Vida de Madame Satã vai ao cinema

Satã prepara sua volta. Negro, forte, brigão, presidiário temido, bom de copo e homossexual assumido, a mais intrigante lenda surgida na história da boemia carioca terá sua vida transformada em filme. Dirigido pelo cineasta cearense Karim Ainouz, o malandro Madame Satã, nome que o pernambucano João Francisco dos Santos recebeu no fim da década de 30, antes de passar 21 de seus 76 anos confinado no presídio de Ilha Grande (RJ), será vivido pelo músico e ator Seu Jorge, ex-integrante do grupo Farofa Carioca. As muitas histórias não comprovadas criadas em torno de Satã - como a do compositor Geraldo Pereira, que teria morrido depois de levar um soco do malandro - fizeram o diretor desistir de realizar uma produção biográfica definitiva. Muito do que se ouviu falar sobre Madame Satã, comprovado ou não, será usado em uma mescla de realidade e imaginação. Episódios que contaram com testemunhas oculares são inúmeros e não deixam dúvidas: Satã era mesmo o diabo. Certo dia em que tomava cerveja com o cartunista Jaguar em um boteco no Largo da Carioca, virou uma fera ao ver um homossexual ser humilhado por dois policiais militares. "Por que vocês não batem em mim em vez de bater nesta bicha?", lançou o desafio. Então, aproximou-se e desferiu um golpe certeiro no rosto de um deles, levando-o a nocaute. Jaguar lembra que os policiais saíram correndo enquanto o malandro gritava: "Eu sou o Madame Satã". "Foi incrível ver aquele homem com mais de 60 anos botando dois soldados para correr", conta o chargista. Quem matou foi Deus - A ironia corrosiva que usava para enraivecer policiais era outra marca de Satã. Certa vez, quando estava à porta do Bar Brasil, na Lapa, em companhia do amigo Elmar Machado, o Machadão, foi surpreendido com a chegada de soldados sedentos por revistá-lo. "Polícia!", gritaram os militares. "Quem mandou não estudar? Hoje poderia ser médico ou engenheiro", respondeu o malandro. "Eram tiradas que só ele tinha", conta Machadão. Satã chegou a enfrentar até seis policiais sozinho, brigava rodando uma navalha amarrada à ponta de um barbante com habilidade impressionante e afirmava ter se envolvido em cerca de 3 mil brigas. Contudo, e em pleno moralismo dos anos 30, dizia em alto e bom tom: "Fui, sou e sempre serei um homossexual". A escolha de Seu Jorge para o papel principal não foi ao acaso. Não é homossexual e nunca foi preso, mas visitou o mesmo inferno vivido por Satã em muitos momentos de sua vida. Jorge Mário Silva, nome de batismo, viveu como indigente durante três anos pelas ruas do Rio. Revirou latas de lixo, passou frio e conviveu com outros mendigos. Certa noite, dois jovens encapuzados tentaram atear fogo em seu corpo. Conseguiu sobreviver e, a partir daí, decidiu-se pela arte. Saiu das ruas pouco tempo depois de conhecer alguns músicos com os quais formaria o grupo de funk Farofa Carioca. O ingresso de Satã no universo dos criminosos lendários, dominado à época pelo Bandido da Luz Vermelha, Cara de Cavalo e Feliciano, com o qual conviveu em Ilha Grande, foi o assassinato de um policial. A forma como o caso entrou para a história, e que será retratado por Ainouz, só contribuiu para sua mitificação. "Deram um tiro em um guarda civil na esquina da Rua Lavradio com a Avenida Mem de Sá e mataram né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso", contou Satã numa entrevista publicada em 1971, no semanário O Pasquim. "Mas você não deu o tiro?", perguntou o jornalista Sérgio Cabral. "Não, o revólver é que disparou em minha mão", respondeu o malandro. "Foi a bala que matou?", insistiu Cabral. "Não, a bala fez o buraco. Quem matou foi Deus", concluiu o malandro.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.