Walter Salles fala de seu gosto por filmes de terror

Walter Salles, 49 anos, assiste de longe a estréia, no Brasil, do seu primeiro projeto americano, um remake do terror japonês Água Negra, que chega aos cinemas brasileiros na sexta-feira. Salles está terminando sua participação em um projeto coletivo, Paris Je T´Aime, em parceria com Daniela Thomas. E já anunciou seu próximo projeto solo, a adaptação para o cinema de Pé na Estrada, o clássico da geração beat escrito por Jack Kerouac. A seguir, o diretor fala sobre o processo de realização de Água Negra e de como será Pé na Estrada, em uma entrevista concedida por e-mail. Como se envolveu no remake de "Água Negra"?Eu conhecia o roteirista do filme, Rafael Iglezias, um escritor que já havia colaborado com (Roman) Polanski na adaptação para o cinema da peça de Ariel Dorfman, A Morte e a Donzela, e também com Peter Weir. Iglezias é um cara inteligente, e temas como o abandono e a solidão urbana o interessaram . Foi isso que me pareceu instigante, à princípio. O que também me interessou foi, no espaço de um filme, sair de um território conhecido. O que me interessou foi, sobretudo, o fato de que era uma narrativa sobre personagens que não conseguiam conviver com seus próprios demônios. O perigo, aquilo que incomoda, não morava fora da trama e, sim, dentro dos personagens. Invertendo a frase de Sartre, é como se ele dissesse que o inferno não são os outros, somos nós mesmos. Foi difícil manter o conceito estabelecido inicialmente para o Dark Water intacto na hora de editar o filme com o Daniel Rezende? Que tipo de interferência sofreu?No início, não era um projeto de estúdio e sim o primeiro projeto de uma nova produtora que seria financiada por fundos europeus. O financiamento não se concretizou pouco antes da filmagem, e o projeto foi encampado por um estúdio. A filmagem em si não foi muito diferente daquela de um filme independente, com a ressalva de que o tamanho da equipe dificulta o processo de improvisação. A parte mais complexa é a da pós-produção, por causa dos testes de público que regem esse processo hoje nos Estados Unidos, inclusive para muitos filmes ditos "independentes". Esses testes de público acabam impondo soluções que vão na direção de uma explicitação da narrativa, na direção de uma aparente clarificação da trama. Em conseqüência, diminuem os espaços vazios, aquilo que deveria ser completado pelo espectador. Os seus filmes são muito diferentes entre si estilisticamente, embora mostrem uma certa unidade e coerência temática. "Água Negra" destoa da obra por ser um filme de terror, embora também tenha no centro um personagem enfrentando uma situação limite. Como se posiciona em relação ao cinema de gênero e, em especial, em relação aos filmes de terror? Tenho um interesse pelo filme de gênero que vem desde a adolescência. Foi nessa época que vi filmes como O Samurai, de Jean-Pierre Melville e Curvas do Destino, de Edgar G. Ulmer, e filmes como Repulsa ao Sexo, de Polanski, ou Sangue da Pantera, de Jacques Tourneur. Acho que os filmes de gênero podem, às vezes, mostrar bem as disfunções de uma sociedade. É daí que vem a minha atração pelo gênero. Qual sua opinião sobre o filme original, sobre o material que deu origem ao filme e que posição assumiu em relação a esse material todo quando fez a sua versão? O original japonês é bastante influenciado por O Bebê de Rosemary e O Inquilino, ambos de Polanski. Ele narra uma história sobre pessoas comuns, enfrentando problemas que parecem a princípio triviais. Só depois entra o desconhecido, aquilo que não se pode controlar. Outro ponto interessante é o de que não havia na história a figura do personagem principal heroificado tão característica dos filmes americanos. Os filmes de suspense psicológico japoneses são interessantes porque apostam exatamente no contrário, na possibilidade da derrota. Isso trouxe, paradoxalmente, uma "humanização" do gênero, acabou renovando-o. De minha parte, minha admiração por Hitchcock e por dramas psicológicos como Repulsa ao Sexo é maior do que a que tenho por filmes de terror. Jenniffer Connely, John C. Reily, Tim Roth, Pete Postlewaith... Um elenco bem diferenciado e com atores reconhecidamente talentosos. Como foi domar tantas estrelas. E como foi, especialmente, trabalhar com Jennifer Connely? A idéia foi trabalhar com atores que vinham basicamente do cinema independente inglês e norte-americano. Tim Roth e Pete Postlethwaite vinham desse território, John C. Reilly e Jennifer Connelly também. Jennifer tem duas qualidades que poucas atrizes americanas de sua idade têm: densidade e coragem para mergulhar em áreas que não trazem conforto. Daí o fato de que ela faz mais filmes que os nossos amigos franceses caracterizariam como "dramas psicológicos"...Trabalhar com eles foi a melhor parte do processo. O que pode adiantar a respeito de "Pé na Estrada"?O roteiro está sendo desenvolvido por Jose Rivera, o mesmo de Diários de Motocicleta. É apenas um início. Mais de dez roteiristas tão legais quanto Barry Gifford ou Russell Banks fizeram versões do livro para a tela que acabaram não se concretizando. E é bom lembrar também que Diários levou cinco anos para virar realidade. O convite de (Robert) Redford veio em 1999 e o filme só ficou pronto em 2004. Ou seja, ainda há muita água (clara) para correr debaixo da ponte. muita gente para ser entrevistada, muita estrada para ser percorrida em sucessivas viagens de locação.O projeto é interessante por duas razões. Primeiro, pela possibilidade de colaborar e aprender com um diretor e produtor como Francis Coppola. Segundo, o livro de Jack Kerouac está mais vivo do que nunca. Ele marca o nascimento da geração "beat", que contestou todos os valores da América puritana do pós-guerra. Contestou a ordem religiosa, familiar, a massificação do consumo. Os mesmos valores que Bush tenta impor hoje, mundo afora.

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