Lopert Films
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Veneza, Katharine Hepburn e um amor de verão por David Lean em 'Quando o Coração Floresce'

Filme de1955, que está chegando ao Belas Arte a La Carte, é baseado na peça de Arthur Laurents - 'Time of the Cuckoo' - e foi indicado para os Oscars de direção e atriz

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 13h26

Antes de virar o grande diretor de épicos referendados pela Academia de Hollywood - A Ponte do Rio Kwai e Lawrence da Arábia venceram os Oscars de 1957 e 62 -, David Lean tornou-se conhecido, e apreciado, por suas adaptações de Charles Dickens e por Desencanto. Brief Encounter, de 1945.; Baseado na peça de Noel Coward, e adaptada pelo dramaturgo - Still Life -, é sobre casal que se encontra numa estação de trens. Ele, Trevor Howard, é casado, ela, Celia Johnson, também, mas se sentem atraídos. Seus encontros são inocentes até que vão para aquele apartamento. Um caminho de sombras, para que o espectador não tenha dúvida de que o que irão fazer - adultério - é errado.



Em 1955, Lean dirigiu o filme que está chegando ao Belas Arte a La Carte. Summertime, baseado na peça de Arthur Laurents - Time of the Cuckoo -, foi indicado para os Oscars de direção e atriz. Katharine Hepburn faz a norte-americana virgem que passa férias em Veneza. Embora coroa, nunca deixou de sonhar com o grande amor. Encontra-o, ou assim lhe parece, com Rossano Brazzi, mas ele já é casado. Amargura e decepção. Era uma figura, esse David Lean. Casou-se cinco vezes e admitiu certa vez que era muito melhor fazendo filmes do que administrando sua vida amorosa. Dizia que cedia com facilidade às mulheres que estavam a fim dele, mas nunca teve coragem de ir atrás daquelas que realmete desejava. Veneza sempre foi cercada de uma aura romântica, mas é fato que se tornou, nos anos posteriores ao filme de Lean, o destino preferido de casais em férias, nos EUA e na Inglaterra. Summertime - literalmente Tempo de Verão. Poderia ser Férias de Amor, como o Picnic de Joshua Logan, mas, no Brasil, chamou-se Quando o Coração Floresce.


 


Brazzi é médico, mas não é cardiologista. É especialista em pulmão - o sopro de vida de que Katharine Hepburn, a personagem, necessita. Na época da filmagem, aos 48 anos - nasceu em 1907 -, 'Kate', como era carinhosamente chamada pelos norte-americanos, já estava começando a envelhecer, e se houve uma coisa que ela soube fazer foi envelhecer com graça. Uma enquete do American Film Institute apontou-a como a maior atriz de todos os tempos e a maior estrela de Hollywood. Pauline Kael, a conceituada crítica da The New Yorker, identificava certo embaraço nesse papel de solteirona ansiosa, mas era a primeira a reconhecer que tanto a estrela como o diretor tiram isso de letra. Katharine Hepburn já havia recebido seu primeiro Oscar - por Manhã de Glória, dos anos 1930 - e, nos anos e décadas seguintes, receberia mais três, por Adivinhe Quem Vem para Jantar (1967), O Leão no Inverno (1968) e Num Lago Dourado (1982).



Conta a lenda que, apesar dos Oscars e da carga reflexiva de seus épicos sobre contextos políticos e revoluções, esse era o filme preferiodo de Lean. É esplendidamente fotografado - por Jack Hildyard. Prepare-se, porque nem lá a Piazza di San Marco lhe parecerá mais bela. Como complemento ao texto, podem-se lembrar outros filmes que combinam romance com turismo. Tarde Demais para Esquecer, de Leo McCarey, de 1957, com Deborah Kerr e Cary Grant, o encontro marcado no Empire State Building, em Nova York; Candelabro Italiano, de Delmer Daves, de 1964, com Suzanne Pleshette e Troy Donahue, aquela lambreta nas ruas de Roma; Um Lugar Chamado Notting Hill, de Roger Michell, de 1999, com Julia Roberts e Hugh Grant, com a pequena livraria em Londres; e Paris, toujours Paris - como em Acossado, de Jean-Luc Godard, de 1960, com Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo.

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