REUTERS/DreamWorks Pictures
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Vinte anos de ‘Shrek’: como um projeto caótico virou um sucesso tão amado

As expectativas eram tão baixas e os obstáculos tão grandes que a equipe nem queria trabalhar no filme. A reformulação após a morte de Chris Farley trouxe novos desafios

Gina Cherelus, The New York Times

21 de maio de 2021 | 10h00


A ideia de que um ogro horroroso poderia ser um herói das telonas num misto de conto de fadas e comédia romântica não era uma coisa em que muitas pessoas tinham grandes esperanças. A falta de um príncipe tradicional não era o único obstáculo para Shrek, a próxima grande produção da então recém-formada DreamWorks. Produtores e diretores iam e vinham. Um protagonista teve de ser substituído. E a tecnologia estava se revelando espinhosa. Na verdade, o começo do projeto era bastante impopular entre os funcionários do estúdio.

“Ser designada para o Shrek era tipo ser mandada para a Sibéria”, lembrou a codiretora Vicky Jenson.

Mas quando foi lançado em 18 de maio de 2001, o filme imediatamente liderou as bilheterias, recebeu grande aclamação da crítica e ganhou o primeiro Oscar de melhor longa-metragem de animação. Vinte anos depois, Shrek ainda é um conto de fadas meio excêntrico e muito amado, cujos personagens e piadas continuam permeando a cultura pop, alcançando uma nova geração de fãs.

“Realmente não tínhamos noção de que seria tão grande”, disse Jenson. “A gente tinha uns estalos do tipo, uau, acho que ninguém nunca viu uma coisa dessas antes, isso é muito engraçado e até que é meio comovente”.



Dirigido por Jenson e Andrew Adamson, o filme se baseia num livro infantil de William Steig, e sua sinopse não diz quase nada sobre o que faz dele algo tão audacioso. Ogro bravo e auto isolado, Shrek parte numa jornada épica com Burro, seu ajudante, depois que seu pântano é invadido. Sua busca envolve um acordo com um soberano tirânico: resgatar uma princesa, Fiona, com quem o nobre quer se casar. Em troca, Shrek pode ter sua casa de volta.

A chave para o sucesso do filme foi o cômico e inesquecível trabalho de voz feito por um elenco que incluía Mike Myers como Shrek, Eddie Murphy como Burro e Cameron Diaz como a princesa.

O visual do filme também era surpreendente. Mesmo que a DreamWorks tivesse experiência com animação por computador, graças a FormiguinhaZ (1998), os personagens principais daquele filme não representaram o mesmo desafio em termos de alcance e escala que os de Shrek. O novo filme, com sua atmosfera mágica, exigia uma renderização complexa, especialmente se a Fiona humana quisesse se mover com elegância. Este e outros elementos, como os pelos do Burro, significavam avanços tecnológicos. Na época, o supervisor de efeitos visuais de Shrek se referiu a “um nível de complexidade que nunca tinha sido feito antes”.

 


Quanto à história em si, os parceiros de roteiro Terry Rossio e Ted Elliott - que haviam trabalhado em Aladdin e O Caminho para El Dorado com o executivo da DreamWorks Jeffrey Katzenberg - estiveram a bordo desde o início. (O roteiro é creditado a eles, além de Joe Stillman e Roger SH Schulman). Como Rossio relembrou, Elliot imediatamente viu uma oportunidade com Shrek, uma vez que o gênero de comédia de fantasia, satírico por definição, vinha produzindo vários livros populares na época.

Mas “esse gênero quase não tinha sido experimentado no cinema (A Princesa Prometida de William Goldman é o único filme que vem à mente) e nunca na animação”, disse Rossio por e-mail. “Na fantasia cômica, você lança todos os elementos da história corretamente, com uma diferença: os personagens da história estão bem cientes das convenções do gênero de sua própria história”.

Em seus primeiros anos, Shrek passara pelas mãos de alguns produtores e cineastas, entre eles Kelly Asbury, que saíra para codirigir outro projeto da DreamWorks. Jenson se juntou à equipe de Shrek em 1997, chegando a chefe e finalmente diretora, sua primeira vez nesse papel na animação.

O elenco ainda era um problema quando ela subiu a bordo. Diaz e Murphy estavam confirmados, mas quem faria o personagem-título? Ainda era em dúvida. No começo, Chris Farley, a ex-estrela do Saturday Night Live, chegou a ser escalado e tinha gravado muitas de suas falas quando morreu, aos 33 anos, em dezembro de 1997.

Jenson disse que ela e seus colegas eram grandes fãs do SNL e de Mike Myers. “Foi meio difícil vendê-lo para o estúdio, porque ele ainda estava aparecendo, não era o grande nome que é hoje”, disse ela. (Myers não respondeu aos pedidos de entrevista; Murphy e Diaz não quiseram fazer comentários para esta reportagem).



Enquanto isso, os diretores e a equipe de roteiro trabalhavam, inspirados em filmes tão variados como A Princesa Prometida e Antes Só do que Mal Acompanhado. Como Jenson lembrou, Adamson diria que se pudessem mostrar uma ideia para suas mães sem se meterem em problemas, então a ideia podia ficar no filme. A equipe de roteiro levou os créditos por muito do humor ousado pelo qual o filme é conhecido, mas os atores também tiveram espaço para improvisar e brincar.

Myers, que deu a Shrek um sotaque escocês que o lembrava de seu pai, veio com muitas das citações mais memoráveis do filme, entre elas “melhor para fora do que para dentro” após os arrotos de ogro.

No ano passado, Shrek foi adicionado ao Registro Nacional de Filmes. Parece que há um quinto filme em desenvolvimento e, para comemorar seu 20º aniversário, a Universal Pictures está lançando uma edição especial do filme em Blu-ray e outros formatos este mês.



O cineasta Grant Duffrin até começou a promover uma Shrekfest anual. Tudo começou como uma piada da internet em 2014, mas desde então Shrekheads de todo o mundo vêm se reunindo anualmente em Madison, Wisconsin, embora no ano passado tudo tenha sido virtual. Duffrin também produziu Shrek Retold, um remake do filme feito por mais de duzentos artistas trabalhando em diferentes formatos.

Uma das principais metáforas do filme, “ogros são que nem cebolas”, também pode refletir as camadas de significado que os fãs descobriram na narrativa. Ainda há discussões online sobre se o filme é um comentário sobre a gentrificação ou o racismo. Mas mesmo em sua superfície, Shrek captura a essência das amizades improváveis e dos romances não superficiais, fazendo com que seu final feliz para sempre pareça triunfante.  


Tradução de Renato Prelorentzou

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