DIV
DIV

Wajdi Mouawad confessa o que lhe desagrada no filme ‘Incêndios’

É só um detalhe, mas, para o dramaturgo, o diretor Denis Villeneuvevai contra seu texto e a própria natureza da personagem Narwal

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2015 | 05h00

Na próxima quinta-feira, 5, Wajdi Moauwad estreia no Sesc Pinheiros – em curtíssima temporada, até sábado (7) –, o espetáculo Seul(s), Solos. Ele mesmo em cena, mas com recursos tecnológicos. O som é um elemento decisivo da montagem, como ele conta na entrevista da capa. Nos últimos tempos, o público paulista de teatro tem assistido a espetáculos do ‘pai’ artístico de Mouawad, Robert Lepage, e também de Ariane Mnouchkine, Bob Wilson, Peter Brook. Esses diretores/autores trazem ‘grosses machines’, espetáculos grandes para o País. Como Mouawad vê isso?

“Acho que são artistas imensos e têm todo o direito de fazer o seu teatro. Mas está cada vez mais difícil conseguir financiamento, se você já não tem um nome. No Canadá e na França, muitas vezes os encenadores, para sobreviver, tornam-se diretores artísticos de teatros e companhias e aí, ao invés de se preocupar com a criação, são consumidos pela burocracia.” Mouawad fala com conhecimento de causa. Codirigiu o Théâtre Ô Parleur e dirigiu outro teatro, o de Quat’Sous (Quatro Vinténs), em Montreal. Foi o sucesso de Incêndios, chamando a atenção para a trilogia integrada por Littoral e Fôrets, que lhe garantiu a independência financeira e artística.

A pergunta que não quer calar – Mouawad viu o filme que Denis Villeneuve adaptou de sua peça em 2011? Incêndios foi indicado para o Oscar e, a partir daí, houve o estouro. Villeneuve projetou-se como diretor A. É dele o poderoso Sicário, em exibição na cidade. “Vi o filme (Incêndios) quatro vezes, a primeira quando Denis acabou a primeira montagem e a última quando ele promoveu uma sessão de encontro entre os elencos do teatro e do cinema, que foi muito bonita. O que posso lhe dizer é que, tendo visto o filme tantas vezes, tenho a impressão de que nunca o vi de verdade”, disse Mouawad na entrevista por Skype, de Paris.

E ele esclarece – “O filme é muito bem feito, mas para um autor é desconcertante ver que aquilo que se cria de forma simbólica no palco pode ganhar um tratamento naturalista. Uma cadeira, no palco, pode ser muita coisa. No filme vira estrada, carro, tudo para mostrar de forma realista os deslocamentos dos personagens.” A despeito de tudo o que o filme lhe deu, Mouawad confessa o que lhe desagrada: “Há um breve momento, tão breve que as pessoas talvez nem percebam. Narwal, a protagonista, fala no ouvido do tabelião e, na cena seguinte, tenho sempre a impressão de que ele escreveu a carta dela para os filhos. Minha personagem é uma mulher que perdeu tudo. Aquela carta é sua única realização. Sugerir que outro a escreveu vai contra meu texto e a própria Narwal”.

SOLOS. Sesc Pinheiros. Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, telefone 3095 9400. 5ª a sáb., 21 h. R$ 30. Até 7/11. Estreia quinta (5/11).

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.