GUGLIELMO MANGIAPANE/REUTERS
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Vencedor do Leão de Ouro, 'Nomadland' desponta como forte concorrente às estatuetas de 2021

Nomadland deve se juntar a ganhadores mais recentes, como 'A Forma da Água', que saiu com o Leão de Ouro em 2017, 'Roma' e 'Coringa'

Mariane Morisawa ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 17h27

Mesmo com sua edição mais enxuta, o Festival de Veneza só confirmou sua tendência de dar o Leão de Ouro a filmes que certamente vão parar na lista de indicados ao Oscar com a premiação de Nomadland, da chinesa radicada nos Estados Unidos Chloé Zhao. A vitória de longas como o filipino A Mulher que se Foi, de Lav Diaz, em 2016, e o venezuelano De Longe te Observo, de Lorenzo Vigas, em 2015, parece cada vez mais coisa do passado. 

Nomadland deve se juntar a ganhadores mais recentes, como A Forma da Água, de Guillermo del Toro, que saiu com o Leão de Ouro em 2017 para levar quatro Oscar, inclusive direção e filme; Roma (2018), de Alfonso Cuarón, que, após o prêmio principal em Veneza, teve dez indicações a estatuetas douradas, ganhando direção, filme em língua estrangeira e fotografia; e Coringa (2019), que venceu o festival italiano e concorreu em 11 categorias na premiação da Academia, levando duas. 

Zhao é a quinta mulher a ganhar o Leão de Ouro em 77 edições. Antes dela, apenas Margarethe von Trotta (Os Anos de Chumbo, de 1981), Agnès Varda (Os Renegados, de 1985), Mira Nair (Um Casamento à Indiana, de 2001) e Sofia Coppola (Um Lugar Qualquer, de 2010) venceram o prêmio. “Fico muito honrada de seguir o caminho aberto por elas”, disse Zhao, na entrevista coletiva após a premiação, por Zoom – a diretora não pôde viajar à Itália por causa da covid-19. “Eu acredito que a natureza humana precisa de um equilíbrio entre o yin e o yang. Então, não podia continuar como antes. Tenho muita esperança no futuro.” 

Em Nomadland, Frances McDormand é Fern, uma mulher que perde tudo: o marido, o trabalho e até a cidade onde mora. Como milhares de outros americanos, ela passa a viver na sua van, viajando pelo país atrás de empregos temporários. Mas, em meio à solidão e à precariedade, ela encontra beleza e empatia. Nômades reais participam do filme, seguindo o método usado pela diretora em seus longas anteriores, Songs My Brothers Taught Me (2015) e Domando o Destino (2019), que tinham como personagens moradores de reservas indígenas.

“Ficamos muito inspirados por sua jornada”, disse Zhao a respeito dos nômades. A diretora contou que perguntou a um dos personagens o que as pessoas poderiam fazer para ajudar. A resposta foi algo simples, que custa pouco: que lhes dirijam um olhar sem medo e lhes ofereçam um sorriso. “Por isso, tenho muita gratidão ao júri, porque, se pudermos ajudar que eles ganhem alguns sorrisos a mais, já fico feliz.” Depois de Nomadland, feito com uma equipe de 25 pessoas, Zhao lança Eternos, uma das novas produções da Marvel.

O 77º Festival de Veneza foi o primeiro de grande porte a ser realizado durante a pandemia. A edição foi menor: cerca de 65 filmes em vez de centenas, 5 mil credenciados no lugar dos 12 mil do ano passado, 20 mil ingressos vendidos na primeira semana – em 2019, foram 42 mil no mesmo período. Também houve menos produções de Hollywood de olho no Oscar e menos estrelas no tapete vermelho. A principal atração foi a presidente do júri, a australiana Cate Blanchett.

Uma série de medidas de segurança, incluindo um muro separando o tapete vermelho da rua, checagem de temperatura, obrigatoriedade de máscaras o tempo todo, foi tomada. Não houve notícias de casos positivos de covid-19. “Eu me senti seguro”, disse o jornalista italiano Marco Consoli. “Como tínhamos de reservar assento nas salas pelo site, não havia filas nem aglomeração”, completou. Ele também achou a seleção boa. Só fizeram falta as entrevistas, principalmente com astros e estrelas. A australiana Stephanie Bunbury elogiou a edição, apesar disso. “Tudo foi mais fácil”, disse. “Claro que produções grandes são importantes, mas, no fim, não achei uma troca tão ruim assim. Eu vi muito mais filmes do que costumo, porque não havia sessões de entrevistas intermináveis no estilo Hollywood, em que você perde a tarde inteira.” 

A italiana Alessandra De Tommasi ficou surpresa como todo o mundo seguiu as regras. “Foi tudo muito organizado”, contou. “Só foi estranho porque não se viam italianos se abraçando e beijando. Eu gostei porque foi bem mais tranquilo que nos anos anteriores, mas também foi um festival totalmente diferente, sem interações e com poucos jornalistas internacionais. Eu gosto de gente, então, foi um pouco duro para mim.”

 

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