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Veterano da Disney, Eric Goldberg dá aulas no Brasil e é destaque do Anima Mundi

Depois do Rio, festival traz atrações a São Paulo; Bob Balser, de 'Yellow Submarine' e o brasileiro Céu D’Ellia conversam com o público na cidade

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

04 de agosto de 2014 | 02h00

RIO - “Quer trabalhar na Disney? Pergunte-me como.” Assim poderia ser resumida uma das apresentações que o diretor, designer e animador Eric Goldberg fez durante a edição carioca do festival Anima Mundi 2014, encerrado neste domingo, 3. Em sua primeira passagem pelo Brasil, o diretor, que é especialista na criação de personagens, revelou para uma plateia atenta como funciona um dos maiores centros de produção de animação do mundo: os estúdios Disney. 

Diante de dezenas de jovens dispostos a entrar para a indústria que gera milhões e milhões todo ano, Goldberg deu dicas preciosas e um conselho que vale também para quem quer produzir sua própria animação: “Não apareça dizendo que faz qualquer coisa. Não queremos saber que você é capaz de copiar perfeitamente o estilo Disney. A gente quer saber o que só você é capaz de fazer.”

Mais do que apresentar o programa de Trainees da Disney em um dos maiores festivais de animação do mundo, Goldberg também ministrou uma master class sobre como criar personagens memoráveis e participou de uma conversa sobre sua carreira – o que fará também na edição paulista do Anima Mundi, que começa na quarta e segue até domingo. 

“Vou falar e mostrar trechos dos meus primeiros trabalhos e dos mais importantes”, contou ao Estado o animador, um dos responsáveis pela criação de personagens como o Gênio, de Aladdin (1992), o sátiro Phil, de Hércules (1997), e o jacaré Louis, de A Princesa e o Sapo (2009). 

Versátil, Goldberg destaca a o traço artesanal e a herança de valorização dos personagens, crucial para o pioneiro Walt Disney, mas não perde de vista os avanços tecnológicos e sociais. “O ideal é um mix de tradição e modernidade. É preciso ter sensibilidade para entender que, apesar de desenho, nossos personagens têm alma e são criados tanto pelo animador quanto pelo ator que os dubla”, analisa ele, que também tem no currículo a codireção de Pocahontas (1995) e Fantasia (2000).

Em tempos em que as novas tecnologias invadem até mesmo os estúdios da Disney, ouvir um especialista da velha guarda como Goldberg falar de animação é uma lição não só de mercado mas também de cinema. “Como se manter atual? E criar personagens que têm personalidade, que continuam com você mesmo depois do filme?”, indaga. “É preciso estar atento ao que move as pessoas, às emoções. Há muitos talentos em todo o mundo. Quero muito ver O Menino e o Mundo (longa brasileiro que venceu o último Festival de Annecy). É grande conquista ver que o Brasil está propondo novas linguagens e temáticas.” 

Mesmo que, como mostra a seleção do Anima Mundi, o mundo tenha ganhado diversos novos centros produtores de animação, o padrão Disney ainda tem influência forte sobre os jovens. Para continuar relevante, o estúdio não quer parar no tempo. “Estamos de olho nos novos talentos e em tecnologias que tragam novas possibilidades. Mas são os criadores que guiam sempre o visual e as emoções dos filmes”, diz. “Hoje somos 930 animadores de todo o mundo. Cada um traz algo particular. Investimos muito nos curtas, como Paperman, que levou o Oscar este ano. Nosso novo longa, por exemplo, Big Hero 6, é a primeira animação da Marvel que a Disney vai lançar.”

E como encantar as novas gerações, cujos sonhos de menina não se limitam mais a encontrar o príncipe encantado? “O público quer heróis que representem as mudanças da sociedade”, declara. “É como fazer sorvete de chocolate. A cada filme reinventamos algo que todos amam. E continuamos sendo atuais. A Tiana, de A Princesa e o Sapo, é cheia de atitude, quer ter seu negócio. Pocahontas é atlética, caçadora. Mas, a bem da verdade, mais que realista, uma boa história tem de ser verossímil. Se conseguirmos fazer com que o público acredite nela, teremos vencido a batalha.”

