Veterano do Oscar joga suas fichas em Walter Salles

No cinema americano, filme com selo "uma produção de Arthur Cohn" é sinônimo de Oscar, prêmios e prestígio. "Suas produções mexem com todas as palhetas do sentimento e sempre há algo de novo e maravilhoso nelas", disse a atriz Faye Dunaway na pré-estréia mundial de Abril Despedaçado, o segundo filme que esse produtor suíço roda com o cineasta Walter Salles, em Los Angeles. Faye saudou Abril como um filme de "imagens de extrema beleza". O diretor e produtor Sidney Pollack disse que "não existe romance no cinema atual mostrado de forma mais sutil e com belas imagens do que em Abril Despedaçado". Após uma trepidante estréia no Festival de Veneza, em setembro, ocasião em que a crítica italiana atacou Abril, chamando-o de "sentimental e comercial demais", Arthur Cohn prepara-se para se sentir vingado de seus detratores. Ontem, ele recebeu um prêmio humanitário da National Board of Review, a mais antiga associação de críticos dos EUA, pela "promoção de reformas sociais e do humanismo de filmes como Abril Despedaçado, O Jardim dos Finzi-Continis, Preto e Branco a Cores e Um Dia em Setembro". A mesma organização ainda elegeu o novo filme de Salles como uma das cinco melhores produções estrangeiras do ano. No dia 20, será a vez de Abril Despedaçado concorrer ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, categoria vencida por Central do Brasil três anos atrás.Em passagem por Nova York, Cohn recebeu a reportagem do Estado. O produtor acredita que seu novo filme é o "melhor cartão de visitas" que o cinema brasileiro oferece a Hollywood nos últimos anos. Ele também elogia a equipe de 65 técnicos que ajudaram a rodar o filme em condições adversas no interior da Bahia. E acredita que o filme estrangeiro tido como favorito do ano, o francês O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, não é tão favorito assim para os votantes da Academia de Hollywood, que anunciam o nome de todos os indicados para o Oscar no mês que vem. Como tem sido a reação a Abril Despedaçado nos EUA? O sr. acredita que a comparação com Central do Brasil será inevitável? Arthur Cohn - A maioria das pessoas que viu Abril gostou mais do que de Central, que é um filme mais emocional. Sua história é mais simples, fácil. Abril tem muito mais camadas: a lealdade entre dois irmãos e a prontidão de um deles em abrir mão de qualquer coisa da vida pelo amor do outro; a intenção de uma garota de circo de escapar do seu mundo para encontrar a liberdade num novo lugar; o estigma da vendeta que mancha o relacionamento de duas famílias por centenas de anos. De repente, uma nova geração quer mudar todo esse código. Por conta dessa última discussão, Abril se tornou um filme muito significativo, pois há um grande paralelo dessa história com os conflitos recentes de Kosovo, Bósnia e Croácia e também o sentimento na Irlanda. Depois de 11 de setembro, muita gente me aconselhou a não lançar Abril, pois o clima nos EUA agora pede mais por O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, filmes charmosos. Preferi ignorar esses pedidos. Acredito que o período é correto, pois se trata de um filme sério, incomum e significativo. Sinto um orgulho muito grande por ele.Por quê? Vi quanto foi difícil fazer um filme no meio do nada no Brasil, onde o próximo lugar habitável ficava a 200 quilômetros de distância. Já fiz filmes em Papua-Nova Guiné, África, Itália e França e posso assegurar que nunca trabalhei com uma equipe tão entusiasmada, talentosa e modesta em reivindicações. A acomodação e o transporte foram penosos para eles. Mas não houve reclamação. Na estréia do filme em Los Angeles, além de grandes artistas do porte de Gregory Peck, Jon Voight, Goldie Hawn e James Woods, estiveram presentes executivos de estúdios, diretores de agências de talentos, o verdadeiro povo que move Hollywood. Essas pessoas passaram 93 minutos em contato não só com um filme sério, mas também com uma obra que mostra a qualidade dos profissionais brasileiros e a imensa geografia do País. Espero que Abril mostre para o estúdio Universal, por exemplo, que, em vez de se fazer um filme no Marrocos, Egito ou em Cingapura, o Brasil seja a próxima parada. Estou convicto de que Walter Carvalho é um dos mais importantes fotógrafos de cinema do mundo na atualidade. Não ficarei surpreso, por um segundo, se ele for indicado para o Oscar de melhor fotografia. Antonio Pinto escreveu uma belíssima trilha e sua música vai colocá-lo no mapa dos bons compositores internacionais.E sobre o elenco? Rodrigo Santoro tem chances de uma carreira internacional? As chances de Rodrigo tornar-se um ator internacional não são boas, mas brilhantes. Na estréia em Los Angeles, as pessoas o estavam comparando a um jovem Richard Gere. Em todas as entrevistas, ele foi tão charmoso e cativante, que alguns jornalistas me disseram que nem estavam prestando muita atenção no que ele falava (risos). Mas acho injusto só pensar que ele é um ator bonito, pois isso diminui o fato do ótimo ator que é. Ficarei muito surpreso se, em dois anos, Rodrigo não estiver na lista dos 20 atores internacionais mais requisitados. E não existem bons intérpretes emergentes na América Latina. Talvez um ou dois. Veja quanto tempo demorou para Salma Hayek se tornar uma