República Pureza Filme
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Walter Carvalho reúne depoimentos de diretores em 'Um Filme de Cinema'

Longa faz reflexão sobre a arte de filmar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2017 | 06h03

Reconhecido como grande diretor de fotografia, um dos maiores do mundo, Walter Carvalho gosta de dizer que o cinema não é a razão para a vida e a vida possui uma riqueza muito maior que o cinema. Mas ele adora viver o processo de fazer cinema, ser parte de um todo, integrar pessoas. Muitas vezes, frustra-se porque planos que demandaram cuidados extraordinários caem, pelos mais diferentes motivos, na montagem final. Um Filme de Cinema, que estreou na quinta, 24, nasceu, de forma um tanto atravessada, da sua vontade de resgatar esses fragmentos abandonados.

“Pensei que seria interessante fazer um filme só reunindo esses planos perdidos e tentando articular uma narrativa entre eles, mas foi muito mais complicado do que esperava. As pessoas têm hoje uma consciência maior e preservam negativos, mas o que vai para o lixo, o que não é usado, perde-se para sempre. Mas eu sempre gostei do clima de uma equipe. O que a gente vive numa locação com diretor, atores, com minha equipe, é muito rico. E aí eu comecei a documentar esses momentos, a conversar com diretores. O que é o cinema, para que serve o cinema? Há 14 anos, comecei a fazer essas perguntas. A coisa foi crescendo e eu senti necessidade de chamar alguém (o Marcelo Maia) para me ajudar a produzir esse material. Quando o Marcelo chegou, a ideia do filme se cristalizou. E, quando assinamos um contrato, veio junto a ideia de prazo. Porque senão seria um work in progress. Não ia terminar nunca.”

Entre os diretores que Carvalho entrevista estão no filme - Béla Tarr, Gus Van Sant, Jia Zhangke, Lucrecia Martel, Júlio Bressane, Ruy Guerra. Talvez, dessas conversas todas, por mais ricas que sejam, as que mais reverberam são com Béla Tarr e Ruy Guerra. “O Ruy é um amigo e um diretor com quem tenho trabalhado bastante. Sempre tivemos essas conversas de cinema na nossa vida. A reflexão faz parte do nosso trabalho e era mais do que natural que ele estivesse no filme.” E Béla Tarr? “Aí foi mais complicado. Quando fui a Budapeste para filmar a adaptação do livro de Chico (Buarque), tentei falar com o Béla. Um ator húngaro que participava da produção havia trabalhado com ele e fez a ponte, mas sempre admitindo que ele não gostava de dar entrevistas.”

O encontro terminou saindo depois, e Béla Tarr pediu a Carvalho que fosse a seu estúdio, onde montava - numa moviola! - O Cavalo de Turim. “A película está desaparecendo, hoje em dia pouquíssimos diretores ainda filmam em película. O Martin Scorsese e o Quentin Tarantino têm acordos com laboratórios dos EUA para seguir filmando em película, mas editar na velha moviola ficou mais raro ainda. O Béla é um gênio. Influenciou Gus Van Sant, que admite para a gente que mudou seu estilo de filmar depois de ver Sátántangó. E o Béla foi muito generoso. Só recusou quando lhe pedi para ir a um set que havia improvisado. Me disse que não era ator para representar diante da câmera.”

O que os diretores dizem constrói um diálogo entre eles. O que Júlio Bressane diz não fecha necessariamente com o que pensa Lucrecia Martel, ou Jia Zhangke, mas é essa diversidade que faz a complexidade do filme, e do próprio cinema. E, então, Walter Carvalho, o que é o cinema? “É colocar os sonhos na câmera. O espectador não se dá contas, talvez nem saiba, mas no cinema, na maior parte do tempo, está às escuras. Entre os frames não há nada, somente escuridão. Então, a luz que emana dessa escuridão ilumina nosso sono.” E para que serve o cinema? “Para sonhar, mas sonhar não significa se alienar, abrir mão de si. O cinema nos conecta com o mundo. Com os mundos, as culturas, as identidades. Sua beleza está na descoberta e aceitação do outro.”

Carvalho tem feito muita TV, além de cinema. Fotografa e dirige para TV. Tem diferença? “Cinema, televisão e fotografia têm pressupostos muito próximos quanto à essência da imagem. A diferença é do veículo. O cinema favorece o mergulho, o sonhar acordado. A TV tem o break do comercial, do telefone que toca, do levantar para tomar água, ir ao banheiro. Fora isso é a mesma coisa. Tenho muito orgulho do que estou fazendo na TV”, acrescenta.

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