Veneza recorda mortes de operários siderúrgicos em dois filmes

"Meu rosto está queimado? Não queromorrer!", grita um operário siderúrgico em meio a um incêndioocorrido em dezembro passado numa usina da ThyssenKrupp nonorte da Itália, pouco antes de morrer com seis de seuscolegas. Gravados numa ligação telefônica aos serviços de emergênciafeita por outros operários, seus gritos podem ser ouvidos em"The Germans' Factory" (A Fábrica dos Alemães), um dosdocumentários sobre mortes no local de trabalho que fizeram suaestréia no festival de cinema de Veneza. "Eles estão queimados ou carbonizados?" é a perguntaassustadora do operador do serviço de emergência. "The Germans' Factory" usa entrevistas com familiares ecolegas das vítimas, bombeiros e o promotor que investigou ocaso para descrever o inferno dantesco em que sete operáriosmorreram queimados na madrugada de 6 de dezembro de 2007. Alguns deles estavam fazendo turnos noturnos regulares.Outros estavam fazendo hora extra para reforçar seu saláriomensal de menos de 1.500 euros, e um tinha apenas passado nolocal para conversar com seus colegas antes de voltar paracasa. Outros operários que tentaram salvá-los disseram que osextintores de incêndio estavam vazios e que os padrões desegurança gerais na fábrica de Turim, que estava sendodesmontada para ser transferida para a região central daItália, eram deficientes. A acusação é desmentida pela ThyssenKrupp, que no início doano fechou um acordo com as famílias para pagar indenização de13 milhões de euros. Um promotor de Turim pediu que seis dosexecutivos da fábrica sejam levados a julgamento. "Os sete mortos da Thyssen foram um despertar rude que nospôs cara a cara com a realidade", disse o diretor MimmoCalopresti nas notas de produção do filme. "Foi um pesadelo deperigo, chamas e trabalhadores que continuam a pôr suas vidasem risco." Um dos acidentes de trabalho mais graves dos últimos anosna Itália, a tragédia chocou o país e levou o governo aendurecer a legislação sobre segurança no trabalho -- com poucoefeito até agora. Quase não se passa um dia sem que jornais divulguem casosde mortes no trabalho. Uma pesquisa recente do institutoEurispes revelou que 1.170 pessoas morreram na Itália em 2007enquanto trabalhavam. É quase o dobro do número de homicídios eé muito superior às mortes no trabalho em outros paíseseuropeus. O segundo documentário exibido em Veneza foi "ThyssenKruppBlues", de Pietro Balla e Monica Repetto. O documentáriocomeçou a ser filmado antes do acidente e acompanha quase umano na vida de um dos operários demitidos da fábrica.

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