AP Photo/Domenico Stinellis
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Cate Blanchett faz apelo em defesa do cinema no primeiro dia do Festival de Veneza 2020

Diretores de oito grandes festivais europeus, inclusive o de Veneza, assinaram um comunicado para reivindicar a importância deste tipo de evento

Gonzalo Sánchez, EFE

02 de setembro de 2020 | 15h03

VENEZA - Veneza conseguiu iniciar, na quarta-feira, a 77ª edição de seu Festival de Cinema, ameaçada durante meses pela pandemia. A abertura veio com um apelo para ajudar o setor nestes momentos “excepcionais” e contou com o apoio da atriz Cate Blanchett.



Nestes tempos difíceis para todo o mundo, assim como para o setor do cinema, a Mostra apresentou-se como um bastião a partir do qual se defende a indústria cinematográfica, mantendo sua celebração, algo que não foi possível com Cannes, por exemplo. O diretor artístico da competição veneziana, Alberto Barbera, insistiu nesta ambição durante a coletiva de abertura, na qual lembrou que os festivais são lugares de cultura e economia e reivindicou sua proteção em todo o planeta.


 

Um apelo europeu em defesa do cinema


Junto a seus homólogos de outros sete grandes festivais europeus, o Festival de Cinema de Veneza escreveu um comunicado para reivindicar a importância deste tipo de evento.

O documento leva a assinatura de Barbera, do diretor de Cannes, Thierry Fremaux; do de São Sebastião, José Luis Rebordinos; do de Locarno,  Lili Hinstin; da Berlinale, Carlo Chatrian; de Rotterdam, Vania Kaludjeric; do tcheco Karlovy Vary, Karel Och e de Londres, Tricia Tuttle, ausente na quarta-feira por motivos pessoais.

E em suas páginas, eles prometem colaborar no futuro nesta defesa, no que parece ser uma intenção de abarcar, ao menos na medida do possível, a competição que os festivais têm mantido nos últimos anos para atrair para si os melhores títulos e estreias.

“É o momento de reivindicar o papel e a importância dos festivais em apoio à promoção do cinema de todo o mundo e do europeu em particular”, argumentam.

Nesse sentido, lembram que “são centros de cultura, lugares de formação a serviço de jovens diretores, roteiristas e produtores que encontram neles oportunidades financeiras para criar desenvolvimento e conhecimento, apoio profissional e financeiro”.

E concluem: “Por isso os festivais representam um insubstituível apoio à indústria cultural e à produção audiovisual”.

Rebordinos, por sua vez, disse que essa reunião é “muito importante” porque um festival é “um ponto de encontro para ver filmes, trocar experiências e para se fazer negócios”. Recuperemos e defendamos os festivais como lugares onde as pessoas vão, reúnem-se, porque isso terá de ser justificado cada vez mais e não apenas no mundo do cinema”, advertiu.

E acrescentou: “Vamos ter que reivindicar em nosso cotidiano o direito a nos reunirmos, o direito de nos tocar, o direito a nos beijar e o direito a fazer coisas juntos, reunindo-nos e aproveitando todo tipo de coisas e, neste caso, o cinema”.


 

Cate Blanchett: Defesa da renovação do cinema


Ao apelo se juntou a australiana Cate Blanchett, presidente do júri que entregará em 12 de setembro o Leão de Ouro e uma das poucas estrelas que este ano desfilarão pelo Lido veneziano, já que a pandemia dizimou o número de presentes.

Para a atriz, que ganhou o Oscar por papéis em O Aviador (2004) e Blue Jasmine (2013), a pandemia e sua consequente crise podem ser um importante incentivo para melhorar e renovar o cinema, para fazê-lo “emergir novamente”.

“Temos a possibilidade de examinar o que não estudamos antes, como a tecnologia do streaming e suas implicações ao mundo do cinema. Há muitas oportunidades para abrir grandes questões”, apontou na coletiva de imprensa de abertura.

Então, defendeu que “cada vez que se começa do zero é hora de jogar fora o que se tinha entendido antes e se arriscar a falhar”. “A indústria vai ressurgir mais resiliente, criativa e inventiva. Estou cheia de esperanças neste sentido. Há muitos desafios neste sentido”, considerou.

Cate apontou que um dos desafios é a “monocultura do streaming”, a expansão das plataformas que permitem ver filmes em casa, apesar de participarem de um festival, o de Veneza, que a cada ano admite produções da Netflix.

Neste sentido, insistiu na necessidade de manter as salas convencionais de cinema abertas, justo quando se comemora 120 anos da invenção do cinema pelos irmãos Lumière.



 

Um drama italiano de família para abrir a mostra

Em todo caso, a mostra veneziana, o festival internacional de cinema mais antigo do mundo, levantou a cortina para receber sua edição mais inédita e protegida contra o vírus.  Para sua abertura, fora da competição, Lacci, o primeiro filme italiano a abrir o festival nos últimos anos, em um gesto de ajuda ao setor do país transalpino.

A adaptação do romance homônimo de Domenico Starnone (2014), um best-seller, Lacci é um drama de família em que se desemaranham os laços mais íntimos do coração partido e da traição.

O filme, que segue duas linhas temporais para mostrar dois momentos distintos de um casamento, é protagonizado pelo locutor de sucesso Aldo, interpretado na versão mais jovem por Luigi Lo Cascio e na mais velha por Silvio Orlando, e pela professora Vanda (Alba Rohrwacher e Laura Morante). Juntos formam uma família em Nápoles, nos anos 1980, têm dois filhos e embarcam em um relacionamento idílico que rapidamente se transforma em cacos por causa de uma infidelidade.

Isso desencadeará um furacão de rancor e vingança no qual o casal deverá viver e do qual nunca escapará, nem mesmo com o passar dos anos, tendo que lidar com os “laços” de seus erros do passado e cogitando espinhosos dilemas para o perdão.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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