Alberto PIZZOLI / AFP
Alberto PIZZOLI / AFP

Veneza é o primeiro festival da era covid-19

77ª edição acontece de forma presencial a partir de quarta-feira, 2, na cidade italiana, com menos estrelas e muitas medidas de segurança

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

01 de setembro de 2020 | 14h08


Num ano em que o cinema ficou praticamente paralisado, com salas fechadas, produção parada e festivais como Cannes cancelados, Veneza quer enviar ao mundo um sinal de otimismo e solidariedade com a indústria. “É hora de reabrir porque não podemos nos permitir ficar confinados durante muito tempo”, disse à agência EFE Alberto Barbera, diretor do Festival de Veneza, o primeiro de grandes proporções a retomar uma edição presencial – outros, como Locarno, aconteceram de forma virtual, enquanto Toronto, que começa dia 10, vai ser ao vivo apenas para o público da cidade. 

Como prova de que a união faz a força, a abertura do 77º Festival de Veneza nesta quarta-feira, 2, contará com a presença de diretores de outros sete festivais de cinema europeus: Cannes, Berlim, Locarno, San Sebastián, Roterdã, Karlovy Vary e Londres. “Acreditamos que é possível”, afirmou Barbera à EFE. “Esperamos que o festival possa se converter numa espécie de laboratório. Que sirva como exemplo para outros, que seja a demonstração de que, se forem respeitados medidas e  protocolos, é possível voltar ao cinema e a fazer filmes.”



Claro que não vai ser o mesmo Festival de Veneza dos últimos anos. Não haverá a chegada – de barco! – de astros como Brad Pitt, Scarlett Johansson e Joaquin Phoenix, que no ano passado saiu do Lido de Veneza, a ilha onde acontece o evento, consagrado com o Leão de Ouro por Coringa para ganhar o Oscar de melhor ator. Os grandes filmes de Hollywood, que usaram o festival como uma plataforma para suas campanhas pelas estatuetas douradas, não estão presentes na seleção, até porque seus lançamentos estão indefinidos. Outros simplesmente não ficaram prontos devido às medidas de confinamento. 

Os longas americanos presentes têm uma pinta mais independente, caso de Nomadland, de Chloé Zhao (de Domando o Destino), estrelado por Frances McDormand, e One Night in Miami, estreia na direção da atriz Regina King. Devido às restrições de viagem entre Estados Unidos e Europa, a presença das equipes será apenas virtual. Há poucos latino-americanos também, segundo Barbera por uma redução nas inscrições. New Order, do mexicano Michel Franco, é o único na disputa do Leão de Ouro. Dez dos 18 longas da competição são dirigidos por europeus. Apenas dois são americanos, e cinco do continente asiático. 



Treze dos 18 cineastas nunca participaram da competição. Um recorde de 8 longas dirigidos por mulheres disputam o Leão de Ouro. “Eles foram escolhidos com base somente em sua qualidade e não para seguir protocolos de gênero”, escreveu Barbera na introdução da seleção. O diretor foi muitas vezes criticado pela presença pequena de diretoras entre os selecionados. Mas este é o terceiro Festival de Veneza em quatro anos em que o júri é presidido por uma mulher. Depois da atriz americana Annette Bening em 2017 e da cineasta argentina Lucrecia Martel ano passado, é a vez da atriz australiana Cate Blanchett

A ausência dos grandes filmes e estrelas de Hollywood afastou parte da imprensa internacional, já desfalcada pelas restrições de viagem – brasileiros, chilenos, macedônios e bósnios estão proibidos de entrar na Itália por qualquer razão, a não ser que sejam residentes. A equipe de Narciso em Férias, documentário sobre a prisão de Caetano Veloso durante a ditadura militar, vai participar por Zoom. Quem vem de fora da Europa, do Reino Unido e dos países signatários do Tratado de Schengen precisa apresentar um teste negativo 72 horas antes da partida, fazer um teste na chegada e outro cinco dias após. Se algum der positivo, a pessoa tem de ficar de quarentena, por sua conta. Gregos, espanhóis e croatas também precisam apresentar um teste negativo 72 horas antes da partida. Búlgaros e romenos precisam cumprir quarentena de 14 dias ao entrar na Itália. Isso deve ter influenciado na substituição de Cristi Puiu pelo ator Matt Dillon no júri – o cineasta romeno também andou reclamando da obrigatoriedade do uso de máscaras no Festival da Transilvânia, algumas semanas atrás. 



