Victoria Abril, uma estrela na favela Heliópolis

Em uma rua da Favela Heliópolis, uma aglomeração de moradores observa um corpo ensangüentado jogado na saída de um bar, assassinado por garotos armados, que fogem logo que ouvem a sirene da polícia. Mas, em vez de causar revolta e medo nos moradores, a cena os enche de orgulho. Todos já estão acostumados e passam tranqüilos pelo lugar. Todos menos uma visita que resolveu aparecer inesperadamente: a atriz espanhola Victoria Abril. Ela observa tudo atenta, dando pulos de empolgação. A cena, longe de ser mais uma das que vão ilustrar as páginas policiais, trata-se das filmagens do longa-metragem Excluídos da Sociedade, com produção da própria comunidade de Heliópolis e direção de Vladimir Modesto. Victoria Abril, musa de clássicos de Pedro Almodóvar, como Ata-me e De Salto Alto e uma das maiores estrelas do cinema espanhol, descobriu que a comunidade local estava trabalhando no filme e pediu para acompanhar a empreitada. Em sua agenda, constavam passeios pelo Parque do Ibirapuera e pelo Centro. Mas quando soube que um grupo de cineastas que, como ela estão em São Paulo para participar da 29.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ia conferir o set de filmagem, ela mudou de planos. E não se arrependeu. Victoria, que faz show nesta sexta-feira no Sesc Pinheiros para lançar seu CD Putcheros do Brasil, em que canta bossa nova, empolgou-se tanto que pediu para fazer uma ponta. ?É sempre bom ter uma cena de alguém dizendo ?Polícia!?. Me deixa fazer. Não vou atrapalhar?, pediu ela. O diretor não teve dúvidas. Antes que bateria da câmera H18 emprestada que usa para filmar acabasse (um dos problemas de orçamento que tem de driblar), Modesto filmou sua cena exclusiva. E ficou satisfeito. ?Ela ainda me ajudou a dirigir. Não é todo dia que temos uma estrela como ela trabalhando de graça?, brincou. Pipoca e refrigerante de graçaExcluídos da Sociedade, que retrata de forma realista os caminhos que conduzem um jovem à criminalidade, é fruto do projeto do Cine Favela, que integra a ACAHS - Associação Cultural e Artística de Heliópolis e Sacomã, e exibe todo mês um filme brasileiro para a comunidade local. ?Também tem pipoca e refrigerante de graça. Tudo doado pela comunidade. Nossos campeões de bilheteria são, não por acaso, Carandiru e Cidade de Deus?, contou Modesto que explicou como surgiu a idéia de fazer cinema na favela. ?Passar os filmes é bom, mas, em vez de ficar vendo só filmes dos outros, pensamos: Por que não fazemos um longa sobre a favela? Mostrando do jeito que ela realmente é?? Assim nasceu Uma Gota de Sangue, o primeiro filme produzido pelo Cine Favela, em 2004, que tratava do problema da falta de acesso à saúde. Distribuído gratuitamente nas locadoras da região, o filme não pára nas prateleiras. ?As pessoas ficam felizes de verem seu bairro na tela, mostrado por gente daqui, que entende o que se passa?, conta o vigia João Carlos Melo, o ?delegado Guerra?, que fez figuração em Carandiru.?Trabalho à noite e filmo de dia?, conta. Assim como ele, todos os outros 700 ?profissionais? cadastrados pelo Cine Favela trabalham gratuitamente. ?Sem fazer discurso, espero realmente que esta experiência contribua para a formação cultural da comunidade e para formar futuros profissionais?, comenta Modesto, nunca teve patrocínio. ?Tudo é fruto de vaquinha dos moradores e comerciantes. Há ONGs que interessadas, mas que querem correr atrás de dinheiro antes. Fazemos primeiro. E sempre conseguimos pagar os gastos.?Só aos domingosO método exige soluções criativas. A equipe de Modesto trabalha desde janeiro nas filmagens. Um longa-metragem leva em média dois meses para ser filmado. Mas a trupe do Cine Favela só filma aos domingos. ?Durante a semana temos que trabalhar. Apesar da maioria não ter emprego fixo, todos fazemos bicos. Eu, por exemplo, trabalho com doces caseiros?, conta a produtora, continuísta e atriz do filme, Cíntia Zampolo. ?Isso aqui é incrível. Kika (personagem dela no filme homônimo de Almodóvar, que noticiava com uma câmera na cabeça as notícias inusitadas) adoraria isso?, dizia uma maravilhada Victoria. ?Pode haver desertos no mundo, mas não culturais. Criatividade e vontade são o bastante para começar. Pedro (Almodóvar) começou assim, filmando com restos de película que ganhava durante os fins de semana.?Victoria Abril. Sesc Pinheiros/Teatro (400 lug.). Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, tel. 3095-9400. Nesta sexta, 21h. R$ 7,50 a R$ 15

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