STEVE CHAGOLLAN
Na Estrada, filme baseado na obra de Jack Kerouac, dirigido por Walter Salles e estrelado por Kristen Stewart e Sam Riley. STEVE CHAGOLLAN

Na Estrada, filme baseado na obra de Jack Kerouac, dirigido por Walter Salles e estrelado por Kristen Stewart e Sam Riley. STEVE CHAGOLLAN

Walter Salles captou a essência de Kerouac no cinema

Cineasta transforma o fluxo de consciência mítica do livro com ‘Na Estrada’

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , Especial para o Estadão

Atualizado

Na Estrada, filme baseado na obra de Jack Kerouac, dirigido por Walter Salles e estrelado por Kristen Stewart e Sam Riley. STEVE CHAGOLLAN

Viagens no tempo e no espaço sempre deram o tom no cinema de Walter Salles. Em 2004, ele concorreu em Cannes com Diários de Motocicleta. Quentin Tarantino presidia o júri. Outorgou a Palma de Ouro para o Michael Moore de Fahrenheit 11 de Setembro, tentando influenciar na rejeição a George W. Bush, que concorria à reeleição. 

Fahrenheit não era o melhor coisa nenhuma. Na coletiva do júri, após a premiação, Tarantino foi inquirido sobre Diários. Não tinha nada a dizer. O filme não havia sensibilizado seu júri. Francis Ford Coppola teve outra ideia. Ele havia comprado, em 1979, os direitos de Na Estrada/On the Road, o livro mítico de Jack Kerouac. Nunca encontrou a forma de narrar aquela história. Ao ver Diários de Motocicleta, achou que Salles seria o cara certo. Salles fez o filme em 2012. Por mérito próprio, ou pelo atrativo do nome “Coppola”, reuniu um elenco que hoje é cultuado – Garrett Hedlund, Sam Riley, Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Amy Adams, Elizabeth Moss, etc. 


Assim como o Che e seu amigo Alberto Granado se lançaram numa viagem de iniciação, de moto, pela América Latina, Jack Kerouac e Neal Cassady atravessaram os EUA de carro. No livro, chamam-se Sal Paradise e Dean Moriarty, mas não há dúvida. Numa carta, o próprio Kerouac escreveu: “O livro é sobre nós e a estrada”. Essa visão “intestina” da América fortaleceu em ambos o desgosto por um certo estilo de vida norte-americano. Buscavam uma liberdade radical.  Após a morte do pai, Sal cai na estrada com o amigo Dean, que já esteve preso. Dean é fascinado pela obsessão de Sal de se tornar escritor. Sal identifica no outro o próprio desejo de cortar as amarras e deixar-se levar.

Viajam com a mulher de Dean, Marylou. Sexo, álcool, drogas. A viagem os leva à casa do Velho Bull Lee, que não é outro senão William S. Burroughs, escritor que virou lenda como contestador da arte tradicional e dos valores sociais da ‘América’, sucesso e dinheiro. O grande desafio de Salles e seu roteirista, José Rivera, foi transformar o fluxo de consciência da escrita de Kerouac em cinema. Muitos filmes de Salles têm crescido na revisão – Terra Estrangeira é um belo exemplo. On the Road está a exigir essa chance. O charme de Hedlund, como Dean, é devastador. É a alma do filme. 

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Jack Kerouac na praia. Allen Ginsberg

100 anos de Jack Kerouac: o autor que harmonizou a fala das ruas com a prosódia shakespeariana

Pai da geração beat, com a narrativa ‘On the Road’ estimulou rupturas

Claudio Willer , Especial para o Estadão

Atualizado

Jack Kerouac na praia. Allen Ginsberg

Terá sido On the Road (aqui publicado pela L&PM, assim como todas as demais edições brasileiras em que a editora não estiver indicada) a narrativa mais influente da segunda metade do século 20? Outras grandes obras não ultrapassaram o sistema literário; inspiraram literatura, mas não comportamento. Não tiveram a dimensão épica da convocação de Jack Kerouac (1922-1969) ao anunciar a geração beat – termo criado em 1948 durante uma conversa com John Clellon Holmes, autor de Go – e apresentar-se como porta-voz em On the Road: conforme seus diários, Kerouac, cujo nascimento completa 100 anos neste sábado, 12, pretendia intitular essa narrativa de Beat Generation. 

