Warner Bros. Pictures/Legendary Pictures
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Em 'Duna', diretor Denis Villeneuve traz seus sonhos com o livro para a tela grande

O diretor Denis Villeneuve assume o maior desafio de sua carreira com a adaptação do clássico de ficção científica de Frank Herbert; filme estreia nesta quinta-feira, 21

Lindsey Bahr, Associated Press

20 de outubro de 2021 | 15h03

Denis Villeneuve era apenas um adolescente, muito antes de decidir ser cineasta, quando viu a capa do romance Duna, de Frank Herbert, de 1965, numa livraria. Ele tinha 14 anos e, obcecado por biologia, já tinha aprendido que a ficção científica era uma forma de sonhar em grande escala.

Aí ele leu o livro e ficou hipnotizado pelo enredo poético e atmosférico sobre a jornada heroica de um jovem lidando com religião, política, destino, herança, meio ambiente, colonialismo e minhocas espaciais gigantes.

“Virou uma obsessão”, disse Villeneuve, 54 anos. E foi só o começo de um sonho de décadas que finalmente se tornou realidade com sua própria versão de Duna, que estreia nesta quinta-feira, 21, nos cinemas.

Villeneuve não é o primeiro cineasta a se atrever a fantasiar sobre como fazer Dune, mas é o primeiro a ver sua visão realizada de uma forma que poderia satisfazer tanto a fãs quanto a novatos.

Para um livro que inspirou tanta ficção científica nos últimos cinquenta anos, de Star Wars a Alien, as adaptações para o cinema têm se mostrado difíceis. Primeiro foi o quase mítico filme de Alejandro Jodorowsky, que seria estrelado por Mick Jagger, Orson Welles, Gloria Swanson e Salvador Dalí (descrito no documentário Jodorowsky's Dune, de 2013). Tempos depois, a versão de David Lynch foi um fracasso comercial e crítico quando apareceu em 1984.

Duna parecia amaldiçoado até que os produtores Mary Parent e Cale Boyter adquiriram os direitos por meio da Legendary e descobriram que Villeneuve, que se estabelecera como um cineasta com aquela rara habilidade de fazer filmes em grande escala comercial e intelectual, era um fã de longa data. Aí se fizeram planos para tentar fazer Duna mais uma vez, com um orçamento de US $ 165 milhões.

“Meu filme não é um ato de arrogância”, disse Villeneuve. “É um ato de humildade. Meu sonho era que um fã incondicional de Duna tivesse a sensação de que eu tinha colocado uma câmera na sua mente”.

O livro foi sua bíblia e bússola durante todo o processo. Ele o manteve no set para que o espírito estivesse sempre presente e encorajava sua equipe e elenco a estudá-lo também. E ele não se deixou intimidar pelas enormes expectativas. Afinal, foi ele quem fez a sequência de Blade Runner (embora esta seja outra história e ele ainda ache que foi uma má ideia, mesmo que a fizesse de novo, sem titubear).

“Não vou dizer que Duna é uma tarefa impossível. Acho que é difícil”, disse Villeneuve. “A criatividade está ligada ao risco. Adoro pular sem rede de segurança. Faz parte da minha natureza”.

Parte dessa dificuldade estava em entregar um filme que agradasse tanto aos fãs quanto aos novatos. O primeiro passo foi convencer o estúdio de que seriam necessários dois filmes para contar a história toda. Embora tenham concordado, o segundo ainda precisa receber uma “luz verde” oficial.

Ele e os roteiristas Jon Spaihts e Eric Roth simplificaram a estrutura para se concentrar em Paul Atreides, o jovem aristocrata cuja família assume o controle do perigoso planeta deserto Arrakis, lar do recurso mais valioso do universo, enquanto se agrava um conflito intergaláctico entre famílias governantes. Ele tinha apenas um nome em mente para o papel: Timothée Chalamet.

“Não existem muitos atores como Timothée”, disse o diretor. “Timothée tem uma alma antiga. Para um jovem da sua idade, tem uma maturidade realmente impressionante. Ao mesmo tempo, Timothée parece muito jovem diante das câmeras”. E ele tem aquele carisma de “rock star” que dá credibilidade à sua evolução como uma figura messiânica que “levará o mundo ao caos”.

