Vinterberg dá sua versão do apocalipse

Thomas Vinterberg foi um dos idealizadores do Dogma 95, o manifesto cinematográfico que propunha filmes livres dos artifícios mais convencionais. Sob essa égide, escreveu e dirigiu Festa em Família, trama familiar que pode ser considerada um dos melhores momentos do movimento. Apesar do título em português, Dogma do Amor não tem parentesco algum com essa fase de sua carreira. Trata-se apenas de um golpe de marketing do distribuidor brasileiro, movido talvez pela péssima recepção do filme no Festival de Berlim, no início do ano.Em uma declaração publicada em outubro de 2000, durante a elaboração do roteiro, Vinterberg escreveu que Dogma do Amor era sua "tentativa de evitar a repetição, de correr outro tipo de risco artístico, de explorar novos territórios". Pelo que se vê na tela, a aposta foi altíssima - e o prejuízo, também. A ação se passa em Nova York, em um futuro não muito distante. O sinal dos tempos se faz presente por meio da temperatura (neva em pleno verão), de uma estranha epidemia (as pessoas caem duras no meio da rua, vítimas de solidão) e de outras ocorrências inexplicáveis (numa enchente, os ugandenses desenvolveram capacidade de voar).Tendo esse estado de coisas como pano de fundo, John (Joaquin Phoenix) e Elena (Claire Danes) são lançados em um labirinto kafkiano, repleto de personagens misteriosos, aberrações improváveis e símbolos de um mundo à beira do colapso. Impedidos de manter uma relação estável, eles querem se separar, mas algo os impede. No mundo futurista de Vinterberg, idealizado com a ajuda do co-roteirista Mogens Rukov, responsável por muitas das excentricidades que desfilam pela tela, o amor baliza tudo - ou deveria balizar. Não por acaso, o planeta está doente. As estações estão trocadas, pessoas caem mortas na rua, o "terceiro mundo" desenvolve defesas próprias.Estranha visão de futuro essa, em que o amor, que tudo ordena, nada equilibra. Expulsos do paraíso como Adão e Eva, John e Elena são condenados a vagar no limbo. Enquanto isso, a possibilidade de salvação, o irmão de John, Marcello (Sean Penn, desperdiçado), se recusa a aterrissar o avião onde passa a maior parte do tempo. Neste caso, Vinterberg não poderia ser pior como arauto do apocalipse. Sua visão consegue ser mais conservadora e menos humana do que qualquer ideário religioso. Ao menos nos casos históricos, sempre há um espaço reservado para os condenados - um inferno que seja.Dogma do Amor - Dir. Thomas Vinterberg. Estados Unidos, Japão, Suécia, Inglaterra. Dur. 104 min. Falado em inglês. Legendas em português. Hoje (23), 19h30, Unibanco Arteplex 2.

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