Mas mesmo europeus pesaram bem sua decisão. Veterana do Festival de Veneza, a repórter alemã Mathilde Bernard resolveu pular esta edição. “As poucas entrevistas que temos vão ser virtuais”, disse ela. “Veneza sempre foi um dos meus festivais favoritos. Mas 2020 é diferente. Ano que vem estarei de volta.” A jornalista italiana Alessandra de Tommasi, baseada em Roma, hesitou por dez segundos, mas, como freelancer, achou que não poderia perder a oportunidade. “Eu sou da Itália e sei como o país reagiu à pandemia. Então tenho confiança de que, na pior hipótese, pelo menos estarei em quarentena no meu próprio país, e o sistema público de saúde vai cuidar de mim.” Também italiano, só que de Milão, a poucas horas de trem de Veneza, Marco Consoli acredita que a covid-19 vai continuar por um bom tempo. “E, para viver com ela, temos de gerenciar o risco. Ou seja, usar máscaras, praticar distanciamento social, encontrar a chamada nova normalidade.” O número de casos tem aumentado na Itália, mas parece sob controle. Ontem, foram registrados 996 novos casos – no Vêneto, região onde o festival é realizado, foram apenas 65.

O Festival de Veneza tomou uma série de medidas, com acompanhamento de várias instâncias governamentais. Todos terão de usar máscaras o tempo inteiro, inclusive durante as projeções – e no tapete vermelho. O público não poderá se aproximar do tapete vermelho nem da saída do palácio do festival. As salas terão sua capacidade reduzida pela metade, com várias sessões dos mesmos filmes. Daí a redução da seleção para um total de 64 produções, sendo apenas 18, em vez das habituais 21, na competição. Todos, inclusive os jornalistas, terão de reservar seus lugares nas salas de exibição. No primeiro dia de reservas, o site não funcionou direito, mas aparentemente os problemas foram resolvidos. Haverá controle de temperatura nos pontos de entrada da área do festival, escaneamento de convites e credenciais e obrigatoriedade de uso de álcool-gel. As filas serão organizadas para evitar aglomerações, assim como a saída das salas. Restaurantes funcionarão sob reserva. Tudo pensado para identificar quem tiver contato com um eventual doente por covid-19. 



Ainda assim, a preocupação existe. “Estou com medo de voltar ao ritmo de um festival depois de sete meses em casa. Estou com medo de como tudo vai funcionar. Será que vou ficar presa em Veneza se houver um surto de covid-19?”, disse a jornalista polonesa Anna Tatarska. Além de um estoque de máscaras, luvas e álcool-gel, ela decidiu dormir numa barraca num camping, em vez de dividir o quarto com um colega, e comprou um seguro-saúde especial. Também está levando comida para evitar surpresas nos supermercados. “Sinto mais medo do que empolgação.” Mas, ela ponderou, não deixa de ser uma situação cinematográfica. “Eu me sinto como protagonista de um thriller psicológico estranho. Então talvez haja algo a absorver disso tudo.”

 

Filmes que disputam o Leão de Ouro

 

  • And Tomorrow the Entire World (Alemanha, França), de Julia von Heinz
  • Dear Comrades! (Rússia), de Andrei Konchalovsky
  • In Between Dying (Azerbaijão, México, EUA), de Hilal Baydarov 
  • Laila in Haifa (Israel, França), de Amos Gitai
  • Lovers (França), de Nicole Garcia 
  • Miss Marx (Itália, Bélgica), de Susanna Nicchiarelli
  • Never Gonna Snow Again (Polônia, Alemanha), de Malgorzata Szumowska e Michal Englert
  • New Order (México, França), de Michel Franco
  • Nomadland (EUA), de Chloé Zhao
  • Notturno (Itália, França, Alemanha), de Gianfranco Rosi
  • PADRENOSTRO (Itália), de Claudio Noce
  • Pieces of a Woman (Canadá, Hungria), de Kornél Mundruczó
  • Quo Vadis, Aida? (Bósnia e Herzegovina, Áustria, Romênia, Holanda, Alemanha, Polônia, França, Noruega, Turquia), de Jasmila Zbanic
  • Sun Children (Irã), de Majid Majidi
  • The Disciple (Índia), de Chaitanya Tamhane
  • The Macaluso Sisters (Itália), de Emma Dante
  • The World to Come (EUA), de Mona Fastvold
  • Wife of a Spy (Japão), de Kiyoshi Kurosawa

 

 

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