Vitória de Polanski causa surpresa e indignação

Quando esteve em São Paulo para participar do Festival da Cultura Polonesa, o produtor Lew Rywin anunciou em primeira mão, para o Estado, que o filme de Roman Polanski O Pianista havia sido selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cannes. Acrescentou que tinha grandes esperanças de premiação, uma porque o filme de Polanski era bom, mas também porque o presidente do júri, David Lynch, adora o diretor de O Bebê de Rosemary e Chinatown. Ontem, não deu outra coisa: sob vaias dos jornalistas que assistiam à transmissão da cerimônia de encerramento do 55.º Festival International du Film no telão instalado no palais, Polanski subiu ao palco do Grande Théâtre Lumière para receber a Palma de Ouro por sua recriação da experiência do pianista Wladislaw Szpilman no Gueto de Varsóvia.Espelho do caos - Logo na abertura da cerimônia, David Lynch fez um discurso dizendo que era um prazer comprovar que o cinema, que reflete, como um espelho, o caos do mundo, dá mostras de grande criatividade e diversidade. Muitos prêmios foram justos, mas a omissão de Ken Loach foi, mais uma vez, imperdoável, e a Palma para O Pianista excessiva, para dizer o mínimo.No ano em que a seleção privilegiava as novas tecnologias, o júri escolheu um filme de dramaturgia tradicional, mais acadêmico, talvez, do que verdadeiramente clássico. O prêmio para O Pianista é a confirmação de que o holocausto continua sendo um grande tema. Polanski usa a história de Szpilman para recuperar a sua experiência no gueto (a dele, no de Cracóvia). Mostra imagens impressionantes do cotidiano da Polônia sob o nazismo, aquilo que Hannah Arendt chamaria de banalização do mal.É um filme defensável, digno, mas não apaixonante. As escolhas do júri para o Grand Prix e para a melhor interpretação feminina foram mais apreciadas. Venceram Aki Kaurismaki, por O Homem sem Passado, e sua atriz, Kati Outinen. Também foi merecido o prêmio de interpretação para Olivier Gourmet, por Le Fils (O Filho), mas o filme dos irmãos Dardenne tinha condições de ambicionar mais, a própria Palma de Ouro, com certeza. Sweet Sixteen recebeu o prêmio de roteiro (para Paul Laverty), mas Loach era outro que poderia ambicionar a Palma. Os demais prêmios foram irretocáveis. O do júri foi para o palestino Elia Suleiman, diretor de Divina Intervenção, que também ganhou o prêmio da crítica. O coreano Im Kwon Taek e o norte-americano Paul Thomas Anderson dividiram o prêmio de direção por Chihwaseon (Bêbado de Mulheres e de Pintura) e Punch-Drunk Love, respectivamente.O filme norte-americano é bom, o coreano é deslumbrante. Kwon Taek confirma, após Amor Proibido, que possui um olho raro para a beleza e sua reflexão sobre a arte (e o papel do artista) é uma das mais interessantes do cinema atual. O júri saiu pela tangente só ao atribuir a Bowling for Columbine, de Michael Moore, um prêmio especial comemorativo dos 55 anos do festival. Ou seja, atribuiu grande distinção ao documentário de Moore, mas não teve coragem de quebrar a regra de só premiar ficção. O único documentário a vencer em Cannes foi O Mundo do Silêncio, de Jacques-Yves Cousteau e Louis Malle, há 46 anos. Moore, que fez o discurso mais longo da noite, atrapalhou-se ao tentar agradecer em francês. Foi mais incisivo ao mandar, em inglês, um recado para George W. Bush. O presidente norte-americano, que está em Paris, deveria ver esse filme que trata da cultura da violência e do medo, acirrada por Bush após o trágico 11 de setembro. Moore, que trata o presidente de "stupid white man", não se cansa de dizer que o compromisso de Bush com a direita não é nem ideológico, é econômico mesmo. O presidente dos EUA tem de retribuir aos grupos que o levaram ao poder. "Uma desgraça", ele diz.

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