THE CANADIAN PRESS/Darryl Dyck
THE CANADIAN PRESS/Darryl Dyck

Verdadeiro alvo do filme ‘A Entrevista’ é Hollywood; entenda

Comédia que estreia dia 29 no Brasil e vai concorrer à Framboesa de Ouro foca mais no cinemão que na Coreia do Norte

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Janeiro 2015 | 18h41

Desde Ligeiramente Grávidos (2007), é a quinta vez que Seth Rogen e James Franco trabalham juntos. Vieram depois Segurando as Pontas, O Besouro Verde e É o Fim. A quinta parceria chama-se A Entrevista e virou um caso em Hollywood. Não houve filme mais comentado no final de 2014. Um crítico norte-americano chegou a dizer – é a primeira vez que um filme, ruim ainda por cima, ameaça deflagrar uma guerra.

A Entrevista é súmula das piadas dos anteriores. Conta a história de dois amigos. Um produz e o outro faz entrevistas num popular programa de TV. Descobrem que o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, é seu fã e agendam uma entrevista. Entra em cena a CIA, que invoca o patriotismo da dupla e os envolve num plano de assassinato de Kim. Tal é o plot, a trama, como se diz. Coincidência ou não, as relações entre os EUA e a Coreia, que já não andavam boas, azedaram ainda mais.

Um grupo de hackers, que se autoproclamam ‘guardiões da paz’, invadiu o servidor da empresa produtora e distribuidora Sony e divulgou e-mails pinçados das caixas postais de seus executivos. Críticas ao comportamento de Angelina Jolie, observações desagradáveis sobre Adam Sandler. A Sony, sentindo-se acuada, desistiu de estrear o filme e já se preparava para contabilizar o prejuízo de US$ 100 milhões quando houve um clamor na indústria. Artistas, políticos e jornalistas protestaram contra a empresa, sentindo que o direito à liberdade de expressão – uma das pedras de toque da Constituição dos EUA – estava ameaçado.

Até aí, a Coreia do Norte, embora protestando, jurava que não tinha nada a ver com a invasão do servidor e a divulgação dos e-mails. A Sony improvisou uma estratégia de lançamento – on demand –, A Entrevista virou hit no circuito paralelo. A exposição de mídia já valeu ao filme uma pré-indicação para o prêmio Framboesa de Ouro, que destaca os piores do ano. A Entrevista foi indicado em categorias como filme, ator (Rogen e Franco) e dupla (os dois). Agora é esperar pelo dia 14, véspera do anúncio do Oscar (dia 15). Se realmente for indicado para a Framboesa de Ouro, A Entrevista terá concorrentes como Transformers – A Era da Extinção, do eterno favorito ao prêmio, Michael Bay. Sempre nas pegadas do Oscar, a Framboesa será atribuída no sábado, 21 de fevereiro. O Oscar será entregue no dia seguinte, 22.

Parte da intelligentsia norte-americana está escandalizada com A Entrevista, considerando o filme um ato de prepotência dos EUA, que se consideram donos do mundo, a ponto de humilhar um país, mesmo que inimigo, e um governante vivo, mesmo que seja um ditador. Existem outros (ditadores) que são aliados, portanto intocáveis. Um plano da CIA para matar Kim Jong-un? Trata-se de um notório inimigo da ‘América’, mas daí a divulgar na TV as imagens de um sósia assassinado parece demais. Não contribui em nada para o precário equilíbrio do mundo, abalado por tragédias reais como o ataque do terror à sede do jornal humorístico Charlie Hebdo, em Paris.

Seth Rogen é a nova cara do humor dos EUA. Ator, roteirista e aqui codiretor (com Evan Goldberg), ele pratica a incorreção como norma. A questão é se A Entrevista justifica esse barulho todo. A fórmula é a da bro/buddy comedy, a comédia de amigos do peito, com velhas piadas de baixo-ventre. É como se Animal House encontrasse Rambo. Kim, o ditador, admite seus problemas com o pai, de quem herdou o poder. Gordo (fofo?), chora como um bebê e é tão inseguro que passa o filme perguntando se beber margaritas é sinal de homossexualidade reprimida?

Quase todas as piadas versam sobre cinema. Numa cena, Rogen, como Aaron, o produtor, observa que as pessoas adoram comer m..., e isso não é apenas uma fala clássica como o próprio conceito de Salò, de Pier Paolo Pasolini, sobre a derrocada do fascismo na Itália. O tempo todo, Aaron e Dave, Rogen e James Franco, inventam 1.001 formas de ironizar as séries O Senhor dos Anéis e O Hobbit, que Peter Jackson adaptou de JRR Tolkien. A verdade é que A Entrevista pode ser ruim, até horrível, mas tem suas tiradas, como você poderá verificar dia 29, quando o filme estrear no Brasil. O que é preciso é colocar o filme em perspectiva. A esperteza de Rogen (e Goldberg) está em mostrar como a cultura pop consegue ser boçal ao abordar a grande política. Nesse sentido, o filme é menos ofensivo à Coreia do Norte que ao planeta Hollywood, onde reina, segundo as duplas, Rogen e Goldberg, Rogen e Franco, a verdadeira idiotice.

31 milhões

é o valor em dólares arrecadado pelo filme em vendas online e sob demanda; esse número representa o lançamento digital mais lucrativo de um longa-metragem de Hollywood

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