Vida de Noel Rosa será retratada no cinema

Noel Rosa viveu 26 anos, quatro meses e 24 dias. Precisou mais do que o dobro de tempo para virar filme. Com a cara não deformada de Marcelo Serrado, Débora Duarte e Carlos Vereza como seus pais, apaixonado por Ceci (Malu Mader) e casando-se com Lindaura (Camila Pitanga), Noel enfim vai merecer as telas. Ele, certamente, faria um samba irônico sobre o fato de ter vivido tão pobremente e agora ter de penar oito anos nas mãos de um diretor para atrair patrocinadores - e ainda o orçamento de quase R$ 5 milhões não foi coberto. Mas faria mais troça pelo fato de, por enquanto, todos os interessados em financiar Poeta da Vila serem paulistas, como aliás são o roteirista Pedro Vicente e o diretor e publicitário Ricardo Van Steen. O filme começa no dia em que Noel conhece Ceci no cabaré e fecha quando ele entrega em suas mãos a jóia musical Último Desejo. A pré-produção terá início em janeiro e as filmagens estão previstas para abril e maio, para estar nos cinemas em outubro. Já sofreu vários cortes para se ajustar ao orçamento - por exemplo, sobrou muito pouco do carnaval de rua que recuperaria várias avenidas apinhadas de 7 mil figurantes fantasiados nos anos 30. Mas, quando o filme finalmente sair, vai ser um acerto de contas com um dos maiores e mais populares compositores brasileiros, parte da identidade nacional, nosso primeiro cronista musical e letrista moderno. Van Steen admite que sempre teve insegurança por não ser carioca, do samba, dos botequins do subúrbio do Rio ou com idade suficiente para ter conhecido o mundo de Noel Rosa. Mas ele esclarece: "Eu passei por quatro roteiristas e muitos tratamentos e nunca consegui me acertar com os cariocas, nem senti neles a paixão pelo filme." "Sou paulista, mas não sou suíço, e tenho verdadeira fascinação por samba, além de ser artista e compulsivo como Noel, que tinha a criatividade descontrolada e era multimídia, fazendo mil coisas ao mesmo tempo -- até jingles de publicidade para a Casa Dragão", comenta o cineasta. Diretor de arte e artista gráfico de revistas como Status, Senhor, Vogue e Moda Brasil, Ricardo Van Steen tem 42 anos. Pedro Vicente é formado em dramaturgia, já foi compositor de banda de rock, acumula prêmios Shell e Funarte e tem 33 anos. Nenhum dos dois era nascido quando Noel morreu em 1937. Eles estão recriando os últimos anos da vida de Noel num enorme casarão do Pacaembu e vão "transferir" a Vila Isabel para a cidadezinha de Conservatória, no Estado do Rio, onde Noel Rosa provavelmente nunca pisou. Os dois pretendem dar cortes não lineares e ritmo de ano 2001 à vida de um sujeito que nasceu no tempo do bonde e no boom do rádio, que jogava pião e soltava pipa com Nássara e Almirante. A vontade de transformar a vida de Noel em filme é tão genuína e obsessiva, o roteiro é tão elaborado, que vale a pena esperar. Afinal, Van Steen já ganhou prêmio de melhor fotografia no festival de Gramado de 97 com o curta Com Que Roupa, também sobre Noel. Noel vai ser seu primeiro filme de longa-metragem e já vem tarde. Ricardo Van Steen compara: "George Gershwin e Noel morreram no mesmo ano, com meses de diferença - sobre o americano já fizeram musical e muito mais, sobre Noel paira o vazio." Um morreu rico e o outro, paupérrimo. A vida de Noel merece aquela expressão clássica: "Daria um filme." Nascido em família modesta de Vila Isabel, pai pequeno comerciante e mãe professora da escolinha instalada em frente da casa, Noel sofreu a vida inteira o complexo do maxilar amassado por ter