Emily Berl/The New York Times
Emily Berl/The New York Times

Viggo Mortensen fala de seu celular antiquado e de como é trabalhar em Hollywood

Ator mostra seu estilo pacato em entrevista

Entrevista com

Viggo Mortensen

Josh Rottenberg, LOS ANGELES TIMES

20 Julho 2016 | 04h00

Desde que conquistou o estrelato como Aragom na trilogia de O Senhor dos Anéis, Viggo Mortensen menosprezou em grande parte a estrada do sucesso, preferindo projetos que se coadunavam mais com suas preferências pessoais, como Marcas da Violência, de David Cronenberg. Portanto, em seu último filme, Captain Fantastic, ele interpreta um homem determinado a seguir um caminho inusitado, o de um pai solteiro que despreza o moderno mundo do consumismo e resolve criar seus seis filhos no meio da floresta, atendo-se aos valores, na sua opinião, mais puros e mais elevados.

Mortensen, 57, que vive a maior parte do tempo em Madri e é também poeta, fotógrafo, pintor, fundador de uma pequena editora e pai de um filho adulto, foi entrevistado em Los Angeles e falou sobre como que é ser pai no século 21, em Hollywood, e explicou por que motivo tem um celular do tipo flip.

O diretor de Captain Fantastic, Matt Ross, disse que o escolheu imediatamente para este papel. Quando você leu o roteiro, entrou de chofre em sintonia com o papel de pai?

Sim, percebi que poderia me basear em algumas coisas que já conhecia ou com as quais concordava. Embora às vezes ele optasse por soluções extremas e eu não usasse alguns dos seus métodos, descobri algo que realmente admiro nele.

Quando você está realmente envolvido e presente para seus filhos, pode cometer erros. Mas se não tentar – se disser: “Vou criar meus filhos com iPhones e eles irão gostar de mim porque eu sou permissivo” –, você não será lembrado quando eles crescerem. Eles não irão dizer: “Sim, papai estava sempre perto da gente e se preocupava de fato com o que estava acontecendo”. Eu gostei da relação de pai e filho, de fazer uma análise do que fiz ou experimentei de bom e de ruim.

Você transmite a sensação de alguém que poderia sobreviver na floresta e viver da terra, se necessário.

Ah, sim, poderia. Gosto de plantar e cultivo as minhas próprias hortaliças. Meu pai cresceu numa fazenda na Dinamarca e costumava nos levar, eu e meus irmãos, para pescar, caçar e acampar. Fico completamente à vontade no mato. Eu nunca vivi exatamente como estes personagens. Mas me senti bastante à vontade. Esta foi uma espécie de aprendizado acelerado. Imagine que cheguei a dizer a Matt: “Se fosse esta época mesmo do ano, as hortaliças deveriam estar deste tamanho. Estas plantas poderiam crescer num espaço bem pequeno”. Todas estas coisas você só vê de passagem, mas era importante para ele e para mim que a maneira de viver dessa família resultasse absolutamente real.

Assim como esse personagem, você não seguiu o caminho que seria de esperar na vida. Muitas pessoas teriam usado uma série de grande sucesso como O Senhor dos Anéis como trampolim para estrelar outras grandes produções, mas não foi o que você fez.

Na verdade, não é que eu dissesse conscientemente para mim mesmo: “Não quero entrar em outro filme de estúdio”. Fiz Hidalgo, que foi muito grande, e atuei em outros filmes americanos desde então. Pode parecer que eu tento evitar filmes de franquia, mas não é nada disso. Talvez fosse até importante, mas eu nunca avaliei os filmes em termos de orçamento, de nacionalidade ou de gênero. Só me interesso pelas histórias que me atraem e nas quais posso aprender alguma coisa – basicamente filmes que, se eu assistir daqui a 10 anos, mesmo que não sejam perfeitos, exprimem uma ideia boa, e não me causarão constrangimento. Fazer e promover um filme exige um grande trabalho, portanto, por que não fazer algo que seja bom?

A família deste filme rejeita a moderna tecnologia. Qual é sua atitude pessoal em relação a isto? Você ainda usa um celular do tipo flip.

Tenho um laptop que eu uso para editar livros e para me comunicar com as pessoas, o que é muito útil porque não vivo no mesmo fuso horário de um monte de pessoas da minha família. Ainda gosto de escrever cartões postais e cartas porque espero que os correios não desapareçam. Adoro receber uma carta escrita à mão.

Mas você não está na mídia social, pelo menos publicamente.

Não. A vida é curta demais. Não tenho tempo. Eu me dou conta de que preciso evitar emitir julgamentos quando ando pela rua de qualquer cidade do mundo onde somos obrigados a fazer concessões para pessoas que se comportam como zumbis, atravessando a rua enquanto escrevem mensagens de texto. E fico pensando: cara, você quer morrer? É problemático.

Falando nisso, você deu uma entrevista há uns dois anos em que sugeriu que Peter Jackson estava excessivamente enfeitiçado pela computação gráfica quando fez filmes a série O Senhor dos Anéis.

Em todas as entrevistas que eu dou, sempre digo que sem o sucesso desses filmes, eu não teria trabalhado com David Cronenberg – tantas coisas não teriam acontecido. Mas, infelizmente naquela entrevista, o sujeito não parava de perguntar: “Qual você prefere de todos eles?” E eu dizia: “Gosto de A Irmandade do Anel, porque tem menos efeitos especiais e é mais humano, em termos do ator – pessoalmente, acho mais interessante e mais fiel ao mundo de Tolkien. O que não significa que seja melhor”. O que ele enfatizou foi basicamente o aspecto negativo, sem acrescentar que eu disse que me sentia muito grato. Portanto, evidentemente, as pessoas pegam isto e a cada encarnação do que eu supostamente afirmei, saiu: “Viggo acaba com Peter Jackson... Viggo odeia O Senhor dos Anéis”. Fico muito mal com isto, Acho espantoso o que ele fez.

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