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'Victor Frankenstein', de Paul McGuigan, ganha versão bizarra

Filme estreia nos cinemas nesta semana

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2015 | 19h41

Vamos logo dizer que o público está tendo a oportunidade de assistir, na mesma semana, a dois filmes escritos por Max Landis. Vai ser difícil definir qual é o menos ruim, American Ultra, de Nima Nourizadeh, ou Victor Frankenstein, de Paul McGuigan. O segundo não carece de ambição, mas talvez seja uma aberração tão grande quanto a criatura feita com restos de cadáveres do romance famoso de Mary Shelley. Frankenstein, todo mundo sabe, viveu várias vezes na tela, e pelo menos uma vez como comédia – O Jovem Frankenstein, de Mel Brooks, de 1974.

Vale reportar-se àquela versão – Victor Frankenstein é O Jovem Frankenstein a sério. Na fantasia de Mel Brooks, o próprio diretor, na pele de Victor Frankenstein, tinha Marty Feldman como ajudante. Seu nome era Igor e a característica mais marcante de Igor é que, sendo corcunda, sua corcova passava da esquerda para a direita das costas a cada cena (ou momento). Victor Frankenstein, a nova versão, é vista pelo ângulo de outro Igor. Ele também tem uma corcova e é um freak, uma aberração de circo, no qual se exibe como palhaço.

Logo de cara, Igor reflete – ‘A gente nem sabe que está sendo objeto de escárnio quando nunca conheceu a ternura.’ Poderia ser o resumo de sua vida, mas um incidente – seus conhecimentos de anatomia, quando ele salva a trapezista, seu objeto de desejo, que sofreu um acidente –, chama a atenção de Victor. Como típico cientista maluco, Dr. Victor de cara provoca uma mutação em Igor. Durante todo o tempo, Victor Frankenstein vai querer realizar o sonho profano de bancar Deus, criando um homem (com restos de mortos) à sua imagem e semelhança. No processo, ele fará de Igor seu mais valioso auxiliar. Ambos serão caçados por um policial (da Scotland Yard), que desconfia do tipo de experimento que fazem. E Victor vai encontrar um ‘capitalista’ para financiar sua pesquisa. O tal capitalista tem sua agenda, e é mais sinistro que o cientista megalomaníaco. Na sua busca insana, Victor não se dá conta de que já criou seu ‘homem’, e é Igor.

McGuigan já dirigiu filmes como Heróis, Xeque-Mate, Paixão à Flor da Pele e Um Crime de Paixão. É atraído por personagens obsessivos. E, sabe-se lá por que – não há de ser pelo grande talento que não possui –, tem conseguido trabalhar com atores talentosos e bem cotados na indústria. James McAvoy e Daniel Radcliffe, ex-Harry Potter, são os astros da vez. Radcliffe tem tentado fazer papéis diferentes, mas não acerta nas escolhas. Construindo-se em várias frentes – intriga policial, ganância capitalista, obsessão científica –, Victor Frankenstein consegue ser também uma história de amor (a de Igor e Lorelei, a trapezista) e o relato de um embate entre o sagrado e o profano na relação do policial, temente a Deus, com o cientista, que pensa ser Deus. Tudo isso deixa claro que McGuigan e o roteirista Max Landis não encararam seu filme como pouca coisa, mas como possibilidade de abordar temas dos mais transcendentes. O problema é que a soma das partes não chega a produzir uma grande unidade, e menos ainda perfeita. Victor Frankenstein parece uma colcha de retalhos e, como o próprio ‘homem’ do experimento, feito de retalhos, vira ‘monstro’.

 

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