A crônica das suas consequências inclui a história do rapaz que saiu de casa com sua guitarra, deixou de se chamar Robert Zimmerman e adotou o nome de Bob Dylan. Algo semelhante ocorreu com o cineasta Francis Ford Coppola, o narrador Ken Kesey, o músico Lou Reed, entre tantos outros. O impacto foi favorecido por aquele, precedente, de Howl de Allen Ginsberg (em Uivo e Outros Poemas). Foram obras que, além de estimularem rupturas, transmitiram um sentido de identidade para pessoas à margem, como registrado por Diane di Prima no capítulo final de Memórias de uma Beatnik (Veneta).

Eles promoveram – com William Burroughs, mentor do grupo, Gregory Corso, Michael McClure, Gary Snyder, Lawrence Ferlinghetti e outros – o aparecimento dos beatniks e hippies. Kerouac os anunciou em Os Vagabundos Iluminados: “Pense nos milhões de sujeitos espalhados pelo mundo com mochilas nas costas, percorrendo o interior e pedindo carona e mostrando o mundo como ele é de verdade”. 

Mais tarde, criticaria os manifestantes da década de 1960, enxergando neles a massificação que execrava; e, reacionário convicto, uma ameaça comunista. Seu conservadorismo, uma herança familiar: o pai e a mãe, caipiras franco-canadenses da região do Percé, eram, inclusive, antissemitas. Isso contrasta com a influência de outro escritor-aventureiro, Jack London, marxista; e com sua identificação a indígenas, negros, vagabundos, párias, com declarações como esta, em On the Road: “Num entardecer lilás, caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser um negro. Desejava ser um mexicano de Denver, ou mesmo um pobre japonês sobrecarregado de trabalho, qualquer coisa, menos aquilo que eu tão aterradoramente era, um ‘branco desiludido’”.

Kerouac fazia uma interpretação pessoal, platônica, do historiador Oswald Spengler, autor de A Decadência do Ocidente, valorizando os felás ou fellaheen, o estrato mais arcaico das sociedades. 

Recebido com uma resenha no New York Times que impulsionou suas vendas, isso não impediu que On the Road fosse e ainda seja atacado pelo culto à espontaneidade, desordem formal, apologia da libertinagem, uso exagerado de categorias religiosas. Os beats chegaram a ser acusados de iletrados, obliterando suas constantes referências a leituras. 

Kerouac não foi apenas um narrador de viagens. Seu período de produção mais intensa e vida mais frenética, entre o início das viagens relatadas em On the Road em 1947 e seu lançamento, resultou em obras memorialísticas, no originalíssimo Doctor Sax, uma narrativa mítica, e nos poemas de Mexico City Blues, San Francisco Blues e Scattered Poems, além do Livro de Haicais, organizado por Regina Weinreich; e três obras sobre budismo; as anotações de sonhos e uma narrativa exibindo a “prosódia bop”, Os Subterrâneos.

Retornaria à memorialística em 1967, em seu canto de cisne, Vanity of Duluoz – obra das melhores (opinião partilhada pelo biógrafo Gerard Nicosia e por Ginsberg): em longos períodos, harmonizou a fala das ruas e a prosódia shakespeariana. Resultado de leituras em voz alta de Shakespeare e Joyce com seu colega Steve Sampas, para se familiarizar com o inglês, pois até os 5 anos falava kanuck, dialeto ágrafo de franco-canadenses. Sua aguda sensibilidade musical – além de descobrir o “bop” nos lugares onde foi criado, o Minton’s e Apollo no Harlem, e de entrar nas filas para ouvir Frank Sinatra, largou a universidade ao som de Wagner e saiu de casa ao som da Sétima Sinfonia de Shostakovich – pode ter relação com esse treino da sensibilidade para o mundo sonoro.

Mitômano

Kerouac foi um personagem de si mesmo. Biografias preenchem uma extensa prateleira de estante, desde o trabalho pioneiro de Ann Charters. “Mitógrafo”, denominou-o Snyder em O Livro de Jack, coletânea de entrevistas por Gifford e Lee (Globo). Mitômano, mentiroso de marca maior, também seriam termos apropriados. Um exemplo, a lenda que criou sobre a publicação tardia de On the Road. Imputou o atraso ao crítico Malcolm Cowley, estudioso da Lost Generation. 

