Viva Sapato! fecha mostra competitiva em Miami

Paula Burlamaqui tem passeado sua beleza aqui pelo 7° Festival do Cinema Brasileiro de Miami. Se houvesse um concurso para eleição da mais bela, Dira Paes e ela seriam as musas do evento. Uma de cabelo claro, não propriamente loira (Paula), a outra morena (Dira), representam a beleza da mulher brasileira aqui na Flórida. Paula faz mais o gênero sexy, mas ela mesmo ri, se você lhe diz isto. É a estrela de Viva Sapato!, o filme cuibano-brasileiro de Luiz Carlos Lacerda que encerra hoje a mostra competitiva. Viva Sapato! passa às 21 horas. Às 19 horas, o concorrente é Amarelo Manga, de Cláudio Assis, que desembarca na Flórida credenciado pelos prêmios que recebeu no Cine Ceará.Foram prêmios absurdos, que um júri de irresponsáveis ou incompetentes resolveu atribuir a Amarelo Manga, talvez em desagravo ao episódio ocorrido no Recife, no Cine PE - Festival do Audiovisual. Assis queria concorrer em casa, a organização do Cine PE preferia exibir Amarelo Manga fora de concurso, na noite de encerramento. O diretor tirou o filme da programação e o levou para o Cine Ceará, onde ganhou, sabe-se lá por quê, todos os prêmios. Além de supervalorizar Amarelo Manga, a atitude deste júri de incompetentes desautorizou a vitória do melhor filme brasileiro da safra atual no Recife. Depois de uma expressiva vitória no Cine PE, Narradores de Javé, de Eliane Caffé, foi o grande perdedor do Cine Ceará.Amarelo Manga põe na tela um grupo de outsiders para falar das pequenas vidas na periferia do Recife. Um garçom, um cozinheiro gay, uma dona de bar, um açougueiro e sua mulher evangélica vivem encontros (e desencontros) amorosos. É, um pouco, um filme sobre a miséria humana. O amarelo do título não se refere ao ouro, porque ninguém, no filme, leva uma existência que se poderia definir como dourada. Refere-se mais aos tons de mofo, do envelhecimento e das atribulações da vida diária. O diretor Assis expõe toda a vulgaridade desse mundo marginal. Provoca desconcerto, mas talvez seu filme tenha de ser todo repensado a partir do desfecho. Os planos do final, documentários, captam a cidade e seus habitantes de um jeito muito mais emocionante e sincero do que a ficção que ele armou antes para olhar o Recife.Viva Sapato! encerrou o Cine PE, passando fora de concurso. O próprio diretor Lacerda - de For All, o Trampolim da Vitória - diz que seu filme é mais que uma comédia. Ele usa a conhecida história de As Treze Cadeiras, só que aqui a fortuna contrabandeada de Cuba está escondida num sapato de plataforma, não numa cadeira. Até por esse detalhe, Viva Sapato! trafega no bas-fond de Cuba, flagrando um mundo de coristas, mães de santo, travestis e seus gigolôs. Talvez não seja a visão que o regime cubano gostaria de exportar e o resultado foi que Viva Sapato! foi recusado no Festival de Havana do ano passado, o que causou tristeza em Lacerda; afinal, ele foi professor na Escola de Cinema de Los Baños e viveu muito tempo em Cuba. Mas o filme certamente não é anticubano, fazendo de forma humorada a ponte entre a beleza, a sensualidade e a luta pela sobrevivência de cubanos e brasileiros. O problema - e não se pode dizer que seja pequeno - é que o diretor e os atores dão a impressão de divertir-se mais do que os esperctadores, o que é fatal numa comédia. O esforço de produção, de qualquer maneira, é apreciável, tanto mais porque Viva Sapato! foi quase todo rodado no Rio, em exteriores escolhidos por sua semelhança com locais de Havana.Na sexta, terceiro dia da competição, as condições de projeção finalmente atingiram o plano do impecável, o que já edeveria ter ocorrido desde o início. Cláudia Dutra, uma das idealizadoras do Brazilian Film Festival of Miami não