Marcos Arcoverde/Agência Estado
Marcos Arcoverde/Agência Estado

Walter Salles é um dos homenageados em Veneza

Brasileiro foi escolhido pela 'espiritualidade' de sua obra; Tornatore, Wenders, Sokurov já ganharam prêmio

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

02 de setembro de 2009 | 07h21

O cineasta brasileiro Walter Salles é um dos homenageados do Festival de Veneza. Na sexta-feira, o cineasta receberá o Prêmio Robert Bresson, criado a partir da 10ª edição do festival. Segundo os organizadores, Walter foi escolhido pela contribuição de sua obra como "testemunho importante do difícil caminho em busca do significado espiritual de nossa vida". Antes dele, receberam a mesma distinção diretores como Giuseppe Tornatore, Wim Wenders e Aleksandr Sokurov.

 

O que diz sobre essa homenagem de Veneza? Ela o surpreendeu?

 

A maioria dos cineastas que já ganharam o Prêmio Robert Bresson tem uma filmografia muito mais ampla do que a minha. É o caso de Manoel de Oliveira, Sokurov, Angelopoulos, o próprio Wim Wenders. Há também o fato de que o prêmio porta o nome de um dos mais rigorosos cineastas de todos os tempos, o que me fez pensar bastante antes de aceitar. Nesse sentido, entendo o prêmio como um olhar generoso sobre os filmes que já realizei e como incentivo aos que espero ainda dirigir.

 

A homenagem é feita a cineastas que trazem, em seus filmes, valores espirituais (acho que no sentido largo do termo, não religioso). Você tem sempre isso em mente quando elege um projeto e quando o filma?

 

Para mim, o ponto de partida é sempre a questão da busca da identidade, em como os personagens se redefinem no embate com o mundo. A sensação de deslocamento, de não pertencimento, está na base de quase todos filmes que dirigi ou codirigi. Os valores espirituais eventualmente associados a essa busca são, se é que existem, uma consequência dessa escolha inicial. Para que o contrário aconteça, ou seja, para que o que se entende como "espiritualidade" seja parte integrante da concepção de um filme, é preciso olhar para os mestres que foram Tarkovski ou Kieslowski, por exemplo. Em Andrei Roublev ou O Decálogo, as indagações metafísicas são a razão de ser desses filmes. O mesmo poderia ser dito de O Céu Sobre Berlim, do Wenders. Gostaria de ter a mesma imaginação, mas não tenho.

 

O nome do prêmio é Robert Bresson. Qual o seu contato com a obra desse diretor?

 

Bresson me marcou não só como cineasta mas também como pensador. Ele é um daqueles raros diretores que soube ao mesmo tempo transformar o cinema pela ação e pelas ideias. Pickpocket e Um Condenado à Morte Escapou foram filmes importantes nos anos de formação, e também gosto muito de Au Hasard Balthazar. Há nos seus filmes um sentido de alargamento do tempo, uma valorização dos silêncios, um rigor na maneira de olhar ou enquadrar que só têm igual em Dreyer. A forma como ele usou não-atores ou conceitualizou o "fora de campo" em seus filmes teve um impacto duradouro - o novo cinema chinês ou cineastas como Kiarostami não seriam os mesmos sem Bresson. É cinema que não mente. Há também rara qualidade libertária em seus filmes: em Um Condenado Escapou, a câmera permanece o tempo inteiro solidária ao homem na prisão, mas os sons que ouvimos são os da rua. Ou seja, aquilo que está além muros, aquilo que imaginamos, é mais importante do que a prisão que vemos.

 

Em artigo recente, você discutiu a dificuldade do cinema de autor contemporâneo. Como é possível para o cinema de autor não perder essa luta tão desigual contra o cinema de puro entretenimento?

 

Em primeiro lugar, não acho que exista uma simples oposição entre cinema comercial e cinema de autor. Pegue Chaplin, por exemplo: o mais popular de todos os cineastas da história do cinema era ao mesmo tempo diretor, roteirista, ator, montador e compositor da trilha sonora de seus filmes. Ninguém levou a noção do "autor" tão longe quanto Chaplin. Ao mesmo tempo, ninguém fez um cinema tão inteligente e acessível. Se existe uma real oposição, ela se dá entre o cinema independente e o cinema mecânico, repetitivo, feito para passar em centenas de salas dos shoppings. Num ensaio que um amigo me fez ler há pouco, John Berger diz que "o cinema é aquilo que leva na direção do desconhecido; no cinema, somos todos viajantes". Veja o caso recente do filme de Alain Resnais que ficou mais de um ano em cartaz em São Paulo. Quando um filme bate no nervo e oferece algo que não foi visto ou sentido, o público vem.

 

Em sua opinião, quem continua a fazer esse tipo de cinema hoje em dia?

 

Jia Zhang-ke. Para mim, é quem melhor encarna o que o cinema deveria ser. É um cinema de um humanismo seco e cortante, que ajuda a entender o mundo em que vivemos.

 

Queria que falasse sobre o homenageado Mario Monicelli, de 94 anos.

 

Sou fã incondicional de Monicelli. Não só do maravilhoso Exército de Brancaleone, mas também de Meus Caros Amigos ou Parente É Serpente. Há uma mordacidade, um olhar ao mesmo tempo anárquico e libertário em seus filmes, que são essenciais.

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