Eric Goldberg diz que uma das principais funções de um festival de cinema de animação é apontar talentos, revelar e oferecer ao público produções que estão longe do circuito comercial de filmes da Disney – e o Anima Mundi 2014 busca cumprir esta tarefa.

Dos consagrados Goldberg e Bob Balser ao talento único do animador brasileiro Céu D’Ellia, a lista de convidados desta edição abre janelas e cabeças sobre a tradição e as novas tendências do formato. No Papo Animado, Balser, um dos diretores do clássico Yellow Submarine, conversa com o público na quarta, às 20 horas, no Espaço Itaú de Cinema Augusta. 

Além de contar sobre sua experiência no mercado de animação europeu, o americano revela curiosidades dos bastidores de uma das mais bem sucedidas animações para adultos da história. “Tenha sempre um roteiro. Não faça como nós, que começamos um longa sem ter antes uma história definida. Isso porque, como era um filme dos Beatles, sabíamos que ia ser um sucesso. Mas se tivéssemos trabalhado melhor a história antes de começar a animar as canções, o trabalho teria sido muito mais simples”, aconselhou ele ao público que lotou a Fundição Progresso, no Rio, na última quinta. Em São Paulo, antes do papo com Balser, Yellow Submarine tem sessão no Espaço Itaú, às 18 horas. 

Já para quem quer conhecer mais do trabalho de Céu D’Ellia, o Papo Animado de sexta, também às 20 horas no Espaço Itaú, é a pedida certa. Além de falar de seu traço nada convencional, que lhe garantiu prêmios pelo mundo, o diretor vai comentar projetos como Um Conto Americano – Fievel Vai para o Oeste. Produção dirigida por Steven Spielberg em 1989, o longa marcou o início da carreira internacional de D’Ellia. Durante o papo, ele vai falar de como trabalhou na animação da ratinha Tanya, a irmã de Fievel. Mas é a profunda interação do animador com o meio ambiente um dos grandes destaques de sua obra.

D’Ellia desenvolveu projetos e pesquisas sobre o meio ambiente e foi um dos criadores, em 2009, do NUPA (Núcleo Paulistano de Animação). Para quem quer conhecê-lo melhor, uma seleção de seus trabalhos será exibida na sexta, às 20 horas, no Espaço Itaú de Cinema.

Suíça. Outro destaque é a homenagem ao novo cinema suíço. Além de uma seleção de dezenas de curtas de diversos diretores do país, o Anima Mundi levou ao Rio o diretor Fred Guillaume, que ao lado do irmão gêmeo Sam Guillaume, ganhou fama mundial ao fazer filmes experimentais e ao mesmo tempo populares. É o caso de Max & Co, único longa em stop motion produzido na Suíça, que levou o prêmio do público no Festival de Annecy , na França, em 2007. A dupla também assina A Noite do Urso, um curta documental que utiliza a animação para contar o drama de excluídos que vivem em um abrigo para sem tetos. “Os depoimentos são reais, mas em vez de mostrar seus rostos, queríamos mostrar os sentimentos”, comentou Fred durante o Papo Animado do Rio.

Uma sessão especial dedicada à dupla ocorre no domingo, às 15 horas, na sala 2 do Espaço Itaú Augusta, com a exibição de Max&Co. Ainda no domingo, na mesma sala, às 19 horas, será realizada a sessão Suíça Animada - Jovens Talentos. “Não há ainda uma indústria de animação suíça. Tudo ocorre por esforço e talento dos realizadores. É muito bom poder trazer nossa produção ao Brasil”, disse Fred.

ANIMA MUNDI

Espaço Itaú de Cinema. Rua Augusta, 1.475; de quarta a domingo

Papo Animado Bob Balser

Quarta, 6, 20 horas

Papo Animado Eric Goldberg

Quinta, 7, 20 horas

Papo Animado Céu D’Ellia

Sexta, 8, 20 horas

Sessão especial Fred e Sam Guillaume

Domingo, 10, 15 horas

Trailer de A Roza (Juliano Cazarré e Marieta Cazarré):

Trailer de Fievel Para o Oeste (Céu D'Ellia):

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