"Vida Bandida" é uma agradável surpresa

- Na entrevista que deu sobre a nova versão de Dona Flor e Seus Dois Maridos, Bruno Barreto havia cantado a bola: interrogado pelo repórter sobre prováveis candidatos ao Oscar 2001, disse que nenhum filme norte-americano da safra recente era tão bom quanto Vida Bandida. O filme de Barry Levinson é uma agradável surpresa. Estréia nesta sexta-feira, nos cinemas brasileiros. Se vai mesmo ser indicado para o Oscar é outra história que nem vem ao caso agora.É um filme de estrada e sua história é calcada na de Jules e Jim - Uma Mulher para Dois, de François Truffaut. Toda história de triângulo na qual dois vértices são homens, apaixonados pela mesma mulher, bebe sempre na fonte daquela obra-prima da gentilesse francesa, um dos filmes de Truffaut - e eles não são muitos - que realmente resistiram ao tempo. O triângulo, aqui, é formado por Bruce Willis, Billy Bob Thornton e Cate Blanchet.Eles interpretam fugitivos da polícia. São assaltantes de bancos. Criam uma identidade aos olhos da mídia: são os hóspedes ladrões porque chegam na véspera à casa dos gerentes de bancos que querem assaltar na manhã seguinte. Bruce Willis é um astro, Billy Bob Thornton é um ator. Funcionam como dupla. E há Cate Blanchet. Bruno Barreto admitiu que, se há uma atriz com quem gostaria de trabalhar, é ela. Cate é maravilhosa. Faz uma dona de casa entediada. Sua primeira cena diz tudo sobre a personagem em dois ou três planos. Ela canta e dança na cozinha enquanto prepara um jantar suntuoso para o marido. O cara chega na porta e diz que não vai jantar em casa. Transtornada essa mulher sai de casa e atropela um dos assaltantes. Junta-se ao bando e forma o triângulo amoroso.Muitos filmes norte-americanos já foram influenciados por Jules e Jim e o que chegou mais perto do espírito de Truffaut foi Butch Cassidy, de George Roy Hill. Por quê? Porque o roteirista James Goldmann e o diretor Hill perceberam que não basta um triângulo para refazer Jules e Jim. Como Uma Mulher para Dois, Butch Cassidy também é um filme sobre cinzas, sobre as coisas mortas que permanecem na lembrança e as coisas vivas que vão se diluindo até o esquecimento. Há nisso uma melancolia que era própria da natureza de Truffaut, o romântico que afirmava desconfiar do romantismo.Cate embarca na dos homens de Vida Bandida e não quer escolher, quando eles a colocam na parede. Se são bandidos, por que querem uma existência burguesa, convencional? Numa cena divertida, ela diz por que não abre mão dos dois. Ambos se completam e formam, para ela, o homem ideal. É um filme sobre desejos, portanto. E é um filme sobre aparências. Os dois temas se conjugam no sobrinho de Bruce Willis, que se integra ao bando. É um dublê que sonha com o cinema e persegue uma mulher de botas cor-de-rosa que viu um dia na estrada. O filme que celebra o triângulo não diz que esse é o caminho. Na figura do sobrinho há também um delicado elogio ao casal monogâmico.Esperto, o roteiro cria a expectativa do desfecho - vão escapar ao cerco policial; como? - e mistura elementos de vários filmes, incluindo Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, outra influência um tanto óbvia. O encanto de Vida Bandida está na forma como Levinson subverte essa obviedade toda. É o diretor do deslumbrante O Enigma da Pirâmide. Ganhou o Oscar (por Rain Man) e depois desceu a ladeira com A Revolta dos Brinquedos e Assédio Sexual. O mérito de Vida Bandida é lembrar que Levinson pode ser um bom diretor como consegue desenvolver, aqui, seu tema preferido: a linguagem e como as pessoas a usam, ou deixam de usar, para comunicar-se (ou não).

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