atriz conhecida.O sr. acredita que, assim como "Central do Brasil", "Abril Despedaçado" será indicado para o Oscar? São 51 produções internacionais disputando cinco vagas para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Importantes membros da Academia já me confidenciaram que a qualidade desse lote internacional é muito melhor que a produção americana em 2001. Isso torna a corrida do Oscar deste ano ainda mais difícil. Mas eu não posso ligar para o que me falam. Em 2000, produzi >Um Dia em Setembro (documentário sobre o atentado a equipe de Israel nas Olimpíadas de Munique), indicado para o Oscar de melhor documentário. Meus colegas em Los Angeles disseram para eu esquecer, para nem ir à cerimônia do Oscar, se tivesse coisa mais importante para fazer na Suíça, porque o Buena Vista Social Club (de Wim Wenders, sobre músicos cubanos), que tinha arrecadado US$ 20 milhões na bilheteria, era o favorito. Nunca deixei de acreditar em meu filme e o resultado foi que ganhamos o Oscar. Abril é brilhantemente dirigido, com ótima fotografia e música, excelentes atores. Mostra mais uma vez que Walter Salles tem habilidade em misturar atores renomados com amadores e tirar deles a performance uniforme.Como avalia o fenômeno do representante francês, "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain"? Todo mundo me diz que o principal competidor de Abril é Amélie. Discordo. Temos grandes chances contra Amélie, que, a propósito, é um filme bastante charmoso e fez muitos milhões na França. Mas as chances de o público ficar emocionalmente envolvido é maior com Abril Despedaçado. O sr. já teve problemas no passado com a Miramax, empresa que distribui "Abril Despedaçado" agora no mercado americano. O que mudou nesse relacionamento? Tive um único filme distribuído pela Miramax que foi Um Dia para Relembrar (Two Bits, de James Foley, 94), com Al Pacino. Não estava contente com o atraso do lançamento do filme. Terminamos a montagem logo depois de Perfume de Mulher (pelo qual Pacino ganhou seu primeiro Oscar). A Miramax detectou as possibilidades de Perfume de Mulher e, para maximizar a potencialidade econômica de Um Dia..., decidiu atrasar seu lançamento. E mais atrasos se seguiram. Um Dia... foi um filme caro, custou US$ 23 milhões e, por causa do valor desse orçamento, menos direito tive a palavra final. Já Abril Despedaçado é um filme inteiramente financiado privadamente por mim. Peguei-o em minhas mãos e só estou negociando-o com distribuidores que conheço e confio. Escolhi a Miramax pois acredito que eles são bem equipados na criação de uma conscientização para o filme. Ninguém ouviu falar de Abril ainda e, para conscientizar o público, é necessário muita paixão. E Harvey Weinstein (co-presidente da Miramax) tem essa paixão. Apesar de tudo o que escrevem sobre ele, é um dos poucos que têm apreço pelo cinema internacional. Se gosta de um filme, vai apoiá-lo até o fim, mesmo que gastos com a promoção não signifiquem retorno garantido para a receita da empresa. Abril Despedaçado esteve na competição oficial do Festival de Veneza, quando foi massacrado pela crítica italiana. Como avalia isso? O filme teve quatro minutos de aplausos de pé. Alberto Barbera (diretor do Festival) me escreveu depois dizendo que esse tipo de resposta é incomum em Veneza. A crítica no jornal Variety foi ótima e a do Herald Tribune incrível. Os alemães gostaram e o Le Figaro, de Paris, fez uma excelente resenha. Sem dúvida nenhuma, a imprensa italiana não gostou do filme. Eles acharam Abril muito sentimental e comercial. Ficamos com um prêmio do público. A meu ver, essa reação popular foi ótima, conseguimos criar uma conscientização. Cinco semanas depois de Veneza, fechamos contrato com a Miramax. Harvey leu todas as críticas italianas e disse que não ligava a mínima, pois o filme, para ele, era uma obra-prima. Da Itália mesmo, recebi propostas de 14 distribuidores. Nem sabia que eles tinham tantas assim. Foram de grandes distribuidores a empresas especializadas em filmes de arte. Acredito que o fato de Central do Brasil ter sido um filme bem-sucedido em todo o mundo pesou na hora de os jornalistas italianos escreverem suas críticas. Quando você faz um filme bom, o próximo sempre está à mercê do punhal. Não perdi meu sono por isso.O sr. tem novos projetos com Walter Salles? Walter vai fazer Os Diários de Motocicleta (sobre a juventude de Che Guevara). Nossa colaboração futura será uma decisão dele, baseada na disponibilidade de tempo que terá depois de terminado seu próximo filme. Nossa colaboração em filmes sempre foi muito cordial e fácil. Walter é bastante perfeccionista. Ele gastou muito tempo para fazer Abril e eu apoiei, pois sempre foi o melhor para o filme. Hoje não ficamos achando que poderíamos ter feito melhor.E quais são seus próximos projetos? Comprei os direitos de dois livros. O primeiro é The Ruined Map, do japonês Kobo Abe, ganhador do Prêmio Nobel. Esse filme vai ser feito em Xangai. David Williamson, que adaptou O Ano em Que Vivemos em Perigo para Peter Weir, está escrevendo o roteiro. O outro, a ser filmado na França, é o romance La Folle Allure, de Christian Bobin. Quando esses roteiros estiverem no ponto, começo a pensar em diretores e atores.

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