Marvel Studios/Divulgação
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'Viúva Negra' desvia-se de modo satisfatório da fórmula Marvel

Filme se passa entre 'Capitão América: Guerra Civil' e 'Vingadores: Guerra Infinita' e não tem nenhum propósito maior para o universo do que dar a Natasha Romanoff/Viúva Negra de Scarlett Johansson uma despedida à sua altura

Jake Coyle, Associated Press

04 de julho de 2021 | 14h00

Como pode ser efêmero o domínio do mundo. Ele pode desaparecer em um piscar de olhos. Dois anos se passaram desde o último filme da Marvel, um intervalo incomensurável para uma máquina imbatível de fazer filmes. Nesse meio tempo, a Marvel levou suas aventuras mais ambiciosas para a televisão e plataformas de streaming como aconteceu com as séries WandaVision, Falcão e o Soldado Invernal e Loki. A Marvel, é claro, não vai a lugar nenhum.

Mas também é possível que a pandemia não tenha sido o único motivo por trás dessa pausa no Universo Cinematográfico Marvel. Mesmo antes de a covid-19 adiar a estreia de Viúva Negra e dos demais lançamentos em um ano ou mais, Vingadores: Ultimato parecia a conclusão de algo. Será que a gigante mais poderosa da história do cinema conseguirá continuar de onde parou?

Felizmente, Viúva Negra não foi exatamente projetada para fazer isso. É a coisa mais próxima de algo único da Marvel. O filme se passa entre Capitão América: Guerra Civil de 2016 (quando os super-heróis brigam entre si) e Vingadores: Guerra Infinita de 2018 (quando eles se unem para lutar contra um inimigo comum) e não tem nenhum propósito universal mais nobre para a franquia do que dar a Natasha Romanoff / a Viúva Negra interpretada por Scarlett Johansson (que morre em Vingadores: Ultimato) uma despedida a sua altura após uma década de serviço que remonta a Homem de Ferro 2, de 2010. É o segundo filme da Marvel protagonizado por uma mulher, depois de Capitã Marvel, de 2019, com Brie Larson, e o primeiro dirigido exclusivamente por uma mulher, Cate Shortland. (Anna Boden e Ryan Fleck dividiram a direção de Capitã Marvel.)

E acho que funciona em parte porque Viúva Negra precisa simplesmente existir por conta própria. Interessante por si só, este filme quase independente mergulha em reinos mais profundos e sombrios do mundo geralmente brilhante e resplandecente da Marvel. Cate, uma diretora australiana de filmes independentes como Somersault e A Síndrome de Berlim, constrói Viúva Negra em uma realidade mais palpável e obscura.

Em sua essência um thriller de espionagem ambientado na Europa com todas as sombras do pós-guerra (refiro-me à Segunda Guerra Mundial, ou seja, não à Guerra Civil), Viúva Negra está mais próxima dos filmes de Bourne do que de Thor. E enquanto marca a despedida de Scarlett Johansson, ganha a participação de vários rostos novos - Florence Pugh, David Harbor, Rachel Weisz, Ray Winstone - todos os atores fabulosos que dão nova vida a um mundo que depende de muitas de suas estrelas mais antigas.

Viúva Negra não deixa completamente de lado a fórmula da Marvel.

Como de costume, há uma engenhoca gigante no céu, mensagens implícitas para os Vingadores e piadas leves misturadas com cenas de batalha. Mas, no geral, os diretores de filmes da Marvel têm a chance de desenvolver seus próprios músculos cinematográficos desde as primeiras cenas, antes que as peças da história a ser contada se encaixem. E Viúva Negra se destaca de cara nisso.

O filme, escrito por Eric Pearson, começa com cenas nos subúrbios de uma família com duas meninas e sua suposta mãe (Rachel Weisz) se preparando para o jantar.