O filme está repleto de atores elogiados, entre eles Rebecca Ferguson no papel da mãe de Paul, Lady Jessica, e Oscar Isaac como seu pai. Também traz Jason Momoa, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Javier Bardem, Charlotte Ramping, Stephen McKinley Henderson e Zendaya, com quem ele fez uma turnê global por Hungria, Jordânia, Abu Dhabi e Noruega.

“Estive em muitos filmes de aventura que realmente tentam gerar muita emoção. Mas tem algo muito poético na forma como Denis aborda esse grande filme e sua escala”, disse Isaac. “Mesmo que haja explosões, mesmo que haja minhocas gigantes, ele sempre olha para tudo através de suas lentes poéticas, que são uma coisa muito única para mim”.

Era especialmente importante estar no deserto para filmar as cenas de Arrakis, o que implicou condições difíceis e areia entrando... bom, por todos os lados.

“Teria sido impossível fazer tudo isso num set ou num estúdio”, disse Villeneuve. “Talvez eu seja muito antiquado, mas é assim que trabalho”.

Originalmente, Duna deveria chegar aos cinemas no ano passado, antes que a pandemia interrompesse a maioria dos lançamentos cinematográficos.

Villeneuve aproveitou esse tempo em benefício do filme. “Foi muito bom ter a oportunidade de deixar o filme dormir um pouco, depois voltar a ele e fazê-lo despertar”, disse ele. “Se as pessoas não gostarem do filme, não tenho desculpas porque tive tempo e recursos para fazê-lo”.

Por mais que o tempo adicional tenha sido bem-vindo, a pandemia também trouxe a decisão de lançar todos os filmes da Warner Bros. até 2021 simultaneamente nos cinemas e no serviço de streaming HBO Max. Na época, Villeneuve respondeu com uma forte carta aberta, publicada na Variety, na qual falava não apenas de seu filme, mas das implicações para o futuro do cinema.

Dez meses depois, a pandemia continua e a estratégia de lançamento segue seu curso, mesmo com o aumento da frequência das pessoas nas salas de cinema. “Estamos no meio de uma pandemia e essa realidade está distorcida agora, entendo perfeitamente que as pessoas não possam ir ao cinema ou tenham medo de ir. Respeito tudo isso e esta é a prioridade. A saúde é a prioridade”, disse Villeneuve. “Mas o filme foi feito, concebido, sonhado para ser visto na tela grande”.

"Espero que exista uma segunda parte", disse o diretor. "Eu conhecia as regras e concordei em jogar o jogo. É um bom desafio e estava disposto a encará-lo. Espero que aconteça. Dedos cruzados". Villeneuve está grato pela oportunidade de mostrar ao mundo pelo menos parte do que sonha há quase 40 anos. “Vivi os melhores momentos da minha vida fazendo Duna”, disse ele.

O 'Duna' de David Lynch e o fiasco do diretor

Apesar de ser aclamado por muitas de suas produções como Eraserhead (1977), O Homem Elefante (1980), a série Twin Peaks (1990-1991), Coração Selvagem (1990) e Mullholand Drive: Cidade dos Sonhos (2001), a versão de David Lynch para o cinema do livro de Hebert é um conhecido fiasco hollywoodiano. O filme tinha Kyle MacLachlan no papel de Paul Atreides, Francesca Annis como Lady Jessica, Sean Young interpretando Chani, Jürgen Prochnow como Duque Leto Atreides e Richard Jordan fazendo Duncan Idaho.

O próprio Lynch assume que o filme não teve o melhor dos resultados. Em 2020, em um vídeo em seu canal no YouTube, ele comentou que "praticamente tenho orgulho de tudo, exceto de Duna".

A bilheteria arrecadada com Duna foi inferior ao custo da produção. Houve também muitos relatos de interferência do estúdio durante o processo de produção. Críticos destacam a falta de cuidado na adaptação, além da sensação de que o filme corre para contar a história do livro e tenta explicar algumas coisas com narração.

 

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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