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Versão restaurada de 'Mamma Roma' reabre debate sobre Pasolini

Cineasta italiano foi assassinado há 40 anos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2015 | 04h00

No final de Mamma Roma, depois de tudo que lhe aconteceu e ao filho, Anna Magnani encara a câmera. Não olha com resignação, mas com uma espécie de fúria contida – ódio? Mamma Roma, de 1962, foi o segundo filme dirigido por Pier Paolo Pasolini. Dez anos mais tarde, em Roma de Fellini, o grande diretor simulou um documentário, ‘surpreendendo’ Magnani de volta para casa, na madrugada. O próprio Fellini a chama de loba romana. Anna o manda andar. “Vai dormir, Federico.”

Ícone do neorrealismo – sua morte em Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini, de 1945, considerado o filme-manifesto do movimento, é indelével no imaginário do cinéfilo –, Magnani estava numa fase em que parecia perdida. Foi para Hollywood, ganhou o Oscar – de 1956, por Rosa Tatuada, vivendo umas daquelas mulheres neuróticas de Tennessee Williams – e emendou outros filmes em língua inglesa que pareciam estereotipar seu vulcânico temperamento latino. Pasolini, como bem ressaltaram os críticos há 53 anos, ‘redivinizou’ Magnani.

Mamma Roma está voltando – reestreia quinta-feira, 5 – numa versão restaurada. Na segunda-feira, 2, completam-se 40 anos da morte do cineasta. O cadáver de Pasolini foi encontrado pela manhã na praia de Óstia, próxima de Roma. Presumivelmente, foi assassinado no fim da noite anterior, ou nas primeiras horas da madrugada de 2. A polícia logo prendeu um suspeito, transformado em culpado.

Pino Pelosi, um adolescente de 17 anos, confessou o crime, mas sempre houve suspeita de que não poderia ter matado Pasolini sozinho de forma tão brutal. O carro passou várias vezes sobre o corpo. A tese oficial descartou a hipótese de crime político, de conspiração. Pasolini teria recrutado Pelosi como ragazzo di vita, um dos amantes que catava nas rua. Desentenderam-se o e o garoto, sob grande comoção, o teria matado. Em 2005, pena cumprida, Pelosi, assassino confesso, disse que não matou Pasolini.

Como Glauber Rocha no Brasil, ele foi um polemista que, na arte e na vida, confrontou a Itália com seus fantasmas. Poeta, escritor, roteirista, cineasta. Cristão e marxista – gay assumido. Pasolini nunca se esqueceu do irmão, assassinado pelos fascistas nos últimos dias da 2.ª Grande Guerra. Pouco antes de morrer, vinha denunciando o que lhe parecia o alarmante ressurgimento do fascismo na Itália. Além das costumeiras ofensas pessoais por sua homossexualidade, recebeu ameaças de morte. Quando a morte veio, foi muito conveniente ter sido um crime de paixão. Rever hoje Mamma Roma adquire outra dimensão. Sabemos tudo sobre a evolução e a destruição do autor, temos uma noção mais clara – e distanciada – do cinema italiano da época.

Em 1962, o fenômeno Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, ainda era recente. Um filme sobre choques sociais – as ondas migratórias na Itália –, contando a história da desintegração de uma família na cidade grande. Rocco é de 1960. Em 1961, Francesco Rosi, que fora assistente de Visconti, fez O Bandido Giuliano, autopsiando o mito do bandido siciliano. Em 1962, Michelangelo Antonioni terminou sua trilogia da solidão e da incomunicabilidade e, no mesmo ano, Federico Fellini realizou Oito e Meio. Pasolini não se assemelhava a nenhum deles. A Visconti, um pouco, no sentido de que compartilham a ideia da violência da cidade. O canto poético, o discurso político, o conflito entre a herança mística cristã e a tendência socializante, está tudo presente na história da prostituta que traz o filho do campo, na esperança de que ambos, finalmente, possam viver juntos. Mas ele se perde na metrópole, e nada do que a ‘mamma’ sonha se realiza. Tudo converge para aquele olhar de Anna, no fim. Neorrealismo depurado, cinema de poesia. Mamma Roma é um grande Pasolini.

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