Vídeo brasileiro concorre a prêmio em Locarno

Rua de Mão Dupla, do mineiro Cao Guimarães, exibido ontem e hoje, no Festival de Locarno, concorre com 15 outros vídeos, de curta e longa-metragem, de seis nacionalidades diferentes. O prêmio Leopardo de Ouro - Vídeo é no valor de ? 20 mil. O júri é composto do ex-diretor da Bienal de Veneza, Francesco Bonami, dos cineastas Siddiq Barmak, afegão, e Chantal Akermann, belga, mais Hamid Dabashi, professor de Estudos Iranianos.Cao Guimarães, que apresentou seu filme e participou de um debate com o público, estudou filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais, de Belo Horizonte. Mas seu mestrado, em Londres, foi em fotografia e artes plásticas. Ainda em Londres, começou a fazer trabalhos utilizando filmes Super 8, para museus, exposições e galerias. Seu primeiro documentário, em 2001, O Fim do Sem Fim, sobre profissões em extinção, foi filmado em dez Estados brasileiros. A seguir, veio Rua de Mão Dupla, destinado inicialmente para a Bienal de São Paulo e, agora, transformado em filme. Sua última obra, A Alma do Osso, é sobre um personagem que vive numa caverna em Belo Horizonte, premiado recentemente no Festival É Tudo Verdade, como melhor filme nacional e internacional. ?Faço filmes e sobrevivo com trabalhos de artes plásticas?, diz Guimarães. ?Rua de Mão Dupla foi uma instalação de vídeo para a Bienal de São Paulo de 2002. Levei três meses para fazer e era destinado a seis monitores de televisão diferentes, com cada um dos personagens do filme em monitor próprio. Foi depois que decidi transformá-lo numa produção linear, com a tela dividida ao meio, mostrando os três pares de pessoas que trocaram de casa e ali viveram 24 horas, para depois darem suas impressões. Na Bienal, os visitantes que passavam pela instalação tinham uma visão fragmentaria e dispersa?.Locarno foi o primeiro Festival para o qual ele enviou Rua de Mão Dupla e sua aceitação foi surpresa para ele. ?Isso mostra que os festivais de cinema tem maior abertura para os trabalhos experimentais. Pois no caso deste vídeo, nem fui eu quem pegou na câmera, foram as pessoas que trocaram de casa. É um filme muito mais conceitual que um documentário tradicional?. Agora, ele quer completar sua trilogia da solidão, começada com A Alma do Osso, destinada a investigar formas de solidão na sociedade contemporânea. A seguir, quer fazer um filme sobre os andarilhos. A terceira parte dessa trilogia, misturando ficção e documentário, será baseada num conto de Edgar Alan Poe, chamado O Homem das Multidões, sobre um personagem que não consegue ficar sozinho, mas busca sempre aglomerados de pessoas nas cidades grandes.Na boca do lixo de Tel-Aviv - Nino, israelense, e Dudu, palestino, são garotos de programa que vivem ilegalmente em Tel-Aviv, numa espécie de boca-do-lixo conhecida como Garden. Os diretores Ruthie Shatz e Adi Barash, já premiados com o filme Diamonds and Rust, acompanharam a vida de Nino e Dudu, por um ano, produzindo o documentário Garden, que tem produtores israelenses, americanos, canadenses, finlandeses e dinamarqueses. O filme participa da mostra paralela Direitos Humanos do Festival de Locarno e foi exibido segunda-feira.Nino, abandonou a família de pai violento e, depois de problemas com os palestinos, entrou ilegalmente em Tel-Aviv, onde, para sobreviver, passou a se prostituir e a cometer pequenos roubos. Foi quando encontrou Dudu, que sobrevive da mesma maneira, mas com a agravante de ter começado a se drogar com heroína. Nino rejeitou a proposta para viver num apartamento, oferecido por um cliente israelense, para manter sua liberdade. Assim, se aproxima de Dudu e juntos podem melhor sobreviver. O filme mostra a fidelidade e a interdependência entre os dois delinqüentes primários, que a marginalidade e a precariedade da vida aproximou. Esse documentário, que poderia ter sido filmado no bas-fond de qualquer outro país, assume maior dramaticidade por ocorrer numa região marcada por problemas políticos.

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