Jean-Paul Pelissier/Reuters
Jean-Paul Pelissier/Reuters

Walter Salles on the road

Na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, filme adaptado do romance de Kerouac aborda a gênese da beat generation

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2012 | 21h00

ENVIADO ESPECIAL / CANNES - Da morte do pai à última fronteira da América, que os personagens de Walter Salles tentam em vão desbravar, On the Road é sobretudo a dilacerante história de uma amizade rompida (na realidade), mas que se eterniza na arte. Agora que o cabo das tormentas foi ultrapassado, pode-se respirar fundo e dizer - havia motivos de sobra para temer pela adaptação do livro mítico de Jack Kerouac. O primeiro, ou principal motivo, é justamente porque se trata de uma obra mítica, cuja fama sobrepuja suas qualidades literárias.

On the Road não é o livro mais bem escrito do mundo, embora sua escrita “musical” faça com que os diálogos pareçam embalados em jazz, e isso é muito interessante. O livro também tem muitos personagens, e essas figuras transfiguradas pela arte são reais e deram origem a um movimento que marcou época e teve desdobramentos na história da cultura norte-americana. Sal, aliás, Jack Kerouac, Dean/Neal Cassidy, Carlo/Allen Ginzburg viraram faróis da chamada beat generation, mas em On the Road eles ainda são jovens num relato iniciático. Toda a grande história veio depois, como o jovem Guevara que também se inicia na estrada em Diários de Motocicleta, pode estar gestando ali o Che, mas ele só surgirá depois.

Em Diários, Walter Salles já abordara o mito antes mesmo de sua criação, e isso lhe deu as chaves para fazer On the Road. Na coletiva após a exibição do filme para a imprensa, ontem pela manhã aqui, no 65.º Festival de Cannes, o produtor Roman Coppola, filho de Francis Ford, lembrou a complicada gestação do filme, incluindo os anos que Salles passou na estrada, buscando locações e criando o documentário que, sem dúvida, o ajudou a sedimentar uma visão mais aprofundada do projeto.

Está havendo aqui em Cannes um clima de já ganhou em torno ao novo Michael Haneke, Amour/Amor. Pode ser que ele tenha respaldo no júri presidido por Nanni Moretti, mas, mesmo na eventualidade de que isso venha a ocorrer, não significará, necessariamente que Amor é o melhor filme da competição. Poderá ser para esse júri, mas os melhores filmes, por enquanto, continuam a ser o de Christian Mungiu, Beyond the Hills, um pouco menos o de Alain Resnais, Vous n’Avez pas Rien Encore Vu, e um pouco mais, agora, o de Walter Salles.

Despertar político

Ontem já havia ocorrido a mesma coisa. Face a tudo o que foi discutido sobre o novo filme de Andrew Dominik, Cogan - Killing Them Softly, a imprensa norte-americana só quis aproveitar para saber de Brad Pitt quando, afinal, Angelina Jolie e ele vão oficializar sua união. E, de tudo o que foi dito, só a informação de que o casamento não tem data ganhou os sites de todo o mundo. 

Na coletiva de On the Road, houve um momento, logo de cara, em que a coisa poderia ter degringolado. Uma jornalista do Canadá queria saber como foi filmar em seu país - quando o filme atravessa quase 100 mil km dos EUA. Outro, norte-americano, queria saber de Kristen Stewart como foi fazer as cenas de sexo e se Robert Pattinson, o namorado dela (na série Crepúsculo como na vida)... A pergunta ficou no ar, cortada pelo moderador Henri Béhar e pelo próprio diretor do filme, Walter Salles, que tinha muito mais a dizer sobre sua adaptação do livro cult de Jack Kerouac do que ficar alimentando os sites de fofocas. Veja os principais tópicos.

Preparação. “Foi necessário um longo período que nos tomou oito anos para fazer esse filme. No processo, fiz um documentário que terminou sendo uma ferramenta importante na compreensão e aprofundamento da aventura toda. Foi muito importante ter encontrado o filho de Neal Cassidy, representado como Dean no livro de Kerouac. Ele forneceu uma espécie de bússola ao nos lembrar que os personagens de On the Road precedem a explosão da Beat Generation. E é disso que se trata. A história trata do despertar político e social de dois jovens que descobrem uma geografia humana que é estranha para eles. É também a história da escritura de um livro mítico e de uma amizade rompida, que se eterniza justamente por meio da literatura.” 

Atores. “Considero todos os atores como coautores desse filme. Porque com sua entrega e as pesquisas que fizeram, eles me permitiram ir mais longe que o livro, mas sem deixar de permanecer fiel a Kerouac. Trabalhamos num espírito de improvisação permanente. E, embora seu papel seja pequeno na tela, Viggo Mortensen foi fundamental. Quando filmamos sua última cena, ele me deu carona, para que a gente fosse conversando. Mas ele colocou uma gravação com a voz do seu personagem, o verdadeiro (William) Burroughs. Ficamos em silêncio durante todo o trajeto, só ouvindo. Viggo pesquisou sobre o que Burroughs escrevia na época, sobre os livros infantis que sua mulher poderia estar lendo para os filhos, sobre a arma quer utilizava. Tudo veio dele e foi incorporado à produção, que ficou mais autêntica nos detalhes.”

Viggo Mortensen, sobre sua relação com o livro. “Havia lido On the Road quando jovem, mas reli pouco antes da filmagem. Só aí tomei consciência do seu caráter atual. Há hoje uma rejeição da crise econômica e das autoridades, e elas vêm principalmente dos jovens. É por isso um momento oportuno para se fazer este filme. As pessoas da minha geração verão o filme com nostalgia, mas os jovens vão poder se identificar com a época e seu espírito de contestação. O que mais me agrada no texto der Kerouac é a liberdade de interpretação que ele propõe. Walter fez algumas coisa nova sobre esses personagens. Não se contentou em oferecer uma simples cópia de suas palavras e ações.”

Kristen Stewart, sobre aparecer nua na tela. “Poderia dizer que Walter criou uma ambiência que libera o ator de suas inibições, mas na verdade esse é um risco que quis correr, conscientemente. Gosto dessas personagens que me confrontam, que me permitem sair da minha zona de conforto e ir ao limite. Marylou é uma personagem que ousa. Não creio que ela estivesse querendo ser parte de um movimento. Ela queria ser ela mesma e isso é uma coisa com a qual consigo me identificar. Para mim, se alguém encarna o espírito de liberdade do livro, é ela. Durante a filmagem, nos momentos de dúvida, eu sentia sua presença muito próxima, como se nos guiasse.” 

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