sido tirado a fórceps. A história familiar é assim: a avó enforcou-se numa goiabeira, no galinheiro da casa, o pai enforcou-se debaixo da cama do hospital onde estava internado e, mais tarde, corroído de sofrimento, Noel também tentou o suicídio. Amou mulheres que o desprezaram, gastou com os amigos o dinheiro que não tinha, bebeu, brigou e foi às últimas conseqüências na vida curta que viveu. Mas Noel Rosa sempre transformou desgraças em melodia. Em Três Apitos, cantou o ciúme pela moça da fábrica de tecidos (até hoje há dúvidas se era Fina ou Lindaura), paquerada pelo gerente, e a paixão pela dama do cabaré (Ceci). Casou-se com quem não pretendia, depois de preso e forçado a assumir Lindaura, ex-operária de 17 anos, com quem havia dormido uma noite. Noel Rosa era 12 anos mais velho do que a mulher. Não fez por menos: largou a moça na casa da mãe e voltou para a boêmia. Para sair de casa à noite, ele apelava para qualquer recurso: um dia, ofereceu um torrão de açúcar ao burrinho que ficava debaixo da janela da casa, pulou no dorso do bicho e ficou três dias sem aparecer. No gogó - Foi o primeiro compositor branco a subir o morro e a mesclar o mais erudito com a profunda raiz popular da MPB. Polemizou no gogó, compondo réplicas e tréplicas, por exemplo, com Wilson Batista. Peitava os abusados no bar, onde o garçom já sabia o que trazer quando ele pedia: "Desce a preta de boné, bem suada." Era a cerveja Black Prince. Mas também compôs Conversa de Botequim: Seu garçom faça o favor de me trazer depressa/ uma boa média que não seja requentada... Compunha nos bares: Café Nice, Belas Artes, Chave de Ouro, ao lado de sua melhor intérprete, Araci de Almeida, e de Orlando Silva, Sílvio Caldas, Custódio Mesquita. Mostrava correndo a canção para a mãe, d. Martha, e voltava para o bar. Quando aparecia em casa, era na manhã seguinte, bêbado, trazido por um desses companheiros. Deixou histórias impagáveis. Só engraxava um pé de sapato, o do pé que sustentava o violão no palco. Não emprestava -- dava dinheiro para todos os amigos. Gastava o que sobrava com roupa - era um dândi - e a mulherada. Para Lindaura, a mulher legítima, nada. Um dia, o alfaiate entregou um monte de ternos novos na casa da mãe, que teve um acesso de fúria, cobrando alguma coisa para Lindaura. E Noel respondeu: "Mas mãe, a Lindaura não usa terno." Comprou de Chico Alves um Chevrolet Chandler verde oliva, que preferiu aposentar: gostava mesmo era de pegar táxi - um táxi específico, o do Papagaio - que no filme será interpretado por Luís Melodia. Teve parceiros como ninguém e era o melhor deles. Generoso, de uma linha melódica ou de um la-ra-ri qualquer criava um sucesso e deixava o parceiro assinar. Eram Orestes Barbosa, Ismael Silva, Chico Alves, Mário Reis, Lamartine Babo, Ari Barroso, Vadico, João de Barro, Heitor dos Prazeres - a patota da época de ouro. Parceiros viravam amigos de fé, como Cartola, em cujo barraco na Mangueira ia curar a bebedeira, mas um dia apareceu tão mal que Deolinda, mulher de Cartola, até lhe deu um banho. Perdeu a última batalha quando a mulher Lindaura, grávida, caiu da goiabeira e perdeu o filho que esperava. Noel morreu tuberculoso, cuspindo sangue e batucando um samba que ouviu de longe. Deixou muitos epitáfios, entre eles, "é muito melhor viver intensa do que extensamente". Ou: "Talento é preciso até para dar nó em gravata". E outra: "Quando eu morrer/não quero choro nem vela/quero uma fita amarela/gravado com o nome dela." Ricardo Van Steen e Pedro Vicente escolheram para o filme não a