Na verdade, foi do próprio Jack a iniciativa de recolher o calhamaço de folhas de telex coladas. Preparou quatro versões até chegar à forma impressa – conforme o bom apoio crítico nos prefácios de O Manuscrito Original – além das precedentes anotações no diário, durante as viagens. A versão final teve adição de prosa poética e retirada de irrelevâncias, como a tentativa de reatar com a primeira esposa, Edie Parker (em cujo apartamento se reuniram os formuladores da “nova consciência”, mais tarde a beat). E, principalmente, a divisão em partes, mostrando a fracassada busca de um gnóstico pessimista; católico jansenista para Barry Miles, o que é corroborado pelas citações de Pascal. Tentou se redimir por haver abandonado Cassady nas ruas de Nova York através de Visões de Cody, em que exibe todos os modos de escrever, da transcrição de fitas gravadas até glossolalias e paráfrases de Joyce.

O período de escrita frenética de Kerouac nos anos de 1950 foi uma sucessão de paradoxos. São simultâneos Os Subterrâneos, sua “desleitura” de Memórias do Subsolo, de Dostoievski, com a apologia do sexo com Mardou Fox (Alene Lee), e Tristessa, com a fascinação por uma esquálida traficante mexicana, para ele santa, em quem não tocou. Sua companheira na época, a excelente escritora Joyce Johnson, relata em Minor Characters o encontro de Jack com Alene e a dificuldade em convencê-la a autorizar a publicação. 

A estada no alto de uma montanha, o Desolation Peak, ganhou dois relatos antagônicos. Em Os Vagabundos Iluminados, êxtase em exuberante prosa poética (da qual Regina Weinreich recortou haicais). Em Anjos da Desolação, uma experiência sombria, um forte relato do confronto com o vazio. A versão biograficamente real é aquela de Anjos da Desolação: ainda retornaria ao México e viajaria à África e Europa, antes de isolar-se, para morar com a mãe e cuidar dela até o fim da vida. 

Em Coisas do Darma (a sair), há de tudo: proselitismo budista, homofobia e misoginia, belas peças em prosa poética, instruções de como índios mexicanos se alimentavam de sementes – reproduzindo, sem saber, o que Claude Lévi-Strauss expõe em O Pensamento Selvagem e contrastando com o pantagruelismo em outras obras – e exultação por terminar o mais católico de seus livros, Visões de Gérard. E as colunas emparelhadas do Shakespeare da batalha de Azincourt em Henrique V e Ulisses, mostrando o Joyce shakespeariano e como ambos incorporavam a língua falada. 

Enfim, mais que um autor a ser lido, um labirinto a ser percorrido.

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Walter Salles, diretor de 'Na Estrada', longa baseado na obra de Jack Kerouac. Silvana Garzaro/ESTADAO

'Jack Kerouac criou personagens imperfeitos e, por isso, humanos', diz Walter Salles

A pedido do Estadão, diretor do filme 'Na Estrada' analisa o estilo do escritor americano

Imagem Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

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Walter Salles, diretor de 'Na Estrada', longa baseado na obra de Jack Kerouac. Silvana Garzaro/ESTADAO

O cineasta Walter Salles mantém uma íntima relação com a obra do escritor americano Jack Kerouac, cujo centenário de nascimento é lembrado neste sábado, 12. Assim, em 2012, ele decidiu adaptar o mais conhecido dos romances de Kerouac, On The Road.

É a dilacerante história de uma amizade rompida, mas que se eterniza na arte. Como  se trata de uma obra mítica, cuja fama sobrepuja suas qualidades literárias, o filme é um visão particular e, ao mesmo tempo, aberta do livro.

A convite do Estadão, Salles fez uma reflexão sobre a importância que On the Road ainda tem para ele.

"Há um antes e depois de Kerouac na forma de descrever o mundo.  A América conservadora e racista dos anos 50 se viu de repente frente à uma escrita sensorial, ritmada pelo batimento do Jazz de Charlie Parker, Miles Davis e John Coltrane. Um fluxo narrativo habitado por personagens imperfeitos, e por isso mesmo profundamente humanos.

Havia também a coragem de viver como os personagens que descreviam, uma coerência entre a palavra e a ação, que me impactaram quando li “Na Estrada” pela primeira vez.

Essa mirada acabou ecoando no cinema independente, em filmes tão vitais como os de John Cassavetes (como “Shadows”)  e Shirley Clarke, que por sua vez influenciaram a geração de Jim Jarmush e Gus Van Sant. E na música, a influência foi ainda maior: não haveria Dylan, Patti Smith, Lou Reed, Joni Mitchell sem o movimento de contracultura encabeçado por Kerouac, Allen Ginsberg, Burroughs e Gary Snyder. Esse é um legado que ecoa até hoje." 

Walter Salles

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