'Violette' contribui para a discussão de ideias

Longa inspira-se na relação de Violette Leduc e Simone de Beauvoir

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 Setembro 2014 | 03h00

Há um momento de Violette, o longa de Martin Provost ainda em cartaz na cidade, em que Emmanuelle Devos, na pele da protagonista, a escritora Violette Leduc, confessa que se sente feia. A ausência de beleza, o fato de não ter um corpo desejado, é uma fonte de amargura que se soma ao desencanto geral de sua vida. Violette foi abandonada na infância, cresceu ignorada pela mãe. O que a salva é a amizade de Simone de Beauvoir e, claro, a própria inteligência. Violette escreve, Simone, a autora de O Segundo Sexo e outros livros que pavimentaram a via da libertação da mulher no século 20, a exorta a ousar.

Simone de Beauvoir é interpretada por Sandrine Kiberlain, atriz que integra o elenco de Amar, Beber, Cantar, último longa de Alain Resnais, também em cartaz nos cinemas. O Resnais, até por ser o canto do cisne de um grande realizador - o próprio Resnais não se considerava um autor, embora o fosse -, está tendo suas virtudes exageradas. Provost não é tão conhecido nem apreciado, mas é bom começar a prestar atenção nele. O cinema de ideias ganha uma contribuição importante em Violette.

Provost tem se interessado pelos destinos de mulheres libertárias. Depois de Séraphine, de 2008 - sobre a pintora Séraphine de Senlis, praticamente analfabeta, mas que foi reconhecida como grande artista, antes de cair na depressão -, a ligação de Simone de Beauvoir e Violette Leduc lhe permite revisitar a intelectualidade que mudou o pensamento literário francês. Com Simone e Violette, a cena se amplia para abarcar os existencialistas. Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Jean Genet. Se a anatomia delimita o destino de Violette - Sigmund Freud -, a palavra a resgata. A palavra escrita, falada. Violette nunca desfrutou, em vida, do prestígio dos escritores citados, mas, a partir de sua morte, em 1972, tem sido cada vez mais considerada. A autora maldita é hoje vista como pioneira. Protofeminista, bissexual. Ravages, de 1955, foi censurado pela sexualidade explícita na descrição de uma relação lésbica. A parte deletada ganhou versão publicada em 1966 - e Thérèse et Isabelle inclusive virou filme (de Radley Metzger).

É verdade que Gertrude Stein já afrontara alguns desses tabus - e na França, como devem se lembrar os cinéfilos que viram (e amaram) Meia-noite em Paris, de Woody Allen -, mas o foco de Violette é particular, nesse território ultimamente tão frequentado (e minado) das biografias filmadas. O filme não tenta explicar a baixa autoestima de Violette por seus traumas infantis e problemas familiares. A figura permanece intencionalmente difusa para que o público se sinta tentado a preencher os vazios do relato.

O ambíguo vínculo/romance de Violette e Simone traz para a tela um debate que abarca vida e arte. Simone difere de Violette, e esse é um elemento de atração, não de repulsa. A diferença não é só física, porque a Simone de Sandrine também não é exatamente sedutora nem erotizante. Parece até espectral. O que as liberta é a palavra - a literatura. E aqui a diferença talvez seja maior ainda. Simone, via existencialismo, questiona formas e comportamentos. Como autora, é planejadora e até calculista. Violette escreve à flor de sua pele sensível. A consciência da rejeição exala a dor de seu texto, mas também o júbilo (a catarse?) da escrita. Violette é muito interessante.

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