Verhoeven: homenagem no Festival de Locarno

Depois de Samuel Fuller e Joe Dante em anos anteriores, o Festival de Locarno homenageia agora outro diretor que costuma trabalhar no limite das convenções de gêneros, usando a máquina de Hollywood com o propósito de subvertê-la. Paul Verhoeven será o personagem central da soirée de gala na Piazza Grande, no dia 11. Vai receber um Leopardo especial, por sua carreira, logo após a exibição do novo filme Hollow Man, com Kevin Bacon e Elisabeth Shue, cujo trailer já está sendo exibido nos cinemas brasileiros (e deve estrear em setembro, como O Homem sem Sombra).No site de Locarno na Internet (www.pardo.ch/), os organizadores definem Verhoeven como um cineasta corajoso e desconcertante, cujos dois períodos - o inicial, na Holanda, e o atual, no cinema americano - privilegiam os temas do sexo e das transformações do corpo, abordando-os numa linguagem que muitas vezes recorre à high tech para expressar um universo imaginativo delirante. Não por acaso, muitos de seus filmes tiveram problemas com a censura de vários países ao redor do mundo, bastando citar o holandês The Fourth Man e o hollywoodiano Instinto Selvagem.Flesh and blood (carne e sangue) são os ingredientes dominantes do cinema de Verhoeven, sendo oportuno destacar que era justamente esse o título original do seu filme sobre a Idade Média, exibido no Brasil como Conquista Sangrenta. Seus primeiros filmes, Business Is Busines, Turkish Delights e Kathy Tippel, fizeram sensação na Holanda, mas tiveram pouca difusão no exterior. O último antecipa Instinto Selvagem, ao contar a história (real) de uma mulher pobre que é obrigada a vender seu corpo e se transforma numa candidata fortíssima, além de respeitada, ao Prêmio Nobel. Ainda na fase holandesa, The Fourt Man (O Quarto Homem) exorciza as obsessões católicas do diretor, que nunca conseguiu realizar seu sonho de filmar a vida de Cristo. O protagonista de O Quarto Homem (Jeroen Krabbe) é um escritor homossexual seduzido e crucificado por uma mulher que possui ´instintos selvagens´ como a Sharon Stone do thriller com Michael Douglas.Pode parecer estranho, mas no site de Locarno Verhoeven é comparado a François Truffaut, no sentido de que ambos fazem filmes sobre mulheres, amam as personagens femininas, mas o holandês, ao contrário do francês, não é um romântico. A homenagem a Verhoeven inclui a exibição de seu filme americano mais polêmico Showgirls, que Marco Müller define como uma retomada de Kathy Tippel, sem medo de exagerar na caricatura e na vulgaridade para melhor dinamitar as convenções do sexo no cinema hollywoodiano. Tudo isso deve preparar o caminho para Hollow Man, uma fantasia futurista sobre um "homem invisível" que é envolvido numa trama de assassinatos.

Agencia Estado,

01 de agosto de 2000 | 17h28

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.