Victoria Will/Invision/AP
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'Você só fracassa se não tenta com vontade de acertar', diz diretora de 'Sentimentos que Curam'

A diretora e roteirista Maya Forbes conta como venceu seus medos e fez o belo filme, agora em cartaz

Entrevista com

Maya Forbes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 Julho 2015 | 04h00

Admiradora de François Truffaut – Na Idade da Inocência é seu filme favorito –. Maya Forbes surgiu como roteirista, mas, como disse ao repórter, numa entrevista por telefone sobre Sentimentos Que Curam, cansou-se de escrever filmes que não tinham muito a ver com ela. Seu perfil a direciona para filmes pessoais, idiossincráticos – a definição é dela – e que tenham foco na família. Em 2007, resolveu fazer um roteiro sobre sua experiência familiar. Quando o roteiro ficou como ela queria – engraçado, triste, humano –, Maya resolveu não correr o risco de que outra pessoa desse tratamento anódino a seu material. Resolveu dirigir. Foi mais difícil que imaginava – levantar os recursos. Mas ela conseguiu fazer o filme em cartaz desde a semana passada.

Mark Ruffalo tem o que se pode chamar de ‘Oscar winning performance’, uma atuação digna de Oscar, como o pai de Maya. Zoe Saldana faz sua mãe. Ela chegou a ouvir de um (quase) produtor que as coisas ficariam mais fáceis se tivesse uma atriz branca no papel. “Mas como , se minha mãe é negra? Com que cara ia lhe mostrar o filme?” O que a história da família de Maya tinha de tão interessante, a ponto de virar filme, e bom? “Tinha 6 ou 7 anos quando descobri que meu pai foi diagnosticado com a síndrome do comportamento bipolar. Não sabia o que era isso, claro, só sabia que meu pai era diferente. Ele não se comportava como nenhum outro pai que eu conhecesse. E aí teve um surto, precisou ser internado. Retrospectivamente, posso dizer que aquilo teve um efeito devastador para a vida da família. Mas tive uma mãe guerreira, que forçou meu pai a fazer coisas para que ela pudesse estudar e buscar uma melhor condição de vida para todos nós.”

Além de guerreira, e feminista avant la lettre, mamãe é tão bonita que é interpretada por Zoe Saldana. Sua mãe era bonita assim? “Muito. Quando penso naquele produtor que queria que eu fizesse o filme com uma atriz branca... Foi o pior conselho que ele poderia me dar, mas também foi o melhor, porque ele me forçou a encarar o desafio de dirigir o filme. Comecei a pensar que outro poderia estragar meu material, ou que pelo menos faria o filme diferente do que eu tinha em mente. Só eu poderia fazer o meu filme. Conversei com (o diretor) Wes Anderson, que é amigo de meu marido (Wally Wolodarsky) há 20 anos e a quem conheço bastante. Wes me estimulou a dirigir. Disse que seria difícil, sendo uma estreante, mas que seria mais fácil eu me perdoar estragando o filme do que aceitar que outro o estragasse. Wes estava certo.”

E, na verdade, Maya Forbes adorou dirigir. “Das três etapas, escrever, dirigir e montar, a direção foi a que mais me agradou. Consegui reunir um elenco incrível, e porque estavam trabalhando com crianças Mark (Ruffalo) e Zoe (Saldana) transformaram os intervalos de filmagem num parque de diversões. Mark trouxe os filhos para os sets e eles brincavam com as garotas. Wes (Anderson) me deu outro conselho valioso. Sugeriu que eu fizesse o filme com minha filha Imogene (Wolodarsky). Com sua experiência, ele percebeu que Imogene corresponderia à expectativa e que tê-la, no set, fazendo meu papel, seria muito importante para mim. Eu olhava Imogene e me via. Não queria decepcioná-la nem me decepcionar. Num certo sentido, foi uma boa competição. Era como se competisse comigo mesma para fazer o filme melhor.”

Foi difícil convencer Mark Ruffalo a fazer o papel? “Acredite, mas eu sempre pensei que ele seria perfeito. Mark não é só um ator talentoso. Ele é um ser humano maravilhoso. E eu sabia que poderia entender e transmitir os altos e baixos daquela vida. Mas você tem razão – ninguém faz um personagem desses impunemente. O comportamento bipolar mexe com áreas sombrias do comportamento de um ator. E sempre havia o risco de não chegar lá, ou de exagerar. Entendo quando você diz que é uma Oscar winning performance. Mark já ganhou o Oscar de coadjuvante deste ano por Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo (de Bennet Miller). Não sei se será indicado de novo para melhor protagonista, mas torço para que sim. Ele superou minhas mais otimistas expectativas. Uma interpretação errada teria destruído o filme. A interpretação certa elevou seu status. E não só a dele. Tenho um elenco fantástico. Por isso é que digo que dirigir foi a melhor parte. Trabalhar com esses atores, com os responsáveis pela fotografia, pela direção de arte. Consegui fazer o filme como queria. Conectado com a realidade e com a nossa humanidade. É o cinema em que acredito, que quero fazer.”

Existem cenas muito fortes em Sentimentos Que Curam. O colapso nervoso do pai, quando a polícia tem de intervir, na casa de campo. A visita ao hospital. “Baseei-me em lembranças armazenadas no meu inconsciente. Você vive essas coisas e não esquece. Elas ficam soterradas sob mil e uma outras lembranças, mas, quando você puxa um fio, tudo reaparece. Foi assim que fui me lembrando e aí reconstituí com os atores. Não exatamente igual, mas de uma forma realista, verdadeira. Mark (Ruffalo) foi sempre surpreendente. Às vezes hesitava em lhe pedir certas coisas, mas ele parece que percebia e me propunha. “E se a gente fizesse assim?’ Em geral era como me lembrava, como queria que fizesse, mas ficava constrangida de pedir porque tudo aquilo era muito pessoal e eu me indagava se seria justo forçá-lo a dividir.”

Certos detalhes são preciosos – o pai fuma como uma chaminé e isso, nessa era de politicamente correto, já diferencia o personagem. “Minha lembrança de meu pai é sempre essa. Com um cigarro nos lábios. Ele era capaz de fazer um bolo, a comida sem tirar o cigarro da boca. Se fosse um personagem contemporâneo, provavelmente teria sofrido algum tipo de pressão. Alguém teria me dito para maneirar, que aquilo não era um bom exemplo. Mas num filme de época, e com um personagem que sofre de transtorno bipolar... Ninguém nunca ousou me pedir que mudasse. E, se pedissem, não teria mudado, de qualquer maneira.” Recriar os anos 1970 foi trabalhoso, mas bom. “Não queria que o filme fosse intemporal. Queria que a época ficasse bem marcada. Afinal, a história é real, é a minha história. Não podia falsear.” 

E assim como trabalhou com a filha, Imogene, Maya também trabalhou com a irmã. “China (Forbes) integra a banda Pink Martini, de Portland, Oregon, que mistura diversos gêneros musicais, como a música latina, lounge, música clássica européia e jazz. Ela criou e vocaliza o tema final, que me parece muito bonito.” Avaliando o que fez, Maya já tem distanciamento para dizer – “Se a ideia de dirigir o filme me assustava, a desistir me assustava ainda mais. Sempre digo a minhas filhas as mesmas coisas que minha mãe dizia – corram riscos criativos, não tenham medo de estar no comando das coisas, sejam corajosas. A gente só fracassa se não tenta. Por minhas filhas, tive de fazê-lo. Tinha uma visão e decidi seguir meus instintos. Acho que deu certo.”

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