fase de ascensão, mas já a glória e, depois, a decadência de Noel. "Um período muito curto, nove anos, entre a fama aos 17 e a morte aos 26", diz Van Steen. Durante os quatro últimos, ele sabia que estava tuberculoso e ia morrer. "Queremos mostrar esse gênio que, quando o rádio surgiu, tinha 50 músicas debaixo do travesseiro, e explodiu, o que equivaleria hoje a alguém que tivesse 500 idéias prontas no momento em que a Internet apareceu", compara o diretor. Noel tinha defeito no rosto, era baixinho, franzino e infeliz. "Quando o ator Marcelo Serrado apareceu na minha frente se oferecendo para viver Noel, eu vi uma galã saudável, bonito, carioca do Leblon, que não nasceu sambista - e recusei", diz Ricardo Van Steen. "Mas ele era tão devoto a Noel, me ajudou um ano inteiro de graça e torceu tanto pelo projeto que reconsiderei." Marcelo Serrado foi Noel no teatro durante anos. No final, Van Steen entendeu que ele estava era com Noel na veia. Tinha aprendido a sambar, cantar, tocar violão, até ficou meio corcunda, manco. Muita gente tentou escrever roteiros de cinema sobre a vida de Noel. Um deles foi Joaquim Assis, a pedido de Herbert Richers. Outro foi Plínio Marcos em 68. Segundo Van Steen, nenhum retratou Noel por inteiro. "O do Plínio, por exemplo, ficou baixo-astral e Noel era tudo menos isso; o sofrimento dele e a desgraça dos outros, ele transformava em samba; tirava poesia do lixo e flor do pântano", diz o roteirista Pedro Vicente. Complexos - Noel Rosa era um escracho total desde o tempo do colégio. Estudou cinco anos no São Bento, que exacerbou seus complexos até que ele faltou a um exame e largou a escola. Foi nesse período que tentou o suicídio. Mas, aos 13 anos, já tocava bandolim de ouvido, aos 15 conheceu Sinhô - o grande compositor da época - e, em 1929, no vestibular para Medicina, já era mestre em serenatas. Ele também fazia caricaturas - até mesmo acentuando o defeito no queixo. A primeira música de sucesso já foi uma gozação, Com Que Roupa: "Agora vou mudar minha conduta/ eu vou à luta/ pois eu quero me aprumar./ Vou tratar você com força bruta/ pra poder me reabilitar/ pois essa vida não está sopa/ e eu pergunto: com que roupa/ com que roupa eu vou/ ao samba que você me convidou?" Hoje, Noel Rosa teria 90 anos. Há 20 anos, o jornalista João Máximo resolveu escavar a papelada de viúvas de diversos compositores, espólios esquecidos em instituições públicas e a memória dos mais velhos, como Moreira da Silva, para recuperar vida e obra de Noel. Primeiro, Máximo resgatou uma opereta feita em parceria com o húngaro Arnold Gluckmann, A Noiva do Condutor. A letra foi arrancada dos rascunhos de Noel, achados pela viúva de Almirante. Foi gravada em 86 por Marília Pêra e Grande Otelo. Há 10 anos, para comemorar os 80 anos de Noel, surgiu pela UnB a biografia assinada por Máximo e pelo músico Caola (Carlos Didier). É a obra definitiva que serve de bíblia a Ricardo Van Steen na confecção do filme. O baú não tem fundo. Noel trabalhava em um programa humorístico da Rádio Club, fazia paródias a O Barbeiro de Sevilha, como O Barbeiro de Niterói, era ainda assíduo no famoso programa de rádio do Casé, avô de Regina. Compôs até música para filme, como Cidade Mulher, de Humberto Mauro - sem ganhar nada. E, claro, com vários parceiros, era rei do carnaval. Deixou 256 músicas, das quais o professor de biologia Omar Jubran localizou 228 primeiras gravações, que vai lançar pela Funarte e a gravadora Vela, em um pacote de 14 CDs.

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