importância de uma Cinemateca vai além de um só pais, é um patrimônio da humanidade. Como o são os filmes de Chaplin, os quadros de Leonardo da Vinci, ou as pinuras rupestres de Lascaux.


 

Como vê a campanha pela preservação da Cinemateca, que atravessa talvez sua maior crise no Brasil?

É uma luta fundamental. Uma Cinemateca não é de um governo, e sim de toda a sociedade brasileira. Mantê-la fechada é um crime. Que seja reaberta logo, e que lhe seja alocada uma verba consistente com a sua tripla missão: preservar o acervo, restaurar e digitalizar filmes e documentários de seu acervo, e difundir os milhares de filmes que têm no seu arquivo. E para isso, é imperativo reincorporar todos os trabalhadores da Cinemateca, que possuem o conhecimento específico para cuidar de algo tão complexo.


 

Tenho tido o privilégio de visitar muitas vezes a Cinemateca Francesa. Em março, depois de Berlim, havia uma programação de clássicos restaurados, em presença de diretores como Philip Kaufman. Para muita gente a Cinemateca é um museu de filmes. O que se pode ou deve fazer para transformar a Cinemateca Brasileira num organismo vivo, que participe da vida dos cinéfilos?

Uma Cinemateca é tudo menos um museu. É, ao contrario, um organismo vivo, com um potencial para angariar um público importante. A Cineteca de Bolonha, na Itália, e o Instituto Lumière, na França, instituições semelhantes à Cinemateca Brasileira, organizam anualmente festivais de cinema que acolhem um ótimo público nas suas salas, e ao ar livre. A Cineteca realiza o extraordinário Il Cinema Ritrovato (O Cinema Redescoberto), que já recebeu mais de 4 milhões de espectadores em suas edições. Em 2019, mais de 500 filmes foram projetados, e mais de 3.800 jornalistas se inscreveram para acompanhar o Festival. Na edição de 2018, tive a inesquecível missão de introduzir O Ladrão de Bicicletas, de Vittorio de Sica, para mais de 2 mil pessoas na Piazza Maggiore de Bolonha. No final da sessão, o filme foi aplaudido por 10 minutos por essas 2 mil pessoas, de pé. Foi uma emoção indescritível.

O Festival Lumière é realizado pelo Instituto que porta o nome dos inventores do cinema, em Lyon. Idealizado por Thierry Frémaux, diretor-geral do Festival de Cannes, o Festival Lumière acolhe 200.000 pessoas por ano em suas salas. E a cada ano, faz a retrospectiva de um cineasta. Em 2009, Clint Eastwood foi o homenageado. Naquele ano, foi Clint quem deu o pontapé inicial da partida de futebol entre Lyon e o Sochaux. Além do Festival, o Instituto Lumière recebe em seus cinemas e museu cerca de 400.000 visitantes por ano. Esses são dois ótimos exemplos do que a Cinemateca Brasileira poderia fazer, se tiver a verba necessária para idealizar Festivais.


 

Você foi rato de cinemateca? No Brasil, no exterior?

Descobri o cinema em pequenas salas de cinema independente, que passavam ciclos ou filmes do cinema novo, do neorrealismo e da nouvelle vague. Mas logo fui tomado pelo amor às Cinematecas, graças à uma professora de história que nos levava para ver filmes que tinham relação com as matérias que ela ensinava. Foi assim que comecei a frequentar a Cinemateca do MAM. E foi na Cinemateca do MAM que vi Cabra Marcado para Morrer, na primeira projeção depois da montagem do filme, com a apresentação de Coutinho. Como esquecer de um momento tão fundamental?


 

Você teve um papel importante - com o Saulo Pereira de Mello, que, por sinal, morreu em abril, vítima do coronavírus - na preservação de 'Limite', o clássico de Mário Peixoto. O que representaria a perda de um filme como 'Limite' para a cultura brasileira?

O prêmio que recebo hoje à noite da FIAF é na verdade do Saulo. Foi com ele que aprendi a importância de se preservar a imagem cinematográfica, mas não só. No Arquivo Mario Peixoto que ele criou em nossa produtora, Saulo guardava todos os artigos referentes à Limite e a Mario Peixoto. Os que eram a favor do filme, e os que não eram. O que importava para Saulo era que todo esse material estivesse disponível para as gerações futuras. Dezenas de teses de mestrado ou doutorado foram escritas com base nesses documentos. Depois, pude acompanhar os mais de 10 anos de restauro de Limite, em que Saulo trabalhou com a craque Patricia de Filipi, da Cinemateca Brasileira.

Foi um trabalho feito com uma paixão, rigor e coerência que me marcaram profundamente.

Limite, filme que encerra a fase do cinema mudo de forma brilhante, poderia ter desaparecido. Sobreviveu, graças a Saulo e também Patricia. Teríamos perdido parte de nossa história e de nossa memória, se o filme tivesse desaparecido. Na Cinemateca, existem muitos filmes que, como Limite, precisam ser salvos e restaurados, como legado para as novas gerações. Preservar a nossa identidade é uma obrigação - e mais ainda em tempos tão sombrios.

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