se cansa de explicar que isso nunca ocorreu antes e que o problema todo está no próprio local escolhido para sediar o festival. O Lincoln Theatre, sede da Orquestra Sinfônica de Miami, a New World Simphony, não é uma sala formatada para cinema. A adaptação esbarrou em mais problemas do que a organização do evento poderia prever. Na terceira das quatro noites da competição, os filmes, finalmente, passaram em boas condições de imagem e som. Cristina Quer Casar, de Luiz Villaça, foi o primeiro da moite. É uma comédia sobre as atribulações de uma mulher que espera encontrar no casamento a solução para seus problemas afetivos. Ela vai numa agência que promove encontros e o diretor narra o seu processo de aproximação do cliente indicado pelo dono do lugar, embora seja esse último - duro e cheio de problemas, como ela - o parceiro ideal para Cristina.Villaça fez uma comédia rica em observações, que só fica boba, mesmo, no desfecho, que é aquele previsível desde o começo. Mesmo assim, ele tenta desmistificar o próprio happy end por meio de uma chuvarada que atinge a protagonista a caminho do casamento. O público divertiu-se, aplaudiu bastante e, na saída, o público presente no Lincoln Theatre falava dos atores do filme com mais entusiasmo do que os de qualquer outro exibido antes. Villaça faz filmes para sua mulher, Denise Fraga, que é ótima, mas Marco Ricca, Fábio Assunção - criando um tipo oposto à sua imagem de galã - e Suely Franco e Rogério Cardoso, como a mãe de Cristibna e o dono da lanchonete onde ela chora suas penas, são todos candidatos aos prêmios de interpretação.Após a leveza de Cristina Quer Casar, a barra pesou no Lincoln Theatre com um programa duplo temático. A diretora artística do Festival de Miami, Viviane Spinelli, acertou ao unir, no mesmo programa, o curta À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarze, e o longa Dois Perduidos numa Noite Suja, de José Joffily. Ambos tratam da exclusão social. O filme de Mocarzel, diversas vezes premiado no País e até no exterior, entrevista moradores de rua de São Paulo para discutir um tema importante - a imagem dos excluídos. O filme não poupa a apropriação dessa imagens por artistas como o fotógrafo Sebastião Salgado e o próprio Mocarzel. Ele é atacado por um dos personagens de seu filme, que diz que o interesse do cineasta por seu caso é circunstancial. "Amanhã, se eu bater na sua porta, você não vai me atender", diz o sujeito. É corajoso da parte de Mocarzel, mas há críticos, como Jean-Claude Bernardet, que vêem justamente no final de impacto um dos problemas do filme. Bernardet acha que Mocarzel não deveria ter simplesmente aceitado a crítica (ou provocação). Deveria ter dialogado com seu personagem, mas aí seria outro filme, não esse com o qual já ganhou tantos prêmios.À Margem da Imagem foi aplaudido, mas sem efusão. É um filme que incomoda e esse é o seu mérito. Dois Perdidos baseia-se na peça de Plínio Marcos, na qual o diretor Joffily e seu colaborador no roteiro, Paulo Halm, introduziram mudanças importantes. Paco, um dos personagens, virou uma garota andrógina que se faz passar por garoto para explorar velhos homossexuais. E a ação foi transposta de São Paulo para Nova York, onde os personagens são brasileiros que vivem à margem, como os moradores de rua de À Margem da Imagem. Joffily estava curioso para saber qual seria a reação do público brasileiro de Miami. "Acho que a temática do filme tem tudo a ver com eles, mesmo que a vida não seja igual; é uma oportunidade para discutirsmos, todos, a questão social do País." A se julgar pelos aplausos no fim da sessão, o público captou a mensagem.

Agencia Estado,

07 de junho de 2003 | 13h44

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