Walter Carvalho ganha retrospectiva de seus filmes em São Paulo

Mostra do cineasta será no Caixa Belas Artes

Entrevista com

Walter Carvalho

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2014 | 03h00

Walter Carvalho é figura quase onipresente no cinema brasileiro, famoso por trabalhar “mais que remador de Ben-Hur”, na expressão de Nelson Rodrigues. Conhecido como diretor de fotografia excepcional, tendo parcerias com os mais respeitados autores do nosso cinema (mas também não recusa trabalho com iniciantes), é também cineasta, diretor de documentários como Janela da Alma e as cinebiografias de Cazuza e Raul Seixas. Walter, irmão do documentarista Vladimir Carvalho, ganha a partir desta quinta-feira uma grande retrospectiva de seus filmes no Caixa Belas Artes. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado

Você destacaria momentos-chave em seu trabalho como fotógrafo, pontos de viragem, momentos de inovação? 

Talvez o primeiro que fotografei - Incelência para Um Trem de Ferro, do meu irmão Vladimir Carvalho - tenha sido uma marca essencial. Eu era muito garoto, estava fazendo uma coisa pela primeira vez sem saber muito bem como. Central do Brasil  foi um filme que abriu uma janela de reconhecimento para meu trabalho. Outro excelente filme que foi muito importante é Lavoura Arcaica. Este foi  marcante para todos os envolvidos naquela jornada com o livro de Raduan Nassar.

Sempre me surpreendeu a sua capacidade de estabelecer relações com as outras artes. Como se dá seu diálogo com a pintura e a arquitetura, por exemplo?

Foram os pintores, os arquitetos, os escultores  que levaram o homem a pensar sobre suas próprias atividades. A noção de narrativa nasce com Giotto, Cimabue. Na Capela de Pádua entendemos hoje toda a estrutura do quadro, da composição, da montagem, da luz, do movimento e sobretudo do tempo narrativo. Um pouco mais de 60 anos apenas separam a morte de Giotto do nascimento de Masaccio, ou seja, os iniciadores de uma civilização, como qualificou Kenneth Clark. A meu ver,  tudo se inicia a partir daí com o Renascimento e a descoberta da perspectiva. É através dessas manifestações que surgem os primeiros fotógrafos, os primeiros documentaristas da história pictórica. Vermeer era um documentarista.

Você trabalhou com um elenco de diretores brasileiros como Walter Salles, Karim Aïnouz, Claudio Assis, Luiz Fernando Carvalho, José Henrique Fonseca, etc. Como se dá, nesses casos, a colaboração entre o diretor do filme e o diretor de fotografia? 

Não me limito às questões da fotografia, exclusivamente. Procuro me envolver com as ideias da narrativa. Posso descobrir a imagem de um filme numa frase do roteiro ou num pensamento do diretor quando conversamos. Deixo a tecnologia por último, ela é uma ferramenta. Não encontro a linguagem em manuais. Talvez por isso tenha me aproximado mais dos diretores e muitas vezes influí nas ideias do roteiro. Mais do que um técnico, passei a colaborador.

Walter, gostaria que você falasse de diretores de fotografia estrangeiros com os quais você dialoga esteticamente. Gente como o recém-falecido Gordon Willis, ou Sven Nykvist, o fotógrafo do Bergman, Raoul Coutard, que fez vários filmes do Godard, etc.? 

Falando dos que você citou: Storaro, se tivesse nascido no período da Renascença, seria um pintor.  Gordon Willis, com  o domínio absoluto do escuro da luz, é inigualável. Sven Nykvist representa o rigor da composição, basta ver a sequência do diálogo do personagem com a morte em Sétimo Selo, de Ingmar Bergman.  Os movimentos de câmera de Raul Coutard em A Bout de Souffle são seminais e copiados durante décadas, permanecem novos até hoje. O fotógrafo Fred Kelemen do Béla Tarr, que fez O Cavalo de Turim e O Homem de Londres, registra uma beleza perturbadora que me leva para um outro lugar. Falo dos diretores de fotografia, mas posso dizer que fotógrafos como Josef Koudelka, William Klein, Christer Strömholm, Sylvia Plachy, Robert Frank, me inspiram tanto quanto os pintores. 

Em termos da passagem da direção de fotografia para a direção de filmes. Como se deu? Foi um passo natural, qual a grande diferença entre uma e outra? 

Talvez possa dizer que foi um passo natural, mas isso não explica tudo. Gosto da imagem, me seduz a ideia de transformar o código verbal em imagem. Quando comecei com cinema não pretendia dirigir. Trabalhei durante muito tempo e com muitos diretores de várias origens e ainda continuo fotografando. Sou um fotógrafo que dirige. Um dia entrei no set não como um fotógrafo para cuidar de um aspecto da feitura do filme, e sim para cuidar de todos os aspectos, e novamente toda sensação de que estava começando se repetiu. Apesar de conhecer os caminhos e os atalhos, ali estava a recomeçar. No momento, estou finalizando meu próximo filme depois do Brincante.  Filme que iniciei há 13 anos e se chama Um Filme de Cinema, que nasceu dessa preocupação: como construímos um plano.

Fez também documentários extraordinários como Janela da Alma e Moacir Arte Bruta. Como compara esse trabalho documental com o da ficção?

Em Ideias Fixas, de João Cabral de Melo Neto, ele comenta que “o lógico em cinema era ser sempre documentário. Não sei por que o cinema tem de fingir a realidade”. Eu entendo. Estamos lançando o meu mais novo filme, Brincante, com Antonio Nóbrega. Não consigo classificá-lo. 

Quais são seus planos mais imediatos de trabalho?

Fui um dos diretores da minissérie O Rebu. Agora estou em plena preparação para fotografar o Redemoinho, filme de (José Luiz) Villamarim, roteiro de (George) Moura, baseado no livro de Luiz Ruffato Inferno Provisório. Estou lançando no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo meu novo filme, Brincante, enquanto finalizo Um Filme de Cinema, uma reflexão sobre a linguagem do cinema, com o produtor Marcello Maia. Em final de novembro, lanço meu livro de fotografias Contrastes Simultâneos.

A LUZ (IMAGEM) DE WALTER CARVALHO

Caixa Belas Artes. Rua da Consolação, 2.423, tel. 2894-5781. R$ 10/ R$ 20. De 2 e 15/10. 

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