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Viagem às trevas do personagem faz 'Órfãos do Eldorado' cansar pela sobrecarga simbólica

Longa é inspirado no livro de Milton Hatoum

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2015 | 04h30

Depois de anos ausente, Arminto Cordovil (Daniel de Oliveira) volta à casa paterna e reencontra-se com a “madrasta”, Florita (Dira Paes). A casa é cheia de mistérios, assim como a história pregressa do personagem, sobre a qual pouco saberemos. O diretor Guilherme Coelho, ao adaptar Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum, prefere deixar de lado as explicações muito óbvias e carregar nos subentendidos, nos silêncios e nas omissões.

Acompanhamos a trama, mas não entendemos direito quais são as motivações do personagem. A ideia é que as descubramos aos poucos – e, mesmo assim, não inteiramente. De início, não se pode deixar de aplaudir essa opção pelas sombras num ambiente cinematográfico como o nosso atual, pautado pelo explícito, pela facilitação didática e pela repetição para efeitos de mercado. Coelho prefere deixar o espectador entregue ao próprio comportamento errático e, às vezes, francamente incoerente de Arminto. Causa desconforto. Mas quem disse que o cinema tem obrigação de propiciar sensação de conforto em seu público? Talvez o contrário seja mais plausível. O bom cinema nos seduz e nos carrega, às vezes, contra a nossa vontade, a regiões externas à nossa zona de conforto. É o que traduzimos (mal) ao falar que “tal filme mexe com a gente”.

O próprio estilo de filmagem vai nessa direção. Filmado na Amazônia, Órfãos do Eldorado reforça o inóspito que pode ter o ambiente líquido, o excesso de água, o excesso de calor, o suor sobre os corpos, a temperatura e a umidade que entorpecem as mentes. A Amazônia grandiosa e opressiva ao mesmo tempo.

Desse modo, talvez, fosse mais fácil entender, ou pelo menos acompanhar, os volteios de conduta e os desvãos mentais de Arminto em sua busca. Ele é músico de origem, não tem vocação para tocar os negócios do pai, um rico empreendedor do ramo náutico. Toca, às vezes, um piano desafinado que existe numa das salas da mansão. Um certo mal-estar se desprende dessas notas.

Assim como há mal-estar – profundo – na maneira como Arminto se interna e se perde nos rios amazônicos em busca da mulher que ele conheceu numa boate e se transformou em sua obsessão. Essa viagem pelo labirinto de rios, em companhia de um barqueiro (Adriano Barroso), tem algo que lembra O Coração das Trevas, de Joseph Conrad. O homem, perdendo-se nas matas e perdendo-se em si próprio, até encontrar o limite do seu inferno pessoal.

Enfim, a versão cinematográfica opta por adensar de mistérios o texto de Hatoum. Em filmagem de boa fatura, opta, porém, por uma ênfase simbólica que não deixa de sobrecarregar a narrativa. As imagens das duas mulheres que se superpõem no imaginário do protagonista, a índia que se afoga no rio, a ilha onde todos são cegos, o barqueiro da morte (uma ponta do próprio Hatoum), o deambular sem fim pelo labirinto amazônico – tudo isso, somado, redunda num conjunto excessivo e um tanto balofo.

Não se trata do “enredo”, mas da maneira como é filmado. De forma competente, sem dúvida. É filme profissional. No entanto, com uma preocupação explícita pelo toque “artístico”, pelos cacoetes de filme de autor que, somados, evitam a clareza a cada passo. Ora, se a ideia era se afastar do “fácil”, como da tendência à simplificação e à uniformidade da produção comercial, nem por isso precisava evitar o límpido. Diante de Órfãos do Eldorado, nos detemos como na porta de um universo denso e tão saturado de símbolos que nos desanima de entrar. Ele não nos toma pela mão e nos convida a passear por seus mistérios, mas apenas nos nega a entrada. Não por cansaço, mas por desânimo.

 

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