Veneza vê o cinema social à brasileira

O Brasil desta vez ficou de fora da competição em Veneza. A participação nacional resume-se à apresentação do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento, na seção Novos Territórios. E à exibição, em cópia restaurada, do primeiro longa de Glauber Rocha, Barravento, obra de 1961.O filme de Sacramento, vencedor do festival de documentário É tudo Verdade deste ano, tem tudo para impressionar os europeus: temática social forte aliada a inovação em termos de linguagem. Prisioneiro retrata a vida no grande presídio de São Paulo, o Carandiru, agora parcialmente implodido. Mostra cenas inéditas do dia-a-dia dos detentos com incrível veracidade. E isso porque o diretor trabalhou junto com eles. Fez um laboratório dentro do presídio, ensinando técnicas de gravação em vídeo e fez com eles próprios filmassem seu cotidiano.O outro brasileiro presente em Veneza é também um exemplar do cinema social à brasileira. Estréia de Glauber Rocha na ficção em longa-metragem, Barravento traz em seu elenco nomes que depois ficariam conhecidos como atores maiores do Cinema Novo, como Antonio Pitanga e Luiza Maranhão. A trama, essencialmente política, situa-se numa aldeia de pescadores e mostra a tensão entre a religiosidade (alienada, dizia-se naquele tempo) dos nativos e a modernidade laica que vem da cidade. Filmado em Buraquinho, praia nas redondezas de Salvador, Barravento deu partida à carreira de Glauber, até hoje o cineasta brasileiro mais conhecido no exterior.Veneza tem papel importante, e inglório, na vida do cineasta baiano. Foi lá, em 1980, que apresentou seu último trabalho, o muito mal compreendido A Idade da Terra. Perdeu o festival, não se conformou, acusou a crítica de conservadora. Menos de um ano depois estava morto. Mas a partir daí sua fama não cessou de crescer, inclusive na Itália, onde seu nome continua até hoje sinônimo de cinema de vanguarda, original e engajado politicamente.

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