Quando o pai (David Harbor) chega em casa, parece inquieto. Eles têm uma hora para escapar, sussurra para elas. Eles pegam algumas coisas antes de irem direto para o aeroporto. Pela janela, enquanto American Pie toca no rádio do carro, vê-se cenas de famílias brincando em seus jardins e uma partida de beisebol. É um indicativo, logo de cara, de que Viúva Negra será sobre o sonho americano negado, ou pelo menos adiado; uma espécie de anti Capitão América. Apenas quando o pai faz um carro capotar para abrir caminho na estrada é que percebemos que esses não são americanos comuns. E assim que chegam em Cuba, nos damos conta de que eles não são nem cidadãos americanos, nem mesmo uma família.

O personagem de David Harbor é na verdade Alexei Shostakov / Guardião Vermelho, um supersoldado de fabricação soviética feito para competir com o Capitão América.

Sua família é uma célula inativa de espiões em Ohio. Os quatro se separam rapidamente e com um cover melancólico da música Smells Like Teen Spirit de fundo, os créditos de abertura começam a aparecer com uma montagem das relações entre os Estados Unidos e a Rússia ao longo dos anos, misturadas com imagens da mente do líder soviético Dreykov (Ray Winstone) e seu programa Sala Vermelha de assassinas de elite - apelidadas de "viúvas" - todas tiradas das ruas quando eram pequenas.

Vinte anos depois, a livre e reformulada Natasha, agora uma Vingadora, está longe de suas dolorosas origens, mas não tanto quanto ela pensa. Sua certeza de que havia matado Dreykov desmorona quando ela se reencontra em Budapeste com sua falsa irmã de infância, Yelena (Florence Pugh), que a informa que não apenas a Sala Vermelha está funcionando plenamente, mas que Dreykov criou um novo método de controle para suas viúvas. De longe, ele consegue controlar os movimentos delas e pode acabar com suas vidas usando apenas alguns botões de computador. É uma forma descarada de controle masculino sobre os corpos femininos com um amplo significado metafórico que Viúva Negra transforma perfeitamente em uma alegoria de quadrinhos.

Natasha e Yelena decidem derrotar Dreykov e a Sala Vermelha, uma missão que as obriga a se reconectar com aqueles que outrora foram seus pais.

Uma vez libertado de uma prisão na Sibéria, David Harbor,  já como o Guardião Vermelho, dá ao filme um ar cômico, interpretando um ex-supersoldado com aparência caricata , que se aposentou até mesmo da falsa vida em família.

Como um todo, eles formam um grupo emocionalmente prejudicado, fazendo com que sua missão flerte não apenas com a vingança, mas, também, com sua própria cura psicológica. Florence Pugh, estrela de Lady Macbeth e Midsommar - O Mal Não Espera a Noite e uma atriz com força e graça ferozes, está especialmente bem no papel de Yelena, a mais jovem das duas irmãs. E a única do clã de Ohio que não sabia que tudo era mentira.

Eles também devem seus poderes ao sistema cruel e paralisante que os criou. Para Natasha, essa é uma verdade incômoda com a qual sempre se confronta.

Interpretada com excelência por Scarlett Johansson, cada ação de Natasha é marcada pela aceitação e repulsa por sua própria natureza. Viúva Negra se transforma de modo comovente em um filme que não se baseia na extensão da franquia, mas na irmandade, nas famílias improvisadas e nos passados traumáticos.

Os filmes da Marvel, como a lua, são classificados em fases. Viúva Negra está programada para dar início à "fase quatro", mas não está claro se o império está crescendo ou diminuindo. Diferente de qualquer filme anterior da Marvel, este pode ser visto em casa no Disney+, assim como nos cinemas - resultado da pandemia, sem dúvida, mas também um destino impensável para uma força de bilheteria imbatível. Mas se Viúva é um sinal do que está por vir — novas vozes na direção, tons mais ousados, pés (pelo menos às vezes) no chão — essa é uma nova direção promissora.

Viúva Negra, uma estreia da Walt Disney Co., foi classificada como talvez imprópria para crianças menores de 13 anos pela classificação indicativa dos Estados Unidos devido às cenas intensas de violência e ação, alguns diálogos e temas.

Duração: 134 minutos. Três estrelas de